t Girl Novel
   Livro 07

infamous
  Garotas em Festa
No leia o que escrevem sobre voc.
      Mea em centmetros.
      -- ANDY WARHOL
 A misso de Jenny Humphrey neste feriado de Ao de Graas 
   proporcionar s amigas Tinsley e Callie um agradvel fim de
 semana em Nova York: descanso e muitas compras. Mas quando
      seu pai decide convidar os amigos hare krishnas para a
comemorao, as meninas no tm outra sada seno procurar um
  lugar menos esquisito e barulhento para ficar.  a que entra a
 superfesta que a tambm esquisita Yvonne Stidder est dando em
seu apartamento. L est igualmente barulhento, mas ao menos os
    hare krishnas foram substitudos por um monte de gatinhos.
         principal sala de leitura da Biblioteca Swayer estava estranhamente silenciosa na
         quarta-feira  tarde antes do Dia de Ao de Graas. Brett Messerschmidt bateu a
         beirada de sua pilha de anotaes em carto no carvalho sulcado da imensa mesa de
estudos onde estava. Livros de latim com uma tipologia elegante e cursiva se espalhavam a
sua frente, como se a mochila tivesse explodido. S alguns alunos continuavam na biblioteca,
uns com bolsas estufadas aos ps, esperando que os utilitrios Lexus dos pais os pegassem e
os levassem para um fim de semana de peru caipira orgnico e HDTV.
      Desde que veio para a Waverly Academy, Brett morria de medo de voltar 
espalhafatosa McManso dos pais em Rumson, Nova Jersey, tendo concludo que cada
aspecto da vida suburbana no Garden State era completamente deselegante. Talvez fosse pelo
pesadelo que foi sua vida no semestre passado, mas no suportava pensar no molho de amora
direto-da-lata do pai, nem na insistncia da me em enfrentar o shopping abarrotado em Short
Hills na Sexta-feira Negra. A ideia de se sentar num banco do shopping ao lado da me,
comendo um pretzel quente e amanteigado da Auntie Anne's, mesmo cercadas de sacolas e
mais sacolas de roupas da Betsey Johnson e da Guess, fazia Brett se sentir meio tosca.
      O estalo da cadeira de madeira a sua frente a trouxe de volta ao presente. Encostado
perigosamente em uma estante de revistas estava um rapaz alto de cabelos escuros, com uma
expresso que pairava entre o tdio e a diverso. Brett semicerrou os olhos verdes e
amendoados para ele, tentando v-lo objetivamente, como se no tivesse passado as ltimas
quatro semanas procurando fazer com que ele decorasse Ccero -- e como se ele j no fosse
um tremendo p no saco para ela.
      -- Sebastian. -- Brett enfiou uma mecha de cabelo ruivo e sedoso atrs da orelha e
tentou aparentar severidade. Ela marcou hora com o cabeleireiro no sbado, grata pelo
iminente fim de semana de Ao de Graas e pela chance de ir a algum lugar alm do
Supercuts no Rhinecliff Mall -- no que algum da Waverly realmente fosse l. -- Foco, por
favor.
      -- Quer mesmo que eu preste ateno? -- Um fraco raio de sol de outono caiu no
queixo de Sebastian, lembrando a Brett o quanto essa poca do ano a deprimia. Quando saa
de sua ltima aula, j estava escuro. -- Talvez da prxima vez voc possa usar alguma coisa
mais sexy em vez de, sei l, parecer a Sra. Birdsall. -- A Sra. Birdsall era a bibliotecria-
chefe, cujo uniforme consistia em um suter de gola rul preto e uma saia comprida de
veludo, mesmo no vero.
      Brett o encarou.
      -- Sou sua monitora, seu nojento, e no uma Pussycat Doll.
      Ela tentou no deixar que o comentrio a incomodasse, partindo de algum que julgava
se uma menina era gata pela quantidade de pele que ela mostrava. Ela sabia que estava
atraente com o suter American Apparel de gola rul, preto e justo, e o jeans Calvin Klein
preto de corte reto, com um cinto vermelho e estreito cingindo a cintura pequena. Era um
visual que planejou com cuidado, caso encontrasse algum universitrio da Williams ou da
Bard mais tarde, no trem Metro-North indo para a Grand Central.
      -- Voc tambm no est l muito concentrada -- resmungou Sebastian, tocando o
cabelo denso e escuro, como se quisesse ter certeza de que tinha aplicado bastante gel pela
manh. Ele tinha. -- E. Qual. . O. Problema? -- Ele destacou as palavras batendo o p da
cadeira no cho e olhando nos olhos de Brett. A camisa branca de manga comprida parecia
ter sido pisoteada, o contorno da camiseta branca claramente visvel por baixo.
      -- O problema -- disse Brett com um suspiro, querendo pela centsima vez sacar uma
navalha e decepar aquele cabelo brilhante --  que provavelmente voc no vai se formar.
Ser um presente de Natal e tanto para mame e papai, no ?
      -- No vamos falar dos meus pais -- disse ele, ajeitando-se na cadeira. Os olhos
escuros, quase pretos, fitavam Brett com arrogncia. -- Eu vou me formar, ento no fique
toda irritadinha.
      Brett bufou.
      -- O que o faz pensar assim? -- Ela o olhou. O cheiro de Drakkar Noir permeava a rea
ao redor e ela apenas agradeceu pela biblioteca estar vazia. A Sra. Birdsall j trancara as
portas dos andares superiores -- aparentemente temerosa de que alguma coruja assanhada
tentasse se entocar na biblioteca durante o fim de semana prolongado, profanando os
sagrados espaos de estudo.
      -- Porque... -- Sebastian sorriu, recostando-se, revelando uma pequena lasca no
incisivo inferior que sempre surpreendia Brett. Por que ele ainda no consertou esse dente?
-- Eu mexo com voc.
      Brett sentiu pelo corpo uma onda de eletricidade -- parte irritao, parte algo mais.
      -- Olha aqui. No estou fazendo isso por prazer pessoal.
      -- Sei alguma coisa sobre seu prazer pessoal, se estiver interessada.
      Ele tinha sorte por no haver ningum por perto, ou ela pegaria os livros abertos de
latim e bateria nele. Com fora.
      -- I've got you, babe -- ele comeou a cantar. Estalou os dedos ao cantarolar o resto da
msica.
      Brett se obrigou a reprimir um sorriso da piada idiota. A realidade era que ele no
estava levando as sesses de estudos a srio e, quer reconhecesse ou no, corria um risco
verdadeiro de perder o ano na Waverly. Ela bateu as unhas cor de amora (Madame Butterfly,
da Nars) no seu Mac iBook branco fechado. Ainda no tinham visto nem metade das coisas
que ela queria pesquisar naquele dia.
      Sebastian passou a mo no rosto, parecendo to exasperado com Brett quanto ela estava
com ele.
      -- Olha, por que no damos o fora daqui? Tomamos um caf ou coisa assim, e voc
pode me contar o verdadeiro motivo para agir com toda essa caretice.
      Brett fechou bem os olhos, pensando em mil outros lugares onde poderia estar em vez
de perder seu tempo na biblioteca com Sebastian. Infelizmente, aquele em que ela no queria
pensar era o mais fcil de imaginar -- aconchegada com Jeremiah Mortimer, seu namorado
vai-e-vem, na frente de uma lareira crepitante da cabana de esqui da famlia dele no
Colorado, bebendo chocolate quente caseiro em imensas canecas de cermica. Ou talvez
entre partidas de Imagem & Ao, ouvindo os pais de sangue azul da Nova Inglaterra e gosto
perfeito contarem a histria de como se conheceram. As imagens zombavam dela, lembretes
dolorosos do que ela podia ter se fosse um pouco mais inteligente.
      Porque, infelizmente, graas a seu pequeno lance experimental com Kara Whalen
enquanto ela e Jeremiah davam um tempo, e sua subsequente mentira a respeito disso, agora
estavam permanentemente separados.
      O telefone de Sebastian vibrou na mesa de madeira. Ele o pegou e franziu a testa para a
tela. Atendeu num sussurro baixo:
      -- Cara, pensei ter dito para nunca mais ligar para mim.
      Brett cruzou os braos e olhou as revistas na prateleira atrs de Sebastian. Ficou tentada
a pegar um exemplar da New Yorker para ler no trem na ida para casa, mas j comprara uma
revista People na loja de convenincia na cidade e a ideia de ler sobre os problemas dos
outros era muito mais atraente. L se foi a inteno de impressionar universitrios.
      Antes de dar um tapa na mesa para lembrar a Sebastian de que estavam estudando e que
os celulares no campus, em especial na biblioteca, eram estritamente proibidos, seu prprio
celular vibrou na bolsa Zac Posen xadrez preta com uma nova mensagem de texto. Ela o
pegou e se surpreendeu ao ver o nome Bree iluminado sob o envelopinho. Veria a irm dali a
algumas horas -- estava louca para vestir o moletom rosa-shocking Juicy Couture e vegetar
na frente do telo de TV em sua sala de mdia com Bree. E talvez falar de Jeremiah e do
quanto sua vida estava uma droga.
      Adivinha quem vem para jantar?, dizia o texto. Brett respondeu, Quem?, embora
desconfiasse da resposta antes que aparecesse na telinha: Willy. Brianna mal conseguia falar
de outra coisa alm do grande Willy Cooper Terceiro desde que se conheceram meses antes,
enquanto estavam em mesas adjacentes na Waverly Inn. No incio, Brett ficou curiosa e quis
conhec-lo, mas quanto mais Bree falava dele, mais ele parecia um bobalho. Ele era
formado em Yale, tinha MBA da Wharton, trabalhava em Wall Street para um dos maiores
bancos de investimento e no tirava frias h trs anos desde que chegara l. A no ser, ao
que parecia, para passar o Dia de Ao de Graas com os Messerschmidt. Brett esperava que
ele no se importasse de se sentar no sof e ver maratonas da MTV o dia todo.
      O telefone vibrou novamente. E os pais dele. Brett olhou as quatro palavras com o
estmago arriando no cho. Parece que ela realmente ia dividir Bree neste fim de semana.
Brett queria responder, De Greenwich at a?, mas resistiu. Em vez disso, fechou o telefone,
olhando Sebastian, que ainda ria alto ao celular, distrado do fato de que a Sra. Birdsall os
fuzilava com os olhos da mesa da recepo. Brett bateu num relgio invisvel no pulso e
esbugalhou os olhos para ele. Sebastian ergueu um dedo e assentiu.
      -- At mais, cara. -- Ele fechou o telefone, largando-o no bolso da mochila a seus ps.
-- Desculpe. Era importante.
      -- , parecia importante mesmo -- disse ela com rispidez, arrancando uma lista de
vocbulos de seu caderno de espiral e empurrando para Sebastian.
      -- Ei, voc tambm estava ao telefone -- ele retrucou com raiva, pegando o papel.
      -- , esperando que voc desligasse o seu. -- Brett ficou agradecida por repreender
Sebastian, porque podia fazer isso no piloto automtico. Impedia que as lgrimas de
frustrao brotassem de seus olhos. Ia mesmo ter estranhos invadindo sua casa no feriado de
Ao de Graas? Se havia um ano em que precisava de alguma tranquilidade para se refazer,
era este. Agora, se quisesse ter alguma paz, teria de se entocar no quarto com alguns DVDs.
Brett se imaginou de pernas cruzadas sob o edredom, a neve cobrindo Nova Jersey enquanto
ela comia o jantar de Ao de Graas num prato no colo, metendo o garfo num pedao frio de
peru gorduroso e passando-o no pur de batatas com cheddar da me, enquanto ouvia ao
longe a discusso do mercado de aes que rolava na sala de jantar.
     A Sra. Birdsall apagou uma srie de luzes fluorescentes e metade da biblioteca ficou s
escuras. Brett olhou o relgio na parede e saltou da cadeira.
     -- Merda -- murmurou, enfiando freneticamente os cadernos na bolsa e vestindo o
casaco DKNY preto e curto. Como podia ter ficado to tarde? Todo o projeto de salvar
Sebastian estava condenado desde o incio, ento por que manter essa farsa?
     -- Vou me atrasar para meu trem. Voc que estude sozinho.
     -- Feliz Dia de Ao de Graas, t? -- disse ele quando Brett j estava de costas. Ela
passou o cachecol xadrez amarelo L.A.M.B. no pescoo e colocou as luvas de couro preto.
Abriu as portas duplas da biblioteca e saiu na tarde cheia de neve, ao escurecer, absorta
demais com terrveis vises dos Cooper de Greenwich para se despedir.
   OwlNet                      Caixa de Mensagem Instantnea


RyanReynolds: Eu vi vc saindo de uma porcaria de Fiat? WTF?

BennyCunningham: Acho que papai est com crise de meia-idade.
Sacou a peruca?

RyanReynolds: Vi essa peruca do outro lado do parque! Vc sabe o
que vem agora? Uma nova Mamezinha Querida.

BennyCunningham: No, eles querem o melhor para os filhos.
Alm disso, eles tm um acordo.

RyanReynolds: O que quer dizer que todo mundo vai levar
namorado no feriado?

BennyCunningham: Vc entendeu.

RyanReynolds: Posso ir?

BennyCunningham: Voc no ia conseguir lidar com a gente. Ta-
t!
   OwlNet                        Caixa de Mensagem Instantnea


LonBaruzza: Algum tem um osso da sorte? Eu tenho um desejo
incrvel.

AlanStGirard: O que ?

LonBaruzza: Agora, na estao de trem, vendo Tinsley, Callie e
Jenny reunidas no frio... Queria que elas estivessem nuas...

AlanStGirard: Seria uma viso e tanto. Kd a Brett? Precisa de uma
ruivinha a para ficar completo.

LonBaruzza: O que mais gosto nessas meninas  que a qualquer
hora elas podem sair no tapa.

AlanStGirard: Se rolar, tira uma foto, brother. Bom feriado!
            crepsculo azul pendia sobre a estao lotada do Metro-North. A plataforma
            estava repleta de alunos da Waverly carregando bolsas de viagem cheias de roupa
            para lavar, ansiosos para pegar o ltimo trem de Rhinecliff para a cidade -- e para
            longe das presses da Waverly Academy por alguns dias preciosos e curtos. Jenny
Humphrey deixou no cho a abarrotada bolsa de viagem L.L. Bean cor-de-rosa, ao lado de
Tinsley Carmichael e Callie Vernon, cujas figuras magras estavam cobertas por grossos
casacos de l, enquanto acampavam em um dos poucos bancos sob o toldo da estao, as
bolsas Louis Vuitton e Prada espalhadas a seus ps.
      -- Ainda no veio? -- choramingou Callie para Jenny antes de enfiar o queixo em sua
pashmina azul-beb. De gorro de tric azul e luvas da mesma cor, parecia uma coelhinha da
neve patricinha. -- Vou morrer congelada.
      Tinsley abraou Callie, apertando seu ombro esquerdo com uma das mos cobertas
pelas luvas para dirigir forradas de pele.
      -- Se no morreu congelada nos bosques do Maine, no vai morrer congelada na
plataforma de trem de Rhinecliff -- debochou Tinsley carinhosamente, espanando flocos de
neve de seu sobretudo Chanel vintage, cinza e acinturado.
      -- Eu posso morrer mesmo. -- Callie fungou, os lbios bonitos retorcidos numa careta
de desespero que estava ali desde que Easy Walsh, o amor de sua vida, foi expulso da
Waverly -- para sempre. Como um cavaleiro em sua armadura prateada, ele alugou um avio
e foi resgat-la das instalaes de reabilitao/campo de treinamento no Maine para onde sua
me a banira. O herosmo de Easy e a felicidade dos dois no duraram muito tempo. O reitor
Marymount estava l quando saram do avio no aeroporto de Rhinecliff, esperando para
dizer a Easy que ele violara a condicional ao sair do campus. Expulsou Easy de imediato. --
 como se nunca mais eu fosse ver meu namorado de novo.
      Infeliz, Callie se remexeu no banco. Era to ridculo -- ele tinha quebrado as regras
para salvar a vida dela, e no para, tipo assim, fumar maconha e jogar Xbox. O reitor
Marymount podia ter sido um pouco mais solidrio, mas no, teve de ser o fodo e provar ao
mundo que era ele quem mandava. E por que o pai de Easy teve de matricul-lo num colgio
militar super-rigoroso em algum lugar do Tennessee ou da Virgnia Ocidental ou outro estado
de caipiras? Easy estava em confinamento total, j que a escola no permitia telefonemas
nem e-mails. Chegou aos ouvidos dela que ele agora era um cadete de Blue Ridge, mas era s
o que ela sabia. Era como se as pessoas relutassem em falar o nome dele desde que
desaparecera. Todos os seus telefonemas e torpedos ficaram sem resposta, at que por fim ela
recebeu uma mensagem dizendo que a caixa postal dele estava lotada. O e-mail dele da
Waverly foi cancelado e a conta no Yahoo! foi encerrada. Os e-mails desesperados de Callie
de cad voc? voltavam imediatamente depois de ela clicar em enviar, as pavorosas respostas
automticas se acumulando em sua caixa de entrada por semanas antes de ela ter coragem de
delet-las.
      Callie tinha medo porque no tinha a menor ideia de como eram os dias de Easy por l.
Ou se ele pensava nela. Durante a viagem de avio de volta do Maine tudo parecia to
perfeito -- seu Prncipe Encantado realmente foi salv-la. Mas seu estmago embrulhava s
de pensar em como o reitor Marymount tenha sido horrvel parado ali na pista, ansiando pela
chance de desfazer o felizes-para-sempre dos dois.
      -- nimo -- pediu Jenny, esfregando as luvas de algodo listrado Gap como se tentasse
criar fogo. -- Voc est de folga, lembra?
      Jenny estava linda e feliz, como sempre, de p ali com o casaco vermelho mnimo e as
luvas. Sua colega de quarto, Callie, sempre se maravilhava que ela conseguisse manter o
nvel de energia em "alegrinha" sem um suprimento constante de caf expresso nas veias.
      -- Tudo bem, vou tentar. S que dizem que a Ao de Graas  o pior feriado para se
viajar, e vou ficar brigando com multides de rabugentos de feriado no JFK.
      Callie colocou os dedos nas tmporas, j exausta s de pensar na viagem que tinha pela
frente: trem at a Grand Central, txi ao JFK, avio a Atlanta, s para ter de fazer o caminho
inverso dias depois. Ela odiava o Dia de Ao de Graas. S mais uma desculpa para a me
arrast-la de volta ao Sul e bancar a Martha Stewart e tentar ench-la de biscoitos e molho de
peru, tudo cheio de gordura. E depois de toda a histria de envi-la-por-acidente--
reabilitao-e-quase-mat-la, toda a viagem parecia to atraente como um prato de rao para
cachorro.
      Tinsley ergueu uma sobrancelha para Jenny, revirando os olhos violeta num gesto de
conspirao.
      Jenny piscou para Tinsley, depois se virou para Callie.
      -- Pelo menos ela gastou na primeira classe para voc -- observou Jenny, ainda
tentando animar Callie. Ela nunca viajara de primeira classe na vida e imaginou que seria um
paraso.
      Jenny chutou um montinho de neve no cho e olhou os trilhos de novo. Ainda era quase
impossvel acreditar que Tinsley Carmichael pudesse lhe lanar algo alm de olhares fatais.
Ou que ela prpria estivesse tentando animar Callie. Afinal, s umas semanas antes, Tinsley e
Callie tramaram para que Jenny levasse a culpa pelo incndio que destruiu o celeiro da
fazenda dos Miller -- e deu certo, Jenny encarou a expulso. Mas desde ento tudo mudou.
Sem que Jenny soubesse, Callie pagou a Sra. Miller para colocar a culpa pelo incndio nas
vacas, e no num aluno descuidado da Waverly. A me de Callie, pensando que o cheque
imenso que Callie pediu tinha algo a ver com um problema com drogas, despachou Callie
para a reabilitao no Maine. Assim que Jenny descobriu o canhoto do cheque na gaveta da
cmoda da colega de quarto, percebeu que sua salvao no foi Drew, o gato do ltimo ano
que ela andou beijando, mas sua colega de quarto. Ento Jenny correu at Tinsley, que tinha
acabado de receber um e-mail frentico de Callie implorando que algum a salvasse de seu
inferno na reabilitao, e as duas pegaram emprestado o carro de Sebastian, colega de quarto
de Drew. Carro que, infelizmente, morreu na estrada do Maine antes de conseguirem chegar a
Callie. Jenny e Tinsley foram obrigadas a passar a noite juntinhas para se aquecerem -- no
era exatamente uma coisa que Jenny imaginara poder ter algum resultado positivo. Mas
naquela primeira manh, quando acordaram e descobriram que estavam estacionadas nos
limites de um country club o tempo todo, Tinsley insistira em pagar um caf da manh
gourmet para as duas, de omeletes de ovos brancos e suco de grapefruit fresco.
      E as coisas foram diferentes desde ento. Ainda no eram amigas, no exatamente, mas
o que quer que fossem, Jenny ia aceitar.
      Tinsley jogou a cabea para trs, o cabelo comprido e quase preto ajeitando-se
teatralmente sobre o casaco cinza. Recostou-se no banco e esticou as longas pernas, cruzando
as botas pretas Sigerson Morrison na altura dos tornozelos.
      -- Cal, meu bem, voc precisa seriamente transar.
      Callie soltou um gritinho e colocou as mos nos ouvidos.
      -- Nem acredito que voc acabou de dizer isso.
      Tinsley lanou outro olhar a Jenny, que sorriu. Ela estava apenas... feliz.
      As ltimas semanas no foram exatamente fceis para ela, depois de saber que Drew, o
cara por quem estava completamente apaixonada, tentara engan-la totalmente deixando que
acreditasse -- e at dizendo a ela -- que foi ele que a salvou da expulso. Mas era tudo
mentira -- Callie  que a havia salvado, Drew s estava tentando, bem, us-la. Jenny tentou
evit-lo ao mximo, mas a Waverly era uma escola pequena e sempre que ela via um cara de
jaqueta de lacrosse, virava e ia para o outro lado -- e rpido.
      O bom nisso tudo  que ela agora tinha um apreo renovado por Callie, sua verdadeira
salvadora. Jenny e Callie passaram muitas noites na sala de estar do segundo andar, de
pijama, comendo pipoca e vendo filmes da ampla coleo do Dumbarton Hall. s vezes
Tinsley at se juntava a elas, zombando de suas preferncias de mulherzinha, embora Jenny
tivesse a sensao de que ela no fundo gostava mais de uma boa comdia romntica piegas do
que dos filmes estrangeiros em preto e branco que ela sempre escolhia.
      -- Estou louca para comer peru -- disse Jenny, olhando sonhadoramente o vazio.
      Ia voltar para casa, para Nova York, para seu pai, para seu apartamento enorme no
Upper West Side com o teto superalto e a tinta descascando. O feriado de Ao de Graas
significava manhs confortveis no sof, vasculhando os discos velhos no toca-discos vintage
do pai enquanto o irmo, Dan, passava o dia todo na espreguiadeira de couro remendado
lendo um livro grosso. Ela estava chateada por Dan no poder ir este ano -- ele decidiu
construir casas em Spokane com a Habitat for Humanity --, mas ele prometeu que
compensaria no Natal.
      -- Estou louca para ver nossa casa de novo. -- Tinsley apertou o joelho magro de
Callie numa tentativa de distra-la de seus pensamentos depressivos. -- Ficaram reformando
o apartamento por meses, tentando preparar tudo para meu feriado. -- Ela passou as ltimas
semanas imaginando as melhorias na cobertura revestida de carvalho dos pais em Gramercy
Park. Esperava que no tivessem tocado no lustre da biblioteca, que a fazia pensar em uma
cascata de diamantes caindo sobre ela quando se sentava embaixo dele. O Dia de Ao de
Graas dos Carmichael sempre era um acontecimento. Nos anos anteriores ela conheceu
pintores, modelos, artistas e escritores, inclusive Sofia Coppola, que apareceu num dia de
Ao de Graas com um lindo modelo, anos mais novo do que ela. Fez com que Tinsley
quisesse ser uma cineasta famosa um dia.
      Tinsley no confessaria isso a ningum, mas sentia falta dos pais. Estava louca para
ficar a manh toda deitada na cama queen-size, sentindo o cheiro de peru invadindo o quarto,
antes de se arrastar para fora para ajudar a me e Judit, a cozinheira, a encher os bowls
Limoges com deliciosos vegetais assados e queijos gourmet. Depois iria para o banheiro --
aimeuDeus, um banheiro s dela de novo! -- e se encheria de mimos, e finalmente colocaria,
recm-banhada e esfoliada, o vestido verde-escuro Missoni parecido com o que Keira
Knightly usou em Desejo e reparao. Ela beberia vinho com os adultos e talvez um deles
tivesse levado o filho jovem e sexy, de Stanford, para Tinsley se entreter depois que os
adultos ficassem tediosos. Sim, seria um feriado perfeito.
       Um ronco ao longe colocou todo mundo de p. Cigarros foram apagados sob sapatos de
salto e o ar se encheu da tagarelice animada e das despedidas de ltimo minuto. Apressadas,
Tinsley e Callie pegaram as bolsas e as trs garotas foram juntas para a beira da plataforma.
O trem parou com um guincho na estao enquanto todos se acotovelavam perto das portas.
       -- No posso viajar de costas! -- gritou algum desesperadamente, fazendo com que as
trs rissem.
       As portas se abriram com um silvo e Jenny, Tinsley e Callie embarcaram.
       -- Pera, cad a Brett? -- perguntou Jenny, olhando por sobre o ombro o mundo de
gente que empurrava para entrar no trem,
       -- Ela vai pegar esse? -- perguntou Tinsley, os olhos semicerrando-se.
       Ela deixou que Jenny subisse em seu conceito, mas Brett era outra histria. Sua colega
de quarto rabugenta s ficou mais rabugenta desde que Jeremiah a largara depois de descobrir
que ela tinha sido uma lsbica temporria, e mesmo que Tinsley sentisse um pouco de pena
da ex-amiga, Brett no fazia o menor esforo para se entender com ela.
       Callie inclinou-se para trs, procurando a cabine.
       -- Eu a vi na biblioteca com Sebastian mais cedo.
       -- Ela vai perder o trem -- disse Jenny, o alarme encobrindo seu rosto.
       -- Peguem aqueles quatro lugares -- instruiu Tinsley, apontando um quadrado livre de
assentos no meio do trem. -- Ei, esses so nossos -- exclamou ela a dois calouros magrelos
que ficaram paralisados no corredor. Ao ver Tinsley, deram cordialmente um passo para o
lado. -- Obrigada, meninos. -- Ela lhes lanou um sorriso agradecido por sobre o ombro
enquanto colocava a bolsa no bagageiro e deslizava para o assento na janela. Callie se sentou
de frente para ela.
       Jenny se sentou no banco do corredor e olhou em volta, esperando achar uma Brett
esgotada disparando pelo corredor a qualquer momento.
       Em vez de Brett ela viu Drew, com seu cabelo cor de areia, que entrou no trem com
alguns meninos do ltimo ano, todos rindo de alguma coisa. De imediato, o estmago de
Jenny embrulhou.  claro que estavam falando dela e de como Drew quase a convenceu a
perder a virgindade com ele.
       -- No me diga que tambm no pode viajar de costas -- disse Tinsley, os olhos
focalizados na sbita palidez de Jenny.
       Jenny balanou a cabea, tirou o gorro e soltou o rabo de cavalo, sacudindo os cachos
longos e passando o elstico no pulso. Expirou alto e meteu o gorro no bolso.
       -- No  nada.
       Tinsley tirou o casaco, deixando que casse no banco vazio ao lado. Cruzou os braos.
       -- No me parece um nada.
       -- Eu o vi tambm. -- Callie dobrou o cachecol e o enfiou, como um travesseiro, entre
a cabea e a janela. -- Drew.
       A meno do nome dele provocou um arrepio pelo corpo de Jenny e ela cravou as unhas
nas palmas das mos para no chorar. No sabia o que a magoava mais: as mentiras de Drew,
ou o fato de que quase cedera a ele sem questionar.
       -- Algum espalhou o boato de que ele tem DST -- disse Tinsley com malcia e um
sorriso na cara. -- Isso do cara que...
       Jenny deu uma gargalhada.
       -- Para com isso. -- Jenny podia contar em uma das mos as vezes em que viu Tinsley
sorrir e se perguntou se ela sabia que ficava ainda mais bonita assim.
       -- Sabe qual  o seu problema? -- perguntou Tinsley, mexendo na delicada argola de
prata que pendia da orelha.
      -- No, mas tenho a sensao de que vai me dizer. -- Jenny recostou-se na cadeira,
surpresa por poder brincar com Tinsley sem se preocupar com revides. Callie riu.
      Tinsley torceu o nariz e mostrou a lngua a Jenny, conseguindo continuar glamourosa
mesmo assim.
      -- Voc se apaixona por caras que mal conhece e transforma tudo numa grande histria
dramtica de amor, como se estivesse numa porcaria de filme. -- Ela tornou a cruzar as
pernas, alisando os jeans Earl escuros.
      -- Eu... -- comeou Jenny, a mente em disparada.
      Easy Walsh. Julian McCarfferty. Drew Gately. Ela pensou que todos eram seu
verdadeiro amor -- e olha onde estava agora. Ela at quase se apaixonou por Heath Ferro --
em sua primeira noite na Waverly. Heath? Eca!
      Tinsley examinou as unhas com esmalte, procurando imperfeies imaginrias.
      -- Voc precisa relaxar, garota. Divirta-se. No leve tudo to a srio. Quero dizer, voc
no est pensando em se casar, est? -- Seus olhos violeta encontraram os castanhos e
grandes de Jenny. -- Ou est? -- acrescentou ela, com malcia. Callie, j cabeceando de sono
ao lado de Tinsley, gargalhou.
      Jenny corou.
      -- Para voc,  fcil falar -- retrucou. -- Voc nunca se apaixonou.
      Uma sombra atravessou o rosto de Tinsley. Ela tombou a cabea de lado e franziu a
testa. Jenny se preocupou por um momento que ela fosse dar o bote como uma cascavel,
rpida e mortal.
      -- No ?
      Jenny esperou por uma resposta mordaz, mas Tinsley no disse mais nada, encarando a
janela do trem, embaada por muitos corpos em um espao to pequeno. Jenny ouviu tantos
boatos sobre Tinsley que no sabia se acreditava em todos ou em nenhum. Nos momentos em
que odiava Tinsley, estava convencida de que a garota tinha dormido com a maioria dos
professores, bem como com todos os caras da Waverly e das escolas vizinhas, como a St.
Lucius. Mas sabia que isso era s para se sentir melhor com suas prprias ficadas
constrangedoras. A expresso de mgoa de Tinsley incitou a imaginao de Jenny -- ser
que Tinsley Carmichael realmente se apaixonou? Se for verdade... Por quem?
      Jenny se acomodou em seu banco, pegando o iPod mini no bolso. Bem, pensou ela, tudo
era possvel.
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VerenaArneval: E a, vai sentir falta do Alan no feriado?

AlisonQuentin: Hummm, estamos dando um tempo, ento... NO.

VerenaArneval: O qu? No recebi essa notcia.

AlisonQuentin: Foi s ontem. Parece que a ex dele tambm vai
para a casa no feriado, e quer se encontrar com ele e fumar uns
baseados.

VerenaArneval: E da? Alan  maconheiro. Grande coisa.

AlisonQuentin: ... Mas eu sei o que o Alan gosta de fazer quando
t chapado.

VerenaArneval: Ento por que vai sair no feriado? Isso no  dar
permisso a ele para fazer isso?

AlisonQuentin: No se ele quiser falar comigo de novo!
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De: exmagov@gmail.com

Para: CallieVernon@waverly.edu

Data: Quarta-feira, 27 de novembro, 15:15h

Assunto: Re: Dados do voo

Ento no se esquea de que nos veremos logo, meu amor. Vamos
conversar. Bjs mame.

Quarta-feira, 27 de novembro
Partida 20:15h Nova York (JFK)
Voo 399 sem escala da Delta para Atlanta (ATL)
         randon Buchanan tentou enfiar o ltimo frasco de gel para barbear Acqua di Parma
         na estufada bolsa de viagem de couro surrado John Varvatos, mas o zper no
         fechava. Heath Ferro, com quem tinha o azar de dividir um quarto pelos ltimos dois
         anos, manteve-o acordado por metade da noite com sua tagarelice incoerente de
bbado sobre o quanto ele odiava o Dia de Ao de Graas, at que Brandon se manifestou:
      -- Agradeceria se algum calasse a porra da boca.
      Heath entendeu isso como um convite para listar todas as coisas pela quais ele era grato,
comeando pelos biqunis fio dental, indo at os palitinhos de queijo.
      Mas, de qualquer forma, Brandon no conseguira dormir. Estava morrendo de medo do
feriado de Ao de Graas. Para falar com franqueza, morria de medo de todos os feriados --
ter de pegar o trem para Connecticut, at a casa sem alma de seu pai, da m-drasta e dos dois
meios-irmos gmeos incrivelmente irritantes que, a essa altura, aprenderam a andar e
tropeavam pela casa, puxando gavetas de prataria e derrubando estantes enquanto a
madrasta arrulhava sobre a inteligncia deles. Mas desta vez era ainda mais difcil ir embora
porque ele iria sem Sage Francis, sua namorada h um ms. Nos ltimos dias ele devaneou
com cenrios que incluam os dois entrando num avio para passar o feriado em Paris ou indo
de jatinho at a casa de inverno de seus pais na Flrida, em West Palm Beach, para um
feriado ensolarado. Mas era tarde demais para herosmos de ltima hora -- todos os voos
estavam lotados.
      Uma batida na porta o assustou -- a essa altura o Richards Hall estava quase vazio --, e
ele levantou a cabea, vendo Sage em pessoa na soleira da porta, com um novo casaco de l
verde acinturado, o cabelo louro e sedoso numa trana francesa que o afastava do rosto, com
alguns fios soltos de um jeito glamouroso. O alto da cabea estava coberto por flocos de neve
se derretendo.
      -- Oi -- disse ele, e imediatamente se sentiu dez vezes melhor. -- Desculpe pela
baguna.
      --  o lado do Heath que est uma baguna -- observou Sage, os grandes olhos azuis
da cor do mar vendo uma cueca boxer Calvin Klein cinza de Heath pendurada em uma pilha
de livros no canto da mesa. -- O seu sempre est... imaculado. Parece que tem uma fronteira
no meio do quarto ou coisa assim.
      -- Vou tomar isso como um elogio. -- Brandon tocou de leve a cintura de Sage,
passando os dedos no tecido do casaco novo. -- Gostei desse.  Michael Kors?
      -- Como  que voc... -- Sage meneou a cabea, interrompendo-se. Seus olhos
percorreram o quarto como se procurassem alguma coisa. -- Deixa pra l. Voc sempre sabe.
      Brandon hesitou, perguntando-se se era hora de lhe dar o presentinho de despedida. Ela
parecia meio... irritada com ele, embora tivessem ficado juntos at o toque de recolher na
noite anterior, sentados em um dos sofs do Maxwell, reclamando de suas famlias. Devia ser
porque ela estava nervosa, afinal ia ficar com a irm mais velha no feriado. A irm que Sage
reclamava que sempre foi a bonita e inteligente da famlia (Brandon achou isso difcil de
acreditar). Mas Sage no estava aliviada por ter um namorado que realmente gostava de ouvir
o que ela pensava e no tentava transar com ela o tempo todo?
      -- Tem espao para isso? -- disse ele colocando a mo por baixo do travesseiro para
pegar um pacote pequeno, embrulhado em jornal.
      Brandon sabia que embrulhar o presente era demais, mas esperava que o fato de estar
em jornal negasse a cafonice do gesto.
      Sage se encostou no batente da porta, tombando um pouco a cabea de lado.
      -- Depende do que for -- disse ela com malcia.
      Brandon estendeu o pacotinho de jornal para ela e, depois de olh-lo por um minuto,
Sage o pegou. Rasgou a beirada do jornal e espiou o que havia dentro.
      -- Abra -- estimulou Brandon. --  s uma coisinha, assim voc vai saber que estou
pensando em voc. -- Ele sentiu o calor subir ao rosto. Nas ltimas semanas, deixara bilhetes
carinhosos na caixa de correio de Sage, tinha entrado furtivamente no Dumbarton para deixar
uma nica rosa em sua porta pelo aniversrio de um ms, a levara ao penhasco para ficar de
mos dadas e ver o sol nascer.
      -- Lembro de um garoto no ensino fundamental que uma vez embrulhou a tartaruga de
estimao dele e deu  menina de quem gostava -- disse Sage com desconfiana. -- 
melhor que no seja uma tartaruga.
      Que coisa esquisita de se dizer, pensou Brandon.
      -- Humm, eu nem saberia onde achar uma tartaruga -- disse, perguntando-se se Sage
tinha alguma fobia incomum de rpteis. -- Espero que seja do seu tamanho -- continuou ele,
sentando-se na beira da mesa e alisando o suter Armani.
      Sage rasgou o papel e segurou a pequena caixa de joias na palma da mo. Uma
expresso de pavor atravessou o rosto dela e o medo o dominou.
      -- Mas o que voc fez? -- perguntou Sage, em pnico.
      Brandon andou at ela e abriu a tampa da caixa, erguendo o colar de balas e abrindo-o
para que Sage o colocasse. Ele se lembrou de Sage dizendo que adorava colares de balas
quando estava no fundamental, mas que era triste no ter achado nenhum com seu nome,
como as outras meninas tinham. Brandon vasculhou a internet atrs de uma empresa que
gravasse SAGE da noite para o dia, e no saiu nada barato.
      -- Tem seu nome nele.
      -- Caramba. -- Sage recuou um pouco, tocando a tmpora com as unhas rosa e
lascadas. -- Isso ... -- Sua voz falhou.
      -- O qu? -- perguntou Brandon, afagando o queixo, preocupado. Ele deu um passo na
direo dela, sentindo o cheiro do leave-in hidratante Frdric Fekkai que ela borrifara no
cabelo. -- Tem alergia a balas? -- Ele procurou na memria qualquer meno a alergias --
aspirina, talvez, mas no colares baratos de balas.
      Sage tocou o colar e correu os dedos por ele, examinando as letrinhas gravadas nas
balas.
      -- No, isso  mesmo muito doce.
      Encorajado, Brandon colocou a mo no quadril de Sage, o casaco frio sob sua pele.
      --  s uma coisa, sabe como , para voc se lembrar de mim. -- A ideia de ficar sem
ela por quatro dias lhe dava vontade de agarr-la e colocar a boca na dela, mas ele se
controlou. -- Achei que voc podia guardar as duas ltimas e podemos comer quando
voltarmos.
      Os olhos de Sage se fixaram nas pontas das botas de hipismo de couro brilhante Elie
Tahari.
      -- Humm, t, combinado. -- Mas antes que Brandon pudesse dizer alguma coisa, Sage
levantou a cabea com os olhos subitamente cheios de confuso. -- No, pera. Na verdade,
no.  doce demais.
      O encanamento estremeceu nas paredes e soltou um estalo alto. O corao de Brandon
foi ao cho. Doce demais. Ele desabou involuntariamente na cama bem-feita.
      -- Como assim?
      Sage cerrou os lbios finos.
      -- Acho que no posso mais continuar saindo com voc -- soltou ela.
      -- Por causa de um colar de balas idiota?
      -- No, Brandon -- disse Sage gentilmente, e Brandon se sentiu ainda pior por ela
tentar no ter pena dele. -- No  por causa do colar. Eu vim aqui meio que sabendo que
tinha que terminar com voc.
      -- E por qu? -- Brandon gemeu. -- As coisas esto to...
      -- Voc  doce demais, Brandon. -- Os brincos de pingente de Sage puxavam os
lbulos das orelhas para baixo, algo que ele sempre percebeu. Ele j havia reservado um par
de brincos de diamante na Tiffany para lhe dar de Natal. Ainda bem que no fez o depsito.
-- Tudo o que voc faz  superprestativo e superdoce. Voc  meio... assim... sei l...
feminino demais.
      -- Feminino? -- Brandon se levantou. Ele sabia que feminino era cdigo para uma
coisa: gay. -- Porque tento fazer coisas legais para voc?
      Como isso podia estar acontecendo de novo? Parecia uma reprise do pesadelo de Callie
largando-o; s que pelo menos Sage era corts ao ponto de lhe falar em vez de se agarrar com
Easy Walsh em pblico para dar a entender que a relao tinha acabado.
      -- Voc  sentimental demais. Eu j tenho muitas amigas, entendeu? -- Ela chutou a
mala dele, agitando os produtos de toalete dentro dela. -- O que uma garota quer  um cara
que no tire as mos dela, que de uma hora para outra a jogue no cho e acabe com ela.
      Voc  louca, Brandon queria gritar, mas na verdade no estava com vontade nenhuma.
      -- Acho que sou cavalheiro demais para fazer o gnero demolidor. -- Sua voz no saiu
com a frieza que ele queria -- mais parecia um gemido.
      Sage olhou nos olhos de Brandon pela primeira vez desde que entrou no quarto.
      -- Acho que o problema  esse. -- Antes que ele entendesse o que estava acontecendo,
Sage avanou para ele e plantou um beijo em seu rosto. -- Feliz Dia de Ao de Graas, t?
      T. At parece que isso ia acontecer agora.
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De: ReitorMarymount@waverly.edu

Para: Corpo Estudantil

Data: Quarta-feira, 27 de novembro, 16:45h

Assunto: Refeio de Ao de Graas

Caros alunos,

Desejo-lhes um feriado de Ao de Graas seguro e feliz.
Para todos os nossos alunos estrangeiros sem planos para os
feriados, o Salo de Jantar da Waverly abrir em seu horrio
normal, com um cardpio limitado.
A talentosa equipe do Salo de Jantar tambm dar um banquete
especial e culturalmente diversificado de Ao de Graas amanh,
das 17:00 s 18:30h. Eu e vrios de seus professores preferidos
estaremos neste jantar e ansiamos por uma conversa instigante
sobre a histria do nosso pas e o que significa dar graas.
Desejo-lhes um bom intervalo de suas responsabilidades escolares.

                          Atenciosamente,
                         Reitor Marymount
         enny via o rio Hudson correr pela janela ao se aproximarem da cidade, seus olhos
         pesados de sono. Na janela, o reflexo de Callie e Tinsley estava imvel, a conversa
         das duas silenciada pelo rudo tranquilizador do trem que seguia para o sul. O
alvoroo dos primeiros minutos no trem esmoreceu rapidamente quando todos ligaram seus
iPods ou pegaram os Blackberries, enviando furiosamente torpedos sobre os planos de fim de
semana. Jenny fechou os olhos, ainda se perguntando quem seria o amor perdido de Tinsley.
Eric Dalton? O jovem e sexy professor da Brown que ela afastou de Brett e que a prpria
mais tarde conseguiu que fosse demitido da Waverly? Parecia improvvel -- Tinsley tratou a
coisa toda como uma piada, outra marca em seu cinto de couro Prada.
      -- Ei, meninas! -- cantarolou uma voz ofegante com um leve sotaque britnico.
      Antes de abrir os olhos, Jenny sabia que Yvonne Stidder, uma bobalhona do primeiro
andar do Dumbarton, estava parada acima delas. Ela era bem legal, mas sempre que falava,
Jenny tinha a sensao de que Yvonne a estava sugando ou coisa assim.
      -- Tm algum plano grande e excitante para o feriado?
      Tinsley abriu apenas um olho e olhou friamente a loura com cara de passarinho.
      -- Excelente pergunta. -- Ela fechou o olho de novo, os clios longos e grossos fazendo
sombras no rosto.
      -- Na verdade, no. -- Jenny se sentia mal por Yvonne, mas tambm no queria
exatamente andar pela Columbus Avenue com ela. Ainda assim, no seria grosseira. -- S
estou louca para chegar na minha casa.
      Yvonne sorriu, os olhos claros cheios de uma gratido que deixou Jenny pouco 
vontade. O trem balanou e Yvonne se segurou no encosto da cadeira de Callie. Callie
encarou Yvonne como se no conseguisse imaginar por que estava falando com ela.
      -- Porque, se no tiverem planos para esta noite -- continuou Yvonne impvida,
empurrando para cima os culos com aro de metal --, esto totalmente convidadas para
minha festa de Ao de Graas. -- Ela observou Tinsley e Callie, para ver sua reao, e
ento, sem ter recebido nenhuma, virou-se para Jenny. -- Na esquina da 80 com a Park.
Procure o toldo verde. Nmero sete. s nove horas.
      Callie fingiu mexer na bolsa Lanvin laranja queimado, o que -- Jenny sabia --
significava que ela tentava no rir de Yvonne. Ela olhou para cima por um breve segundo, os
olhos castanhos varrendo a cala de veludo cotel chocolate e curta demais de Yvonne e o
suter laranja Ralph Lauren com o emblema azul de polo no peito.
      -- Se meu avio atrasar, talvez.
      -- . -- Jenny aproveitou a deixa. -- Se meu pai no tiver nada para esta noite, eu dou
uma passada por l.
      -- Demais. -- Yvonne sorriu para Jenny, colorindo o rosto plido. -- Vejo vocs l.
Espalhem por a. -- Yvonne andou pelo corredor, parando no grupo seguinte de alunas da
Waverly.
      -- Dez Coisas que Prefiro Fazer Hoje  Noite a Ir  Casa de Yvonne Stidder. -- Tinsley
se recostou no banco e sorriu maliciosamente. -- Nmero dez: comer um peru vivo, com
penas e tudo.
      Callie riu e pegou um tubo de Lip Glaze com Guava da Stila na bolsa e passou nos
lbios.
      -- Nmero nove: passar o Dia de Ao de Graas com o reitor Marymount. Jogando
Twister. Sem roupa nenhuma.
      Jenny riu.
      -- Voc ou ele?
      Tinsley abriu a boca para responder quando seu Nokia tocou no bolso do casaco.
      -- Caixa postal... Algum deve ter ligado quando estvamos no tnel. -- Ela abriu o
celular e ouviu o recado com a testa meio franzida. --  minha me. -- No meio do recado
seu queixo caiu, e Jenny e Callie trocaram olhares preocupados, preparando-se para uma
Tinsley Carmichael ensandecida. -- No d para acreditar -- vociferou Tinsley depois de
fechar o celular.
      -- O que foi? -- perguntou Callie, com cautela. -- No tem peru de tofu esse ano?
      -- A droga do piso da porcaria do apartamento precisa de outra camada de poliuretano
ou uma merda dessas. -- Tinsley balanou a cabea, assombrada, parecendo mais perdida do
que Jenny j vira. -- Ento eles decidiram ir para a merda de St. Barts. Vo passar o feriado
l!
      As trs ficaram em silncio por um momento, Jenny se perguntando que tipo de pais vai
para St. Barts e s avisa  filha na ltima hora.
      -- Olha, acho que podemos arrumar outra passagem para Atlanta -- props Callie,
meio de brincadeira. -- Sua presena tornaria um jantar de Estado muito mais suportvel.
      Os lbios de Tinsley formaram um biquinho delicado.
      -- Obrigada, mas no quero desembrulhar meu vestido de debutante.
      Callie franziu o cenho.
      -- D pra voc ficar no apartamento, ou ele est, tipo assim, de quarentena?
      -- Eles querem que eu fique num hotel -- suspirou Tinsley, revirando os olhos. Seu
rosto rapidamente se comps numa expresso tpica e levemente entediada, mas Jenny sabia
que ela estava aborrecida com toda a histria. -- Algo me diz que o carto AmEx de papai
vai pagar pelo jantar de Ao de Graas mais caro que o Soho Grand j serviu.
      Embora fosse divertido passar o fim de semana num hotel de luxo, Jenny no conseguia
imaginar passar o Dia de Ao de Graas assim. Sozinha.
      -- Venha pra minha casa -- disse ela por impulso, inclinando-se para a frente e
colocando a mo no joelho de Tinsley. -- S vamos ficar meu pai e eu, e vai ser bom ter mais
algum com quem conversar.
      Tinsley virava o celular na palma da mo, pensando. Ela torceu os lbios.
      -- No vai atrapalhar?
      -- Ah, francamente. Rufus adora minhas amigas altas e charmosas! -- disse Jenny,
sorrindo. -- No pode ficar sozinha no Dia de Ao de Graas.
      Ela se encolheu ao pensar no pai danando na manh seguinte de roupo com estampa
havaiana, cantando msicas dos Beach Boys enquanto fazia a torrada. Ou Tinsley acharia
incrivelmente cativante -- ou pra l de irritante. Jenny teve a sensao enjoativa de que podia
ser a ltima opo.
      Callie vasculhou a bolsa, desligando-se da conversa de Tinsley e Jenny, entrando em
pnico de repente por achar que tinha esquecido a passagem de avio. Era estranho que
Tinsley e Jenny passassem o feriado de Ao de Graas juntas -- Callie no conseguia deixar
de sentir um pouco de cime. Dois meses antes, Tinsley teria asfixiado Jenny com um
travesseiro enquanto ela dormia, e agora iam fazer guerras de travesseiro e ririam comendo
pipoca tarde da noite na casa de Jenny.
      Isso no a incomodava de verdade. S o que ela queria era Easy. As pessoas j estavam
cansadas de suas lamrias, mas o que Callie podia fazer? Ela percebia os olhares vidrados de
Jenny, Tinsley e Brett quando ela comeava a falar do quanto sentia falta dele, e no podia
culp-las. Ela tambm estava enjoada disso, mas no sabia como parar, alm de talvez
contratar um detetive particular para rastrear Easy onde quer que ele estivesse e talvez libert-
lo, se os detetives particulares pudessem fazer esse tipo de coisa. Quem sabe pagando um
extra?
      Ela revirou a bolsa toda, dominada por um pnico desesperado ao fazer a busca. Mas
onde est a passagem do avio? Ela a viu quando chegou por FedEx de sua me e depois a
enfiou na gaveta de cima da cmoda para se lembrar de guardar na bolsa. Mas era na gaveta
de cima que ela guardava o que a me podia chamar de seus "berloques femininos", e ela no
pegou nenhuma das coisas de seda para o dia Ao de Graas, j que ningum ia apreciar
mesmo.
      O canto de um envelope branco se projetou sob os jeans dobrados e ela o puxou. Arr!
Callie virou o envelope, procurando pela abertura. Estava lacrado. Ela no se lembrava de ter
lacrado. Sem dvida no se lembrava de lacrar. E sem dvida no tinha escrito a letra C num
corao na frente. Seu corao bateu forte no peito enquanto ela passava uma unha
recentemente pintada pelo alto do envelope aparentemente impenetrvel, finalmente
revelando um pedao amassado de papel pautado, rasgado de um caderno. Ela reconheceu a
letra de Easy de imediato e as lgrimas brotaram de seus olhos s porque ela sentia tanta falta
disso.

     Callie
     Se voc recebeu isto, eu devo estar no colgio militar e no posso me comunicar.
Mas eu tenho um plano -- vou fugir para Nova York no fim de semana de Ao de
Graas, Estarei no topo do Empire State s oito da noite no dia de Ao de Graas,
como em Tarde demais para esquecer, ok? (No  romntico?) Tem outra coisa aqui,
algo que eu queria te dar, mas estava esperando pela hora certa. Acho que perdi essa
hora, ento terei de fazer isso agora.  um anel de compromisso. Prometo que nos
veremos logo e estarei pensando em voc todo dia at l.
     Eu te amo.
     Easy,

     Callie remexeu no envelope at que caiu em seu colo um pequeno anel platinado, com
uma ametista em forma de pera. Ela deu um gritinho, sobressaltando Jenny e Tinsley. Callie
pegou o anel entre o polegar e o indicador e o colocou no dedo anular direito.
     --  do Easy! -- exclamou ela. --  um anel de compromisso.
     Os olhos de Jenny se arregalaram.
     --  mesmo? Isso  bem srio, n?
     Callie no pde deixar de sentir uma pequena onda de triunfo -- apesar do breve caso
de Easy com Jenny no incio do semestre, ele voltou para Callie, e para sempre. Uma viso
dela mesma num vestido de noiva branco e esvoaante no alto do Empire State, o ar soprando
seus cachos luxuriantes em volta dela como um anjo, danou em sua mente. Ela de repente
podia sentir os lbios fortes de Easy em sua boca e o trem agora parecia lento demais.
      -- Ele vem a Nova York -- cochichou Callie confidencialmente, olhando em volta para
evitar enxeridos.
      -- Que pena que voc vai para Atlanta -- lembrou Tinsley. -- E acho que nessa mo s
aliana de noivado.
      -- Perdi minha passagem -- disse Callie simplesmente, estendendo a mo e olhando o
anel. Era meio parecido com uma aliana de noivado, de certo modo. Uma aliana de noivado
pr-noivado,  isso.
      -- Est no seu bolso de fora. -- Tinsley cutucou a cintura de Callie. -- Eu vi voc
colocar quando samos do Dumbarton.
      Callie colocou a mo no bolso lateral do casaco de pele de camelo e ficou decepcionada
ao encontrar a passagem. De repente percebeu que tinha total controle da situao.
      -- Foda-se. Eu no vou. -- S porque tinha uma passagem de avio no queria dizer
que precisava us-la. -- Se ela acha que pode me enfiar na reabilitao e depois me chamar
para passar o dia de Ao de Graas em casa s para me ignorar enquanto no faz nada alm
de trabalhar...
      -- O esprito  esse. Foda-se a governadora. -- Tinsley sorriu com malcia. -- Depois,
foda-se Easy.
      Callie concentrou os olhos castanhos em Jenny e soprou uma mecha loura arruivada do
rosto.
      -- E a, quantas camas seu apartamento tem mesmo? -- perguntou Callie a Jenny
suavemente, com a voz melosa que usava para pedir favores.
      O suter solto de Tinsley escorregou dos ombros, revelando a pele clara e macia e a ala
preta do corpete de seda.
      -- Vai mesmo dar bolo na sua me? Tem certeza de que quer fazer isso?
      Callie ergueu o anel de compromisso.
      -- Eu vou para Nova York. E ponto final. -- Ela se virou para Jenny, que ainda no
tinha respondido  pergunta.
      -- Claro que pode ficar na minha casa! -- exclamou Jenny, sentindo-se meio excitada
por Tinsley Carmichael e Callie Vernon realmente se hospedarem em seu apartamento.
      Ser que ela ainda tinha aquele pster do vero passado de Shia LaBeouf em
Transformers pregado no alto da cama? Ou aqueles desenhos em preto e branco do concurso
de hinos da Constance Billard? Ela no conseguia se lembrar, mas esperava que as provas de
sua monguice de infncia pudessem ser reduzidas ao mnimo.
      -- Vai ser como uma festinha de pijama gigante.
      Tinsley riu.
      -- Ao de Graas Chez Humphrey -- disse ela, balanando as mechas escuras. --
Quem diria?
      Jenny sorriu e olhou novamente o Hudson. Seu pai sempre a estimulava a levar as
amigas para ele conhecer -- bem, agora ele teria uma dose dupla delas.
   OwlNet                         Caixa de Mensagem Instantnea


CelineColista: Vi o Brandon agorinha no porto da frente com cara
de mataram meu gatinho. O que foi?

SageFrancis: Ai... Eu meio que dei o fora nele.

CelineColista: COMO ? Ele no era o Sr. Romntico?

SageFrancis: Ele ... Mas se dissesse mais alguma coisa meiga
para mim, eu ia vomitar.

CelineColista: Acabaram-se as sacanagens pra voc, minha irm.

SageFrancis: R! Nada com B tem sacanagem -- o problema  esse!
         rett afundou no banco frio na frente do guich de passagens, levantando a gola de
         seu casaco Betsey Johnson preto de listras diagonais. O ltimo trem para Manhattan
         tinha sado alguns minutos antes e a plataforma Metro-North estava inteiramente
deserta. Fios de eletricidade zumbiam no alto e alguns txis amarelos espreitavam no
estacionamento, a descarga do motor saindo de seus canos. Brett ficou tentada a subornar um
deles para lev-la a Jersey -- ser que os txis ainda aceitavam cartes AmEx platinum?
      Depois de sair correndo da biblioteca, ela decidiu, como idiota, parar primeiro no
alojamento para pegar seu exemplar francs de O estrangeiro, de Albert Camus, que
esquecera -- tinha uma prova de traduo na semana seguinte na aula de Madame Renault.
Mas a ida ao alojamento foi um equvoco. Enquanto subia voando a escada para a plataforma,
deixando cair uma luva, viu as luzes do ltimo trem desaparecendo pelos trilhos para Nova
York.
      Era tudo culpa de Sebastian. Ele tinha sido completamente incapaz de se concentrar
hoje, ainda mais que o de costume, bombardeando Brett com perguntas sobre sua famlia e
suas tradies de Ao de Graas como se realmente se importasse e no estivesse apenas
deixando de lado os estudos de latim. Seu sotaque de Jersey lhe dava nos nervos, lembrando-
a de todos os caras bregas na escola que usavam roupas Tommy Hilfiger berrantes e tinham
fotos de mulheres esparramadas em carros potentes coladas em seus armrios. Brega, brega,
brega.
      Ela pegou no bolso o Nokia prata e comeou a discar para a casa dos pais, mas desligou
ao pensar no sermo da me: Sua irm nunca perderia o trem. Ela no estava pronta para
encarar aquela.
      Poderia pegar carona? As pessoas ainda faziam isso? Brett j podia ver as manchetes:
Aluna de Internato Desaparece Depois de Entrar em Carro de Psicopata Quando Ia para o
Feriado de Ao de Graas em Casa. Membros decepados encontrados no estacionamento
do McDonalds local. O mundo tinha mudado desde que o hippie e velho professor de ingls
avanado Doc Henderson, como ele sempre falava, "estendia o polegar" pelo pas nos
maneiros anos 1960.
      Uma buzina tocou, sobressaltando Brett no banco. Um Mustang preto estava em ponto
morto no estacionamento. A buzina soou de novo e a janela baixou. Sebastian enfiou a
cabea pela janela, o vento frio agitando seu cabelo.
      -- Achei que estaria aqui -- disse ele, batendo as cinzas do Marlboro no ar. -- Precisa
de uma carona?
      Brett cruzou os braos, indo cautelosamente at ele.
      -- Bem, voc  o motivo para eu ainda estar aqui, antes de mais nada.
      Mas o alvio tinha livrado seu corpo de toda a ansiedade e, antes que pudesse pensar
duas vezes, pegou a bolsa e desceu despreocupadamente a rampa at o carro, com o cuidado
de no deixar que as botas Givenchy pontudas escorregassem no concreto.
      -- Ento acho que  o mnimo que posso fazer. -- Sebastian revirou os olhos. -- Pode
me fazer companhia, desde que prometa no falar em latim. -- Ele acelerou o Mustang e ela
sabia, pela expresso em seu rosto, que foi sem querer. Por mais descolado que ele pensasse
que fosse, ela achava que o havia afetado um pouco.
      -- Rumson fica muito fora de mo para voc? -- perguntou ela, desconfiada.
      Brett odiava que ele soubesse que ela era de Jersey. Em todo o tempo na Waverly, ela
tentou fazer mistrio de onde era, em geral confiando que o fato de que os pais tinham uma
casa em East Hampton era resposta suficiente a todos. Mas estava ficando cansativo manter a
farsa e Jenny, Callie e a vaca da Tinsley agora sabiam que ela era de Jersey, de qualquer
maneira. Normalmente, ela ficaria constrangida de ter algum amigo da escola parando na
frente da manso espalhafatosa e francesa falsa dos pais, mas no podia ser pior do que a casa
de Sebastian. E alm de tudo, ele no era exatamente um amigo.
      -- No se preocupe. Est tudo includo no preo.
      -- E qual  o preo?
      -- Gasolina, nicotina ou vagina. -- Ele sorriu. -- Ningum pega carona de graa.
      Brett fechou a cara e Sebastian abriu um largo sorriso.
      -- Brincadeirinha -- disse ele. -- Voc nem tem que entrar com a gasolina. S o prazer
de sua companhia.
      Brett hesitou. A ideia de uma longa viagem de carro com Sebastian logo depois de sua
sesso infernal de estudos era to pouco atraente quanto comer no Salo de Jantar, mas que
alternativa tinha?
      -- T, tudo bem -- disse ela, e andou at o banco do carona.
      Sebastian se inclinou para abrir a porta e um fedor de cigarro e Drakkar Noir foi
soprado pelo vento. Ele espanou repetidas vezes o banco do carona, embora estivesse bem
limpo.
      -- Perdeu o trem, hein? -- perguntou ele enquanto acelerava o Mustang, desta vez de
propsito.
      Brett assentiu.
      Ele esperou que ela dissesse alguma coisa.
      -- Bem, t legal, ento.
      O Mustang disparou do estacionamento e antes que Brett percebesse, estavam na
rodovia, voando para Nova Jersey. Ela olhou a paisagem zunir e pensou em ligar para os pais
e dizer que ia de carona com um colega da escola. Decidiu esperar at que parassem para
colocar gasolina ou coisa parecida, assim Sebastian no teria ideias sobre uma suposta
amizade dos dois.
      -- O que vai fazer quando chegar em casa? -- perguntou ele enquanto ultrapassava uma
perua que andava lentamente.
      -- S descansar -- suspirou ela, acomodando-se melhor no banco. -- Um monte de
coisa nenhuma.
      Era meio deprimente a ideia de se recostar numa das poltronas de zebra da me, olhando
distrada a tela plana gigantesca da TV na sala de mdia. Desde que o pai tinha aberto a
clnica de cirurgia plstica quando ela estava no primrio e feito uma cirurgia de plpebra de
sucesso em uma celebrada socialite de Nova York, o Dr. Messerschmidt tornou-se o cirurgio
preferido de mulheres envelhecidas de sangue azul que queriam discrio.
      -- E sair com seus amigos de Jersey? -- perguntou ele, olhando-a de lado.
      Brett riu contra a vontade. Ela nem via os amigos pr-Waverly havia anos e era um
esforo se lembrar de seus nomes.
      Sebastian continuou falando como se Brett tivesse perguntado alguma coisa.
      -- J eu s quero tirar a merda do cheiro do internato do meu nariz. Sabe o que quero
dizer? -- Ele passou os dedos pelo cabelo quase preto e olhou pelo retrovisor. Sebastian no
era feio,  verdade, se pudesse levar uma daquelas repaginadas do Queer Eye. O cabelo era
comprido demais e tinha gel demais, mas a pele macia tinha um tom moreno que fazia
cintilar seus olhos castanhos escuros. E as mas do rosto -- eram do tipo que s se viam em
anncios da Armani. -- Quero ver o que est rolando no mundo real.
      -- Podia ler os jornais, sabia? Ver os noticirios.
      Brett olhou pela janela. Nova York ficava em algum lugar ao longe e, de certo modo,
Brett desejava que ela e Bree pudessem se esconder durante o feriado todo no loft da irm em
Tribeca, e ir s compras no Soho no fim de semana em vez de ir para casa.
      --  to bom ficar um tempo longe de todos os babacas da Waverly, porra. -- Ele
olhou para Brett e abriu um sorriso que era ao mesmo tempo cavalheiresco e lascivo. -- Com
exceo da companhia presente.
      -- Nem todos so babacas. -- Brett lanou um olhar para ele. -- E voc tambm entra
nessa.
      -- Nada de babacas, ento. -- Sebastian tombou a cabea de lado e franziu os lbios,
como se estivesse imerso em pensamentos. -- S imbecis arrogantes.
      Brett riu a contragosto.  claro que havia alguns esnobes na Waverly -- onde  que no
tinha? --, mas isso no queria dizer que ela gostasse menos deles. Ela se lembrou de como
ficou emocionada quando colocou os ps pela primeira vez no campus luxuriante, onde os
prdios cobertos de hera emanavam herana, bero e elegncia.  claro que o Sebastian
antiautoridade tinha de ter problemas com isso -- ou talvez fosse s fingimento, uma vez que
ele ia repetir de ano. Melhor agir como se fosse uma opo dele do que admitir algum
fracasso. Ela se virou e o olhou com interesse. No escuro, seu perfil era afilado contra a
janela e as luzes dos carros batiam em seu rosto e desapareciam. Ele parecia muito mais
manso do que  luz do dia, quando era cheio de atitude.
      -- Ainda tem muitos amigos em Jersey? -- perguntou ela por fim, a curiosidade
levando a melhor.
      -- Um monte -- respondeu ele. Sebastian pegou um mao de Marlboro vermelho no
bolso da jaqueta de couro e tirou um cigarro. Colocou-o na boca e apertou o isqueiro do
painel do carro. -- Quer um?
      -- Claro. -- Ela deu de ombros. Pegou um Marlboro do mao estendido e o encostou
no isqueiro em brasa, depois passou a Sebastian.
      -- Tenho um melhor amigo desde o primeiro ano -- disse ele, abrindo a janela e
soprando a fumaa para fora. Brett tambm baixou a dela, curtindo o vento frio no rosto. Era
legal ouvir um cara chamar algum de "melhor amigo". -- Ainda vamos  praia, ns e um
bando de amigos, sempre que podemos -- continuou ele. -- Voc vai  praia?
      -- Ah, claro que sim -- respondeu ela com frieza. -- O tempo todo. -- Na verdade, ela
no ia h anos. Passou os dois ltimos veres fazendo o tipo de programao educacional que
parecia tima para candidaturas a universidades -- seis semanas em Creta numa escavao
arqueolgica, um ms em Aix-en-Provence ensinando ingls a crianas de baixa renda do
jardim de infncia. Mas os veres que antecederam a Waverly foram cheios de dias quentes e
madrugadas pelo litoral de Nova Jersey, onde a famlia alugou uma casa de praia. Parecia
fazer sculos, mas assim que pensou nisso, o cheiro de loo bronzeadora de coco e cachorro-
quente lhe voltou rapidamente. -- Wildwood. Sempre fomos a Wildwood.
      -- Eu adoro Wildwood. -- Animado, Sebastian bateu os dedos no volante. --
Impossvel no adorar o per e as praias. E o calado  noite.
      -- O calado  um nojo. -- Brett deu um trago no cigarro e soltou a fumaa. -- Tem
turistas demais.
      -- , mas traz um monte de timas lembranas.
      -- No para mim -- suspirou ela.
      -- E por qu? -- perguntou ele, seu interesse despertado. -- Foi assaltada ou coisa
assim?
      Brett balanou a cabea.
      -- No, s fico cansada de passar pelas mesmas lojas de sempre, vendendo as mesmas
toalhas de praia feias e guarda-sis com flamingos.  meio tosco.
      --  boa demais para Wildwood hoje em dia, hein? -- Sebastian implicou com ela.
Brett o ignorou e os olhos dele voltaram  estrada, o trnsito congestionando  medida que se
aproximavam da cidade. -- Cara, teve um vero que nunca vou esquecer. Eu estava com uma
garota, a Clarissa. E meu amigo ficou muito a fim de uma menina que trabalhava na barraca
de cachorro-quente com ela. A gente estava tipo no oitavo ano, e ele s falava daquela garota.
Coitado do Neal...
      Brett caiu em si ao mesmo tempo que Sebastian e se encolheu no banco, baixando a
janela um pouco mais e batendo as cinzas do lado de fora.
      -- Era voc! -- exclamou ele, perdendo o controle da direo por um segundo. -- Era
voc mesma.
      -- Pode prestar ateno na estrada, por favor? -- perguntou ela, dando outro longo
trago no cigarro. -- O que era eu?
      Sua nica esperana era confundi-lo. Ela sem dvida se lembrava da amiga Clarissa
saindo com um sebento no vero do oitavo ano que elas passaram trabalhando na Snack
Shack. E  claro que ela se lembrava de Neal, com o cabelo louro espigado e o calo de
surfista. Ele foi seu primeiro beijo e foi meio divertido, para o oitavo ano. Mas ela terminou
com ele depois de algumas semanas andando de mos dadas pela praia quando Ethan, o
garoto mais velho de escola particular cujo pai era dono do Snack Shack, comeou a aparecer
por ali, dando mole para ela e chamando-a de "linda".
      -- Meu Deus, eu sabia que conhecia voc de algum lugar, mas achei que era s da
escola, sabe? -- Ele olhou de lado para Brett, examinando-a com uma intensidade que a
deixou nervosa, e no s porque isso significava que ele no prestava ateno  estrada. --
Seu cabelo na poca no era ruivo, n? Caraca, voc usava umas camisetinhas amarelas o
tempo todo. Com um cachorro-quente gigante e sorridente.
      Brett se agarrou  porta do carro com a mo direita, tentando manter a pose. Fingiu um
bocejo, procurando no pensar na salsicha sorridente e um tanto pornogrfica que ainda
estava na ltima gaveta de sua cmoda em casa.
      -- s vezes eu me preocupo com sua sanidade mental.
      -- Eu achava que a amiga de Clarissa se chamava L qualquer coisa. -- Sua testa se
franziu. -- Tipo Leona? No, pera... Lenore. Era Lenore. Caraca.
      -- Que interessante. J que meu nome  Brett. -- Ela esperava que ele no visse como
seu rosto ficou vermelho. Lenore era seu segundo nome e ela passou o vero pedindo a todos
que a chamassem assim porque estava cansada de ter nome de homem. Brett jogou a guimba
pela janela, depois fechou o vidro.
      -- Ei, se est me dizendo que no era voc, ento no era voc -- disse ele, navegando
entre as estaes de rdio. -- Mas voc est mentindo total. Espere s at eu contar ao Neal.
     -- Voc passa o Dia de Ao de Graas com ele? -- Brett estava desesperada para
mudar de assunto.
     Sebastian balanou a cabea.
     -- No, o Natal. O Ao de Graas  uma droga. S eu e meu velho vendo futebol,
principalmente. Uma ou outra cerveja. Mas olha,  bem melhor do que ficar na escola.
     Uma msica de Springsteen comeou e Sebastian aumentou o volume.
     -- O Boss -- disse ele enquanto atirava a guimba pela janela. -- Legal.
     Brett revirou os olhos.
     -- D pra abaixar? -- Ela colocou as mos sobre os ouvidos.
     -- O qu? -- perguntou ele, incrdulo.
     -- Abaixe ou desligue -- gritou ela, mais alto do que a msica.
     -- De jeito nenhum! -- Sebastian bateu os punhos no volante. -- No vai me pedir
mesmo para abaixar o Boss.
     Brett estendeu a mo para o boto e o desligou.
     -- Tem razo, no vou pedir.
     Sebastian balanou a cabea.
     -- No sei qual  o seu problema, Lenore.
     -- Eu preciso ter um problema s porque acho que Bruce Springsteen  superestimado?
E velho? -- Ela soava intimidada, mas isso no desestimulou Sebastian. Ele s balanou a
cabea com tristeza e ligou o rdio de novo, rapidamente procurando outra emissora.
     -- Tem Jersey em algum lugar a em voc -- disse ele --, por mais que voc tente
negar isso.
   OwlNet                         Caixa de Entrada de E-mail


De: YvonneStidder@waverly.edu

Para: Undisclosed Recipients

Data: Quarta-feira, 27 de novembro, 18:45h

Assunto: Festa Pr-peru!

Oi, gente

S um lembrete da festa hoje  noite na minha casa. Os velhos esto
em Londres, ento vamos botar pra quebrar! A bebida da noite 
rum Turkey Hill, mas fiquem  vontade para levar o que quiserem.
Vamos ter pega-mas, peru-sem-rabo e outras brincadeiras
divertidas.
Acho que inclu todo mundo que encontrei no trem, mas se deixei
algum de fora, foi sem querer, ento convidem quem vocs
quiserem. Tem muito espao!
Na 80 com a Park, n 7 -- Google Map em anexo. Nove horas. Vejo
vocs l!

                                Bjs,
                               Yvonne
         randon estava sentado na cama, olhando a mala aberta, cheia de todas as porcarias
         que guardou para passar o fim de semana idiota em casa. Toda linha de cuidados
         com a pele Dr. Brandt, de creme esfoliante aos tonificantes, purificadores e
hidratantes noturnos com vitamina C. Seu jogo de barbear Acqua di Parma que tinha a
prpria bolsa de couro com zper. As palavras de Sage -- voc  feminino demais -- ardiam
em sua mente e ele mal conseguia deixar de concordar com a cabea. Ela sem dvida o
chamara de gay. E talvez ele fosse mesmo.
      Bom, no dessa maneira, e nem havia nada de errado nisso. Certamente no queria ficar
beijando homens nem nada, mas no era a primeira vez que algum sugeria que ele era gay
graas  sua necessidade de produtos de beleza, suas roupas de grife, a arrumao obsessiva.
Ele sabia que no era realmente gay, mas magoava que a garota por quem era totalmente
louco pudesse jogar uma coisa dessas em sua cara. Sage Francis. Ela era to... perfeita. Ela
disse que adorava receber os bilhetinhos meigos que ele deixava em sua caixa de correio ou
metidos em seu livro de biologia quando ela no estava olhando. Ao que parecia, era tudo
mentira. Sage estava louca para Brandon ter colhes e jog-la no cho como um homem das
cavernas.
      -- Cara.
      Brandon no tinha percebido Heath entrar no quarto. Ele levantou a cabea e viu o
colega de quarto com a jaqueta xadrez Ben Sherman e um gorro de tric vermelho vivo
puxado at as orelhas.
      -- Ainda est aqui?
      -- O que h com voc? -- disse Heath, colocando as mos na cintura. -- Est ouvindo
a droga da Natalie Merchant de novo?
      --  Lucinda Williams, imbecil. -- Brandon rapidamente fechou a bolsa de viagem
antes que Heath pudesse fazer alguma piadinha com seu "regime de beleza". -- Sage e eu
acabamos de terminar, t legal? -- Brandon confessou.
      --  isso a! -- Heath levantou a mo com luva. -- Bate aqui. Solteiro de novo.
      Brandon ficou com as mos nos bolsos.
      -- No, ela  quem terminou comigo.
      Heath abaixou a mo.
      -- Ah, bom, ento eu sinto muito, cara. Que merda. Mas feliz Dia de Ao de Graas,
t?
      Brandon sabia que era o melhor que Heath tinha a dar no quesito consolo, ento aceitou.
      -- T, valeu.
      -- O que ela falou? -- perguntou Heath. Ele baixou em sua cama desfeita, tirando o
gorro coberto de neve e sacudindo o cabelo louro e desgrenhado (isto , sujo e louro).
      A pulsao de Brandon se acelerou. De jeito nenhum ia pronunciar as palavras de Sage
na frente de Heath, que as repetiria impiedosamente pelo resto da existncia de Brandon. Ele
podia se imaginar voltando a Waverly vinte anos depois para um reencontro e vir um Heath
careca dizendo a ele, "Voc ainda  gay?", ou coisa pior.
      -- Sei l, cara. -- Ele tentou aparentar irritao. -- S um monte de besteira de garota.
-- Heath assentiu.
      Alan St. Girard colocou a cabea pela porta, fedendo a maconha.
      -- At mais, senhoras -- disse ele, os olhos vermelhos e inchados. -- Glu-glu, glu-glu.
      -- Cocoroc para voc! -- respondeu Heath, mas Alan tinha desaparecido no corredor
com a bolsa. -- Cara -- Heath se voltou para Brandon, abrindo a jaqueta e se recostando no
travesseiro. -- Meninas. No sei qual  a delas. Elas no sabem o que querem. E se dizem
que sabem, esto mentindo.
      -- Pensei que as coisas estavam indo bem.
      Brandon ficou meio surpreso por estar se abrindo com Heath, que era sensvel como um
trem de carga. Mas Heath Ferro, apesar dos muitos e muitos defeitos, fora vtima de uma
cruel rejeio poucas semanas antes quando Kara Whalen, com quem teve um namoro pouco
caracterstico, lhe deu um chute na bunda. Brandon na verdade vira Heath chorar, algo que
ele quase desejou captar numa cmera, para ameaar descarregar no YouTube da prxima
vez que Heath tentasse andar pelo quarto dos dois com aquelas cuecas rasgadas que mal
cobriam suas partes.
      Heath se levantou de repente.
      -- Tive uma ideia.
      -- Se  aquela histria de roubar calcinha de cada menina do campus e fazer um
paraquedas gigante, no estou interessado. -- Brandon colocou a bolsa de viagem no cho.
      -- A gente podia fazer isso -- disse Heath, animado --, ou pode fazer uma coisa dez
vezes mais legal. -- Ele sorriu, esperando que Brandon adivinhasse, mas Brandon s o
olhava, de braos cruzados. -- Vamos ficar aqui no feriado.
      Brandon bufou.
      -- Ah, claro. Vamos ficar aqui no feriado. E o que mais? Ir ao jantar dos alunos
estrangeiros? Soube que vai ter jogo de mmica.
      -- D pra voc me ouvir? -- pediu Heath. Claramente deixava-o louco que Brandon
no gostasse de seu brilhantismo.
      -- Estou ouvindo. -- Brandon balanou a cabea enquanto procurava o nmero do
carro de aluguel que devia peg-lo em breve. -- S no estou acreditando no que ouo.
      -- E se eu te der duas alternativas para o feriado de Ao de Graas? -- Heath
aventurou-se. -- Voc pode: a) passar com sua famlia chata... No quero ofender, a minha
tambm  um porre... ou b) ficar aqui e ter sexo sueco e selvagem o fim de semana todo.
      -- Mas voc no  sueco -- sorriu Brandon, com malcia.
      -- Hiii-hiiii-hiiii. -- Heath fez a cara de cavalo que Brandon odiava depois dos
relinchos. -- Mas as gmeas Dunderdorf so!
      -- Quem?
      -- Cara, voc mora mesmo aqui? -- Heath embolou uma camiseta de treino de futebol
fedorenta que pegou na pilha ao lado da cama e a atirou em Brandon.
      -- T, t. -- Brandon desviou. -- Estou ouvindo. As gmeas Dusseldorf. O que tm
elas?
      -- Dunderdorf, pateta -- corrigiu Heath. -- As filhas gmeas do Sr. Dunderdorf.
      -- Nosso professor de alemo do primeiro ano? -- perguntou Brandon, lembrando-se
dos dias desagradveis ouvindo o ancio Dunderdorf ler seu volume gordo e igualmente
ancio de Goethe, parando a intervalos irregulares para apontar os alunos e lhes pedir para
traduzir a ltima frase. Ele se lembrou de no acreditar no bigode torcido do professor e de se
perguntar vagamente se era contra o cdigo de vestimenta da Waverly. -- Ele no tem uns 78
anos?
     -- Bingo -- disse Heath, todo animado. -- Ele est tipo na terceira mulher, que , tipo
assim, sueca...
     -- Se meu pai estivesse na terceira mulher, eu no me importaria de ir para casa. --
Brandon recostou-se na cabeceira da cama e olhou o pster de Scarface de Heath,
perguntando-se se algum j tinha dito a Al Pacino que ele era "gay demais". Duvidava.
     Heath o ignorou.
     -- E agora eles tm duas filhas adolescentes, lindas e gmeas. Elas so de Le Rosey, na
Sua, uma escola de aperfeioamento para meninas. Passam o ano todo cantando iodelei e
aprendendo a costurar espartilhos, ou uma merda dessas. -- A voz de Heath ganhou mpeto
enquanto continuava a descrio. -- Mas ento, elas voltam todo feriado de Ao de Graas,
e dizem os boatos que Teague Williams ficou com as duas no feriado do ano passado... As
duas ao mesmo tempo.
     Brandon balanou a cabea.
     -- S voc acreditaria numa coisa dessas.
     -- Acredito que seja a verdade -- disse Heath solenemente fazendo o sinal da cruz. --
E se no quiser ficar e me ajudar a descobrir, bem,  com voc.
     Brandon suspirou. Heath o distrara por um momento de Sage, cujo senso de
oportunidade insensvel ameaara fazer do Dia de Ao de Graas um fluxo ininterrupto de
autopiedade, pontuado por um jantar de peru insosso preparado pela madrasta e sua me
ainda mais infernal que, junto com o pai adorador, ficaria sentada e observaria com assombro
os gmeos espremerem abbora no cabelo e enfiarem brcolis pelo nariz.
     -- Vamos nessa, cara -- pediu Heath. -- Misses Suas. Quando  que vai ter uma
oportunidade dessas de novo?
     -- No prximo feriado de Ao de Graas, ao que parece -- zombou Brandon. -- E
pensei que tinha dito que eram suecas.
     -- Suecas, suas, d no mesmo -- disse Heath. -- Tudo significa GOS-TO-SA. 
garantido.
     Brandon olhou a bolsa de viagem. Mesmo que no acreditasse exatamente em tudo o
que Heath dizia, a alternativa era muito, mas muito pior.
     -- T legal, eu vou ficar.
     -- Mas  disso que estou falando! -- exclamou Heath. Ele estendeu a mo e Brandon
bateu nela, a pele formigando ao desfazer a bolsa. -- Olha, cara, j est na hora de voc
relaxar e me deixar cuidar das coisas. Eu sei exatamente o que estou fazendo.
     Partindo de algum que usa as cuecas trs vezes antes de lavar e ainda consegue pegar
as garotas, Brandon pensou, talvez ele soubesse mesmo.
        enny Humphrey andou pelo corredor de seu prdio no Upper West Side, grata por
        estar entre paredes familiares e longe da noite congelante de novembro. As trs
        meninas levaram uma hora e meia para conseguir um txi na frente da Grand Central
Station -- todo mundo, ao que parecia, estava chegando para passar o feriado em Nova York.
Ela estava feliz demais por chegar em casa para ficar constrangida com o mofo amarelado e o
cheiro dos dois schnauzers da Sra. Ullstrup, a vizinha. Uma das luzes do corredor estava
apagada, lanando uma sombra sinistra na frente do apartamento 9D.
      --  aqui -- suspirou Jenny, baixando a bolsa pesada no cho.
      -- Conheci uma menina que morava neste prdio. -- Tinsley espiou o trnsito na West
End Avenue pela janela do corredor.
      Jenny esperou pelo desfecho da piada -- e ela era uma vaca. Ou, e ela sempre se vestia
como se fosse ao circo --, mas felizmente no veio nenhum. Seus nervos estavam em
frangalhos desde que convidou Tinsley e Callie para passar o Dia de Ao de Graas com ela,
mas Jenny esperava que o feriado unisse mais as trs. Por mais legal que fosse estar com as
duas, ela ficava prendendo a respirao, esperando pelo prximo incidente ou briga que faria
com que as duas se virassem contra ela. Jenny passou a chave na fechadura e girou, mas
continuou trancada.
      -- Mas o que... -- Ela sacudiu a maaneta.
      -- O velho trocou as fechaduras por sua causa? -- Tinsley riu. -- Talvez ele tenha uma
namorada e queira alguma privacidade.
      -- Eca -- suspirou Callie, olhando uma teia de aranha acima da porta.
      Jenny girou a chave de novo e a tranca no cedeu. As trancas pareciam estalar de dentro
e Jenny empurrou. A porta se abriu um pouco e o odor pungente de patchouli saiu do
apartamento.
      -- Oi? -- perguntou Jenny, insegura. -- Pai?
      A porta se abriu de todo e uma mulher careca com um manto laranja resplandecente
abriu os braos.
      -- Bem-vinda a nosso banquete.
      Jenny sentiu o queixo cair completamente.
      -- Humm, cad o meu pai? -- Ser que ele tinha uma namorada nova? Rufus tinha um
gosto estranho, mas isto era pra l de esquisito. Ser que ele tinha sido despejado e no
contara a ela?
      -- Ah, criana voc deve ser a Jennifer -- disse a mulher, unindo as mos como que em
orao. -- E estas devem ser suas irms.
      -- Na verdade no somos parentes. -- Tinsley sorriu com doura, esfregando as mos.
Claramente estava gostando da cena.
      Callie olhou incrdula e Jenny sentiu todo o sangue disparar para a cabea. De dentro do
apartamento, elas ouviram vozes baixas entoando: "Hare Krishna Hare Krishna Krishna
Krishna Hare Hare..."
      Jenny olhou em volta da mulher e viu que o velho apartamento da famlia, onde ela foi
criada, onde dera os primeiros passos e vira desenhos animados nas manhs de sbado, estava
cheio de outros carecas, homens e mulheres, todos com mantos laranja berrante. Em toda
parte -- sentados no sof, na espreguiadeira de couro remendado do pai, na poltrona de
veludo azul perto da janela, onde Jenny gostava de ler. Mas que diabos estava havendo?
      Por fim, Rufus Humphrey abriu caminho pelos carecas esquisitos e danantes no fundo
da sala. Estava com o pulver amarelo rodo por traas que Jenny conhecia e um moletom
preto e velho de Dan que era uns seis nmeros menor. O cabelo grisalho e espetado estava
amarrado atrs com um fecho de saco de lixo.
      -- Meu docinho! Voc chegou.
      -- Oi, pai. -- Ele a envolveu em um abrao de urso enquanto a mulher na porta voltava
para a sala abarrotada.
      -- Mas o que... O que  isso? -- sibilou Jenny. -- Quem  essa gente?
      -- E trouxe amigas! -- exclamou Rufus, deliciado, abrindo os braos para
cumprimentar Tinsley e Callie, que estavam encolhidas no hall. Elas deram um abrao
mecnico em Rufus e se afastaram. -- Elas so ainda mais deslumbrantes do que voc disse.
      -- Pai -- disse Jenny com severidade, parada entre ele e as amigas antes que ele
pudesse dizer a Callie que o cabelo dela era pr-rafaelita e que os olhos de Tinsley pareciam
caramelos de uva. -- O que  tudo isso?
      -- Eu te falei sobre isso, bonequinha -- respondeu Rufus de modo brincalho,
colocando a mo grande no ombro de Jenny e apertando.
      -- Pai. -- Jenny em geral ficava irritada com o pai, mas agora estava simplesmente
furiosa. -- Eu me lembraria se voc tivesse me dito que vinte carecas estariam cantando em
nossa casa quando eu chegasse. -- Ela baixou a voz na palavra carecas, caso um deles
estivesse ouvindo.
      -- Isso  estranho. -- Rufus esfregou o queixo, a barba grisalha muito mais densa desde
a ltima vez em que ela vira.
      -- Eu tinha certeza de ter falado com voc.
      -- Bem, no falou -- repetiu ela, sria. Um bicho grande disparou da sala e entrou na
cozinha. Correu em zigue-zague pelo ladrilho, contornando a mesa. Jenny percebeu
apavorada que era um peru vivo.
      -- Vocs no vo... matar um peru, vo? -- Tinsley se manifestou, olhando o animal
emplumado que agora rondava o sof. Os carecas de manto riram enquanto o peru corria
perto deles.
      -- Ah, meu Deus, no. Essas pessoas so de meu ashram. Eu as convidei para o festival
de Graas -- anunciou Rufus com grandiloquncia. -- Todos estamos nos purificando
durante esse grande festival. E homenageamos o peru. Que bom que esto aqui... Podem
ajudar a partilhar nosso banquete vegetariano.
      Jenny entrou com relutncia no apartamento e olhou a cena. Cada cabea careca na sala
se virou e disse, "Bem-vinda!" Ela podia sentir Tinsley e Callie atrs dela, estarrecidas.
Precisava lev-las a seu quaro, onde poderiam se reagrupar.
      -- Vamos para o meu quarto -- anunciou Jenny.
      -- Ah. -- Rufus franziu a testa. -- Seu quarto est ocupado, na verdade. Eu cedi o meu
tambm. Mas podemos todos nos ajeitar nos sofs. Vai parecer acampamento. -- Rufus
sorriu como se tivesse resolvido um dilema particularmente espinhoso.
      O peru correu at Callie e bateu de cabea em sua bolsa Louis Vuitton, a barbela em seu
pescoo balanando como louca.
      -- Ai, meu Deus -- sussurrou Callie, os olhos se esbugalhando. Ela se encolheu de
volta ao hall.
      -- Ns temos que, hum, dar um telefonema. -- Tinsley pendurou a bolsa no ombro e
ela e Callie praticamente correram para o elevador. Jenny ficou paralisada, sem saber o que
fazer. Ficaria ela no apartamento por lealdade ao pai, ou suas lealdades agora estavam em
outro lugar?
      -- Olha, pai, fico feliz por voc ter seus, hum, amigos aqui. Mas parece que a casa est
cheia, ento eu vou achar outro lugar para ficar. Talvez na casa da Tinsley -- mentiu,
colocando a bolsa no ombro.
      -- Meu Boto de Petnia! -- exclamou Rufus. -- Mas vamos comer s oito.
      -- Sem problemas. -- Jenny ps a mo no brao do pai.
      -- Vocs podem, humm, desfrutar de meu quarto. Vou ligar amanh. -- Depois de
insistir um pouco mais que ela ficaria bem, Jenny disparou para o corredor e entrou no
elevador atrs das duas amigas.
      -- Nunca mais vamos falar nisso. -- Jenny apertou o boto para o trreo.
      -- Isso nunca aconteceu -- concordou Tinsley, rindo. -- Mas cara, e eu que pensava
que a minha famlia era pirada.
      -- Acho que tem meleca de peru na minha bolsa, de quando a criatura esbarrou nela. --
Callie examinou a bolsa.
      Quando o elevador chegou ao trreo, Jenny sabia que tinha sobrevivido ao
constrangimento.
      -- Tem uma cafeteria na esquina. -- Ela apertou o cachecol amarelo de cashmere
Banana Republic, preparando-se para o entardecer gelado. -- Eu preciso de cafena.
      -- Eu preciso de uma bebida -- retrucou Tinsley com ironia.
      No Melnyczuk's, a cafeteria ucraniana de nome quase impronuncivel, as meninas
pegaram uma cabine perto da janela e pediram trs xcaras de caf  garonete irritada, que
no parecia muito feliz por trabalhar na vspera do feriado.
      -- Precisamos de um quarto de hotel -- disse Callie, decidida a declarar o bvio. -- E
rpido.
      Ela olhou os hotis no iPhone, lendo os nmeros para Tinsley e Jenny, que rapidamente
discavam com uma ansiedade cada vez maior. Uma enxurrada de ligaes para o Four
Seasons, o Soho Grand, o Plaza, o New York Palace, o Peninsula, o Ritz no Central Park, o
St. Regis e o Trump Tower confirmou o que Jenny suspeitava: todos os hotis estavam
lotados.
      -- Isso  terrvel. -- Callie balanou a cabea, a voz beirando o gemido. Seu rosto
bonito estava franzido numa carranca e ela parecia prestes a cair em prantos. -- E agora?
      Tinsley atirou o celular na mesa, derramando os cafs recm-servidos nas xicrinhas de
porcelana mnimas.
      -- O que a gente precisa fazer para conseguir uma merda de quarto de hotel nesta
cidade? -- perguntou ela com raiva.
      -- Acha que os vapores do piso do seu apartamento so mesmo to txicos como sua
me disse? -- perguntou Callie, nervosa.
      Jenny se lembrou do que Tinsley tinha dito no trem. A acusao de Tinsley sobre Jenny
levar tudo to a srio demais -- de meninos  vida em geral -- magoou mais ainda porque
Jenny no podia discordar. Bem, aqui estava sua chance.
      -- Olha, talvez a gente esteja dando importncia demais a isso -- props Jenny. --
Somos trs meninas sozinhas em Manhattan -- continuou ela, limpando uma mancha de caf
com o guardanapo. -- Sem regras. Podemos fazer o que quisermos.
      -- Menos conseguir um quarto de hotel, ao que parece -- observou Tinsley, os olhos
violeta e frios encarando Jenny desafiadoramente.
      Jenny endireitou os ombros e olhou nos olhos de Tinsley, louca pela oportunidade de
mostrar  outra o que podia fazer.
      --  o que veremos -- respondeu ela, pedindo a conta com um gesto.
          rett largou a mala no piso de mrmore italiano do saguo de sua casa. Seu corpo
          estava cansado da longa viagem de carro no apertado banco da frente do Mustang, o
          crebro exausto de fugir das perguntas interminveis de Sebastian. Ela conseguira
convenc-lo de que no era a garota do cachorro-quente de veres atrs. Ou talvez ele s
estivesse fazendo a vontade dela. Toda a viagem foi muito intensa, tentando reprimir as
tentativas de Sebastian de algum tipo de experincia de vida em comum s porque os dois
eram do mesmo estado. Ela ficou tremendamente aliviada por finalmente parar na frente da
casa dos pais.
      Sebastian assoviou quando parou na entrada circular -- e at Brett ficara tanto tempo
longe que se esquecera de como a manso era grande (e ostentosa). O exterior era projetado
para parecer o palcio Versalhes, completo, com uma fonte na frente, onde um Poseidon
reclinado afagava um querubim seminu.
      -- Casa bacana -- disse ele sem ironia nenhuma, antes de Brett se despedir, tensa.
      Agora s o que ela queria era tomar um longo banho quente no banheiro de sua sute,
calar os chinelos cor-de-rosa felpudos e esfarrapados e colocar a vida em dia com Bree. Era
difcil realmente conversar com a irm por e-mails e telefonemas intermitentes, e Brett
ansiava para tomar um sorvete Cherry Garcia e ter uma conversa de mulheres. Tirou as botas
Manolo e atirou o casaco no armrio gigantesco do hall.
      -- Ol? -- chamou, a voz ecoando pelo saguo. Brett ficou meio surpresa por no ter
sido recebida pelos chihuahuas da me, que pareciam xicrinhas e costumavam vir correndo
pelo piso de mrmore  menor sugesto de movimento na porta.
      -- Estamos na sala de visitas, querida. -- Ouviu a me chamar.
      Brett seguiu a voz da me e passou pela imensa sala de estar rebaixada -- a me
finalmente cedera a suas queixas e mandou refazer o estofamento daquelas horrveis
poltronas de zebra? Que estranho -- e na sala de visitas formal no fundo da casa que eles
nem usavam h... Bem, eles nunca usavam. Talvez uma vez, depois do enterro do tio Chuck,
e outra para a entrevista de Brett com um representante da Waverly, mas foi s isso. Era uma
sala de p-direito alto com uma parede de portas francesas dando para o jardim dos fundos,
com sua linda vista da baa. Mas era cheia de mveis Lus XIV formais que a me comprara
em um leilo pblico, na esperana de dar um ar de respeitabilidade  McManso nova em
folha.
       A me e a irm estavam empoleiradas em volta da mesa redonda com trs estranhos,
que Brett imaginou serem os Cooper. Quando Bree disse que eles passariam o Dia de Ao
de Graas l, Brett pensou que ela estava dizendo o jantar de Ao de Graas, e no o feriado
todo.
      -- Ah. -- Brett sorriu amarelo para os estranhos. -- Oi, gente.
      Que estranho. O Sr. Cooper estava ereto na desconfortvel cadeira de madeira,
examinando uma mo de cartas que segurava sob o nariz. O cabelo no tinha mais cor e era
bem fino, mas a pele possua um brilho avermelhado de quem acabara de sair do golfe em
Palm Beach e isso fazia com que parecesse magro e respeitvel em sua camisa e suter de
gola redonda.
      A Sra. Cooper estava sentada ao lado dele e levantou a cabea quando Brett entrou. O
cabelo louro-claro tambm exibia fios grisalhos e tinha um corte sofisticado que emoldurava
o queixo. Parecia exatamente a me de Gwyneth Paltrow. Dois pequenos brincos de prola --
herana de famlia, deduziu Brett -- brilhavam sutilmente nas orelhas enquanto ela colocava
as cartas viradas para baixo na mesa.
      -- Baixe as cartas -- disse ela a Willy, e ele obedeceu s instrues da me.
      -- Estvamos mesmo nos perguntando o que teria acontecido com voc. -- A me de
Brett, Becki Messerschmidt, tambm baixou as cartas. -- Estamos esperando voc h mais de
uma hora. -- Suas palavras eram lentas e calmas, o que assustou Brett. Ser que ela dobrou a
dose do Zoloft ou coisa assim? Em geral a me explodia no saguo e a envolvia em um
abrao cheio de Obsession de Calvin Klein, cintilando os anis imensos de diamantes cor-de-
rosa, e a enchia de mil perguntas sobre a Waverly, os amigos, os meninos. Em vez disso, a
me foi at ela feito um zumbi -- de cala cqui de boca estreita e um suter de gola rul
Polo azul marinho, e nem uma s pedra cor-de-rosa nos dedos. Nunca vira a me, que
gostava de estampados berrantes, de preferncia de animais, e colares espalhafatosos, to
mame de classe mdia.
      -- Eu te falei. -- Brett abraou a me rapidamente e lhe deu um beijo no rosto. Os
cachos normalmente desgrenhados de Julia-Roberts-em-uma-linda-mulher da me tinham
sido alisados e agora eram ondas soltas e largas. -- Peguei uma carona com um amigo. --
Sua me nem mesmo cheirava como sua me. Brett deu um passo para trs, quase tropeando
na ponta da mesa. Isso era totalmente horripilante. Normalmente Brett teria exigido saber que
droga estava acontecendo, mas com os Cooper por ali, preferiu ficar em silncio.
      -- Amigo ou namorado? -- falou Bree finalmente de seu lugar  mesa, erguendo as
sobrancelhas. O cabelo castanho-arruivado na altura dos ombros estava puxado para trs com
duas fivelas de tartaruga. E quando ela estendeu os braos para dar um abrao, Brett notou
que ela tambm vestia roupas meio certinhas. Ou chatas. Brett estava acostumada com
Brianna, uma assistente editorial da revista Elle, parecendo um pouco mais moderninha do
que agora, com a saia marinho na altura dos joelhos e um suter de gola canoa branco. Ela
parecia estar num ch no iate clube. -- Que bom que chegou. Quero que conhea os Cooper.
      -- Vamos ter que dar as cartas de novo -- disse o Sr. Cooper  meia-voz  Sra. Cooper,
atirando as cartas no meio da mesa. -- Segundo as regras, precisamos dar as cartas de novo
se algum se levanta da mesa, por qualquer motivo. -- A Sra. Cooper ignorou o marido,
embora Brett tenha detectado um leve assentir.
      -- Este  William Cooper Terceiro.
      Bree andou e ps as mos nos ombros de Willy, dando-lhes um aperto carinhoso.
Willy -- ser que Brett podia chamar o cara assim? -- fazia-a pensar em Free Willy, o filme
da Disney sobre a orca que fica presa na tubulao. Ele era uma graa -- com cabelo
castanho-claro e olhos castanho-escuros -- mas com jeito de ser totalmente mauricinho, meio
Brooks Brothers, a camisa branca e imaculada enfiada direitinho na cala de algodo azul-
marinho. Ser que todo mundo nesta sala usava azul-marinho?
      -- Willy, prazer em conhec-la. -- ele disse, se levantando e apertando a mo de Brett
formalmente. -- Este  o nico William em nossa casa. -- Ele riu, apontando com a cabea
para o pai.
      --  um prazer conhecer a todos -- disse Brett automaticamente, perguntando-se o que
todos estavam jogando. Seus pais nunca jogavam cartas, a no ser Uno. Brett olhou para a
me, cujo cabelo ruivo-escuro estava puxado para trs e preso como o de Bree. Ser que ela
tinha entrado em Mulheres perfeitas? -- Onde esto as xcaras? -- Por mais que ela revirasse
os olhos para o bando de cachorrinhos mnimos que a me amealhara com o passar dos anos,
eles eram uns amores.
      Uma expresso de terror passou do rosto da irm para o da me.
       -- Seu pai est vindo com o ch agora mesmo, querida! -- exclamou a me com alvio
ao ver o pai de Brett na porta, carregando uma bandeja cheia de porcelana florida que ela nem
sabia que tinham. A me lhe lanou um olhar que dizia para ficar de boca fechada.
      -- Brett, meu amor! -- Stuart Messerschmidt baixou a bandeja e lhe deu um abrao
rpido. Brett recuou um passo, assombrada. Ele estava usando um suter sem mangas. --
Que bom que est em casa. -- Ele abriu um sorriso para Brett, mas, em vez de retribuir, Brett
lhe lanou um olhar que dizia, O que est rolando por aqui?
      -- Sente-se, querida. -- A me de Brett puxou outra cadeira de madeira para a mesa. --
Descanse.
      Brett se sentou, respirando fundo. Tudo bem, t legal. Ela faria esse jogo por uns 15
minutos, depois iria hibernar em seu quarto pelo resto do fim de semana, vendo o E! sozinha.
      -- Espero que no estejam jogando pquer -- brincou Brett, colocando os cotovelos na
mesa de cartas e tentando demolir a fachada deste novo mundo bizarro dentro de sua casa.
Ela sorriu para Willy. -- Bree trapaceia.
      Uma expresso de confuso apareceu nos Cooper.
      -- Quem trapaceia? -- perguntou a Sra. Cooper, olhando para Brett como se ela
estivesse falando de uma amiga imaginria.
      -- Bree. -- Brett apontou a irm. --  uma famosa vigarista nas cartas. Uma vez ela...
      A irm a interrompeu:
      -- Agora todo mundo me chama de Anna, meu bem. -- Ela olhou para os Cooper. --
Ela me chamava de Bree quando ramos crianas.
      Quando elas eram crianas? Como assim, h uns dois meses? Brett abriu a boca para
falar, mas respirou fundo, tentando imitar a respirao que aprendera na ioga. Anna? An-na?
Como ? A irm estava agindo como uma virgem recatada e de algum modo fez lavagem
cerebral nos pais para agirem feito robs. A me no substitura as poltronas de zebra por
causa das queixas constantes de Brett, mas porque quis impressionar os Cooper, e isso era...
errado. Ela sentiu um ronco no estmago que no era do milkshake que tinha tomado no
drive-thru do McDonalds perto de Newark.
      -- Anna estava nos dizendo que voc estuda na Waverly.
      -- A Sra. Cooper voltou os olhos azul-claros para Brett, que sentiu-os parar levemente
nos cinco brincos de ouro que ela usava no alto da orelha esquerda.
      -- Sim, senhora -- respondeu Brett, empinando o queixo, na defensiva. Ela se recostou
na cadeira. -- Estudo.
      -- O que acha de l? -- perguntou a Sra. Cooper. Cruzou as mos sob o queixo, com os
cotovelos na toalha de linho nova.
      --  timo -- disse Brett dando de ombros e reprimindo o impulso de dizer alguma
coisa como, "As drogas so boas, mas o sexo  podre".
      Ela tambm no queria que sua irm subitamente freira tivesse um ataque cardaco antes
de Brett ter a oportunidade de arrancar informaes dela.
      Brett olhou os pais, que a encaravam com impotncia. Uma onda de vergonha tomou
Brett -- mesmo que tivesse falado dos pais com as amigas da Waverly, ela jamais quis que
eles fossem outras pessoas, s eles mesmos. (Talvez s que eles, bem, usassem menos
estampa de safri e falassem menos em rinoplastia.) Ela s esperava que Bree -- desculpe,
Anna -- no tivesse feito a me dar os chihuahuas para adoo. Ou coisa pior.
     Depois de uma discusso arrastada sobre as diferenas entre os internatos de hoje e
aqueles dos tempos do Sr. Cooper, Brett conseguiu pedir licena com a desculpa de se vestir
para o jantar. Enquanto pegava uma lata de Diet Coke na geladeira de ao inox, perguntou-se
onde estavam todas as garrafas de Bud Light do pai, justo quando ela precisava de uma
bebida.
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De: SebastianValenti@waverly.edu

Para: BrettMesserschmidt@waverly.edu

Data: Quarta-feira, 27 de novembro, 20:45h

Assunto: A volta

Lenore... Quero dizer, Brett

Obrigado pelo prazer de sua companhia na viagem para casa. Da
prxima vez, tome uns drinks e relaxe um pouco, t legal? Se
precisar de carona para voltar para a Waverly no domingo, me
avise. Devo sair l pelas trs horas.
Wildwood  demais!

                               Seb
                   st preparado? -- sussurrou Heath para Brandon com o punho na pesada
                   porta de carvalho entreaberta para a sala do Sr. Dunderdorf no segundo
                   andar do Hopkins Hall.
      Seu rosto estava coberto de um brilho radiante que sempre lhe aparecia quando ele
estava especialmente otimista com a probabilidade de transar. Estava claro que a promessa
das Misses Suas o deixou extenuado.
      -- Estou louco para ver como voc vai se safar dessa.
      Brandon imaginou que levaria dez segundos para o notrio velho rabugento entender
que Heath s estava atrs de suas filhas e o expulsar aos pontaps. Com um balano da plvis
para frente para dar sorte, Heath bateu na porta.
      -- Kommen Sie herein -- disso uma voz, e Heath abriu a porta. O Sr. Dunderdorf, com
uma camisa que parecia ter sido pisoteada e uma gravata borboleta, mexia na pilha de papis
que ameaavam inundar sua mesa, o cabelo branco como a neve afofado num afro-Einstein.
Ele meteu uma pilha em uma bolsa de couro surrado que parecia ter atravessado uma ou duas
guerras. A sala empoeirada era sinistramente silenciosa na escurido do incio do anoitecer.
-- Was, Jungen? -- A Irritao na voz de Dunderdorf enervava Brandon e de repente todo o
plano parecia uma pssima ideia.
      -- Ansiando pelo fim de semana prolongado, Sr. Dunderdorf? -- perguntou Heath,
passando o dedo no globo de aparncia antiga, montado em um suporte de madeira no meio
da sala, fingindo interesse.
      -- Ja, ja, Sr. Ferro -- respondeu Dunderdorf, fechando a bolsa. --  sempre bom ter
uma folga. -- Ele parou de preparar a pasta e olhou para Brandon e Heath pela primeira vez.
A desconfiana toldou seu rosto enrugado. -- O que posso fazer pelos cavalheiros?
      -- Nada, senhor.
      Brandon recuou um passo no tapete persa pudo, tentando sinalizar com os olhos a
Heath que precisavam abortar a misso -- e rpido. Uma hora no era tempo suficiente para
procurar na Wikipedia e decorar o bastante de alemo ou suo para ter acesso ao Dia de
Ao de Graas dos Dunderdorf, disso ele tinha certeza. Se as filhas de Dunderdorf eram to
lendrias como afirmava Heath, no estaria ele cansado de meninos excitados tentando entrar
em sua casa -- e em suas filhas?
      -- Brandon e eu estvamos discutindo sobre onde mora a maioria protestante na
Alemanha -- disse Heath, esfregando o queixo, coberto de uma leve penugem, uma vez que
ele dormiu demais de manha e no teve tempo de se barbear antes de correr para o laboratrio
de qumica.
      Dunderdorf o olhou, incrdulo, as sobrancelhas grossas e brancas subindo na testa.
      -- E por qu? -- perguntou ele.
      -- Bem... -- Heath comeou a andar pela sala. -- Ns dois somos apaixonados pelas
religies do mundo e andamos discutindo sobre catlicos e protestantes, e pensvamos em
alguns exemplos de vida dos dois grupos em harmonia, e lembramos da Alemanha. S que
no conseguimos lembrar onde eles viveram em harmonia. -- Ele respirou fundo.
      Brandon, reprimindo um gemido, foi at uma estante abarrotada, fingindo olhar com
interesse os textos alemes desbotados.
      -- Os catlicos vivem predominantemente no sul. -- Dunderdorf se recostou no canto
de sua mesa. Algumas folhas de papel escorregaram da pilha e caram no cho. -- E no oeste.
O resto  protestante. -- Ele semicerrou os olhos para os dois, os olhos brilhantes e pequenos
brilhando e diminuindo ainda mais. -- No sabia que se interessavam por histria da religio.
      -- Ah, nos interessa -- respondeu Heath com uma expresso sria que Brandon
reconheceu das vezes em que ele falava da Superwoman ou da superioridade das coxas de
frango do Salo de Jantar em comparao com as do Denny's. -- Mas a religio  secundria
 nossa paixo por culturas estrangeiras. Por exemplo, ns dois morremos de vontade de ir 
Alemanha. E  Sua, no ? -- Heath cutucou Brandon quando Dunderdorf se abaixou para
pegar os papis do cho.
      -- Claro que sim -- concordou Brandon, a voz constrangedora de to entusiasmada.
Sua nica experincia em atuao foi um papel de gngster em Grease no oitavo ano -- e era
um papel que no tinha fala. -- Estamos pensando em viajar como mochileiros pela
Alemanha e Sua neste vero.
      -- No peguem carona -- alertou Dunderdorf com seriedade. -- No  seguro como era
antigamente. -- O telefone da mesa de Dunderdorf tocou e ele atendeu. -- No -- disse ele
de mau humor ao fone. -- No pode esperar que termine o feriado? Tudo bem. Obrigado. --
Ele baixou o fone e pegou um cachecol xadrez pudo no encosto da cadeira, passando-o pelo
pescoo. Pegou a pasta e foi para a porta.
      Brandon deu um passo para o corredor, sentindo que tinham perdido sua chance. A ideia
de ir ao jantar dos alunos estrangeiros no dia seguinte lhe deu vontade de se matar, mas talvez
a pizzaria da cidade estivesse aberta.
      -- Tambm estvamos nos perguntando uma coisa -- acrescentou Heath rapidamente,
colocando o corpo firmemente na porta e lanando a Brandon um olhar que era equivalente a
dizer, No comece a dar piti.
      Dunderdorf pegou um sobretudo pesado e verde-escuro, de aparncia militar, no
cabideiro do canto.
      -- Sim?
      -- Qual  a principal diferena entre a salsicha alem e a salsicha polonesa? --
perguntou Heath, arqueando as sobrancelhas como um cientista.
      Uma pausa, depois um sorriso se espalhou pela cara de Dunderdorf.
      -- Meu rapaz, a salsicha alem  muito superior  polonesa ou a qualquer outra salsicha
-- respondeu ele, lambendo os lbios involuntariamente. -- As salsichas alems usam carne
de cervo e de porco fresca. As polonesas so feitas de traseiro de porco e carne de rato.  a
nica diferena. Mas deve ter o mesmo gosto para voc, no?
      -- Esse  o problema, senhor. -- Heath franziu a testa de leve e seus olhos assumiram
uma expresso distante. -- Nunca provamos uma boa e autntica salsicha alem. Queramos
muito saber o gosto.
      Brandon tentou esconder a incredulidade -- e a repulsa. Ele s veio nessa misso
imbecil porque no queria ficar sozinho no quarto, remoendo sobre Sage ou se perguntando
onde ela estaria, o que estaria fazendo agora, como seria o Dia de Ao de Graas dela. Alm
disso, embora odiasse confessar, uma parte mnima dele queria ver Heath fracassar e ser
jogado na sarjeta, j que de jeito nenhum Dunderdorf ia cair nessa tramoia idiota. Mas
enquanto via Heath encher Dunderdorf de perguntas sobre a culinria alem, inclusive uma
questo particularmente cara de pau, se os Dunderdorf gostariam ou no de uma salsicha de
peru no Dia de Ao de Graas, Brandon se perguntou por que ele no estava se esforando
mais.
       claro que ele queria dormir com Sage -- esteve pensando nisso desde a primeira vez
que ela falou com ele. Mas a no ser por alguns amassos intensos, ele no tentou realmente
passar para a segunda base. Ser que ele no nasceu com o gene do teso ou coisa assim? Ele
no podia pelo menos tentar transar com duas gatas europeias, nem que fosse para esquecer o
rompimento cruel de Sage no feriado?
      -- Por que no passam em nossa casa amanh? -- perguntou finalmente Dunderdorf
com a testa pontilhada de suor.
      -- Ah, no! -- Heath ergueu as mos, sempre o ator sutil. -- No vamos impor nossa
presena no Dia de Ao de Graas, no ? -- Ele lanou a Brandon um olhar que dizia que
era melhor Brandon avanar.
      -- Foi um convite muito gentil -- concordou Brandon. -- Pretendamos ir ao jantar dos
alunos estrangeiros... -- Os olhos de Heath se arregalaram e Brandon sabia que ele tinha
entrado em pnico. -- Mas no tem nenhuma boa salsicha alem por l.
      -- Ento est combinado -- disse Dunderdorf com um brilho nos olhos. Ele pegou uma
manta feia que combinava com o cachecol e abotoou o casaco. -- Ser um prazer receber
vocs com a boa e verdadeira comida alem. O feriado de Ao de Graas  uma
comemorao de dia inteiro em nossa famlia, ento  melhor chegarem cedo, se quiserem
experimentar verdadeiramente ein authentisches Deutsches Thanksgiving. -- Ele deu um
tapinha fraco nas costas de Heath e acenou com a cabea para Brandon ao conduzir os dois
para fora e fechar a porta da sala, assoviando pelo corredor.
      -- Inacreditvel. -- Brandon se encostou na parede do corredor longo e mal iluminado.
      -- , e graas a mim -- afirmou Heath, irritado. --  melhor voc ter alguma atitude
amanh, porque no posso carregar os dois nas costas de novo. -- Ento seu rosto se abriu
num sorriso bobo. -- Mas foi uma beleza, no foi? -- Ele fez uma dancinha, rebolando o
quadril.
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CliffordMontgomery: E a, vai naquela festa da Yvonne?

AlisonQuentin: A do tema do peru? Humm, sei l. E vc?

CliffordMontgomery: Talvez. Os outros filhos do meu padrasto
idiota esto aqui e eles so um porre.

AlisonQuentin: Pelo menos seus pais no acham que  um feriado
colonialista e comemoram queimando imagens de peregrinos!

CliffordMontgomery: Caraca. De repente o usque Wild Turkey
no parece to ruim.

AlisonQuentin: Guarda um pra mim.
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KaraWhalen: Festona na casa da Yvonne hoje. Vc vai?

EmilyJenkins: Pegar mas boiando com os dentes?

KaraWhalen: Espero que seja piada... Mas acho que ela tem uma
hidro.

EmilyJenkins: Com minha bunda branca? Nem pensar.

KaraWhalen: Soube que ela convidou Pierce O' Connor no trem...

EmilyJenkins: NESTE caso, preciso de um autobronzeador e um
biquni novo!
           ndando na Quinta Avenida com as meninas pela calada que comeava a ficar
           lamacenta, Callie quis calar alguma coisa mais prtica do que as sandlias Missoni
           de bico quadrado. Ela deveria estar num avio para Atlanta agora, recostada no
assento da primeira classe, sem sapatos. Mas ficou quase delirante de feliz por no pegar o
avio -- ela ia ver Easy de novo. Amanh. No conseguia deixar de tirar a luva para dar mais
uma olhada no elegante anel de ametista. Era lindo -- simples,  claro, porque Easy era
assim, mas simplesmente lindo.
      -- Meus ps esto ficando dormentes -- disse Callie com um ar sonhador, pensando
que seria bom se enroscar com Easy e receber uma massagem nos ps.
      Mas como era ele que estava no colgio militar, onde o obrigavam a fazer Deus sabia o
qu -- trilha puxada por terrenos acidentados, corridas torturantes de 20 quilmetros, prtica
de tiro --, talvez ele precisasse mais de uma massagem do que Callie.
      -- Fique aqui embaixo. -- Tinsley pegou o brao de Callie e a meteu sob a beira da
entrada de um hotel de aparncia sofisticada. Callie olhou para cima e leu o letreiro bonito,
The Granfield. As trs se apertaram perto da porta giratria, deixando que o calor da entrada
as banhasse. -- Vamos nos concentrar. -- Tinsley olhou os dois mensageiros de elegantes
uniformes vermelhos e azuis que passavam sem parar pelas portas para pegar a bagagem cara
das malas dos carros pretos e compridos que paravam junto ao meio-fio.
      Callie olhou a rua na direo do Central Park. Uma nvoa arroxeada caa com o frio
sobre os que ainda corriam e passeavam com os ces na rua.
      -- Na boa. No vamos ficar de p aqui feito plebeias.
      Antes que Jenny e Callie pudessem dizer alguma coisa, Tinsley passou pelas portas, a
bolsa Prada pendurada de lado. Andou com autoridade para a recepo, onde havia um
homem bonito de terno ao computador.
      -- O que acha que ela est dizendo? -- cochichou Jenny, olhando o piso de mrmore
preto que conseguia ficar perfeitamente encerado apesar do entardecer lamacento l fora.
      Callie moveu a mo para ver como o anel de compromisso cintilava na forte luz do
lustre do saguo.
      -- Sei l -- respondeu ela, distrada. -- S espero que d certo. -- Elas andaram
alegremente enquanto Tinsley fazia sua melhor imitao de Marilyn Monroe, batendo as
pestanas e paquerando o recepcionista.
      -- Sei que vocs sempre tm um quarto reservado para o caso de surgir uma Madonna
ou algum parecido. Sabe quem ela ? -- Tinsley apontou para Callie, que abriu um sorriso
desanimado. Depois de uma hora andando pela neve derretida de Nova York, o cabelo de
Callie estava colado na testa. Ela devia parecer a Noiva de Frankenstein.
      -- No. -- O recepcionista olhou por sobre o ombro de Tinsley a mulher de casaco de
pele que se aproximava do balco.
      -- Bom, ela  a filha da governadora da Gergia -- sorriu Tinsley com triunfo, os
dentes brancos e perolados dignos de um anncio de creme dental. -- Agora podemos
conseguir um quarto, por favor?
      -- Meu bem, ns simplesmente no temos nenhum quarto. -- O funcionrio balanou a
cabea com impacincia. -- Recebemos reservas para este fim de semana com meses de
antecedncia. Nem a Madonna conseguiria um quarto esta noite.
      -- Duvido. -- Tinsley deu meia-volta. -- Logo vocs vo receber uma carta do
governador. -- Ela se virou para Jenny e Callie e disse: -- Eu tinha que pegar um gay. --
Elas seguiram Tinsley de volta  rua. -- Merda.
      Jenny soltou um leve suspiro.
      -- Bem... A gente podia voltar para a casa do meu pai... -- Ela se interrompeu quando
Tinsley lhe lanou um olhar sombrio.
      -- Vamos pegar um txi para o Peninsula. Vou ter que mudar a histria da filha da
governadora... No est dando certo.
      Enquanto Jenny e Tinsley andavam decididas para a Madison Avenue, Callie parou de
repente voltando os olhos para cima e encontrando o vestido branco mais bonito que ela j
viu -- um vestido em A com busto drapeado e uma faixa de malha bronze na cintura imprio.
Era um sinal -- tinha de ser um sinal. Seus olhos flutuaram para o letreiro acima da porta:
Vera Wang.
      Callie se imaginou usando o vestido transparente ao seguir de elevador at o alto do
Empire State ao encontro de Easy. A imagem era perfeita, como um bolo de noiva. Ela
empurrou a porta da loja, mas a porta travou assim que as luzes se apagaram. A loja j estava
fechada.
      Callie revirou a bolsa Lanvin atrs do mao amarrotado de Marlboro Ultra Lights e
ficou olhando a porta. Era to perfeito.
      -- Pera um minutinho -- exclamou Jenny, colocando a mo com luva no brao de
Tinsley antes de ela chamar um txi. -- Olha s onde estamos.
      Tinsley olhou os dois lados da Madison.
      -- Largadas?
      -- . -- Jenny revirou os olhos. -- E quem a gente conhece no Upper East Side que nos
convidou to delicadamente para a casa dela sem os pais hoje  noite?
      -- A gente tem alguma alternativa? -- perguntou Tinsley, infeliz. Aquela nerd inglesa?
Bem, ir para a casa de Yvonne Stidder era melhor do que ficar na rua, desde que os pais dela
tenham lhe deixado um bar bem abastecido. -- Eu preciso mesmo de um drinque. -- Ela viu
Callie, a cara praticamente espremida no vidro da Vera Wang, olhando um vestido de noiva.
Meu Deus. A garota sem dvida precisava transar logo e parar com aqueles malditos planos
de casamento.
      A curta caminhada pela Park Avenue pareceu uma eternidade, as meninas arrastando-se
pelas ruas cheias, por causa das malas pesadas. As botas Givenchy de salto de Tinsley batiam
na calada e ela comeava a se sentir um pouco melhor, mesmo que ainda estivesse
totalmente amargurada com os pais por a colocarem nesta situao, antes de mais nada. Era
muita falta de considerao. Por fim, elas estavam na frente do numero 866, a leste da 80th
Street, um prdio alto com um porteiro que parecia um astro do cinema italiano. Ele abriu a
porta para as meninas no segundo em que elas pararam ali.
      -- Viemos ver Yvonne Stidder -- disse Jenny, pasma, olhando a imensa tela indistinta
pendurada sobre o sof no saguo.
      -- Sim, naturalmente. -- O porteiro tocou o quepe, sorrindo para Tinsley ao pegar a
bagagem das trs e as conduzir ao elevador. -- J esto todos l em cima. ltimo andar.
      -- Esto todos quem? -- cochichou Callie enquanto elas esperavam pelo elevador. --
Espero que no todos os amigos da banda de jazz dela.
      -- No sei se vou ter estmago para uma festinha de nerds hoje. -- Tinsley apertou o
boto dourado do C.
      -- Pelo menos estar aquecido -- sugeriu Jenny, os lbios meio azulados.
      -- E no lotado de Hare Krishnas -- acrescentou Tinsley.
      O elevador se abriu para outro pequeno saguo decorado com telas abstratas e sofs
rgidos que pareciam pequenos demais para se sentar. Bem  frente delas uma porta estava
aberta e se ouvia uma msica danante meio jazz. As meninas largaram as bolsas do lado de
dentro da porta da frente e olharam a cena: a sala de estar luxuosa, uma parede de vidraas
dando para a cidade, decorada em azuis escuros e marrons de bom gosto, e cheia de mveis
modernos e polidos. E apinhada de companheiras Waverly Owls.
      -- Olha a Kara ali! -- exclamou Jenny toda animada, tirando o casaco vermelho e
pendurando no armrio aberto.
      -- Esqueci que ela  do Brooklyn. E Alison Quentin. Graas a Deus. -- Tinsley viu as
meninas num sof de couro comprido, cercadas por caras mais velhos com taas de martini
nas mos.
      -- Isto  uma loucura -- sibilou Callie para Tinsley enquanto elas contornavam Clifford
Montgomery, um menino do terceiro ano com cabelo preto perpetuamente eriado e culos
de armao preta e quadrada. -- Quem diria que Yvonne tinha amigos? E ainda por cima
bonitos!
      -- Quem no teria se morasse num lugar desses?
      Pelas vidraas se via um deck de terrao com vista de 360 graus da cidade, uma slida
cerca-viva envolvendo a coisa toda e uma banheira de hidro do tamanho de uma piscina
pequena. Ali estava o irmo mais velho de Yvonne, Jeremy, que Tinsley reconheceu de um
dia no primeiro ano quando a famlia de Yvonne foi de visita  Waverly. Mas ela no se
lembrava que Jeremy era to... bonitinho. Bbado, Jeremy espirrou gua em alguns amigos
igualmente gracinhas na banheira quando uma menina de biquni vermelho descia a escada
para a gua quente.
      -- Nem acredito que vocs vieram! -- Yvonne deu um gritinho, passando pela multido
ruidosa. Estava com uma frente-nica estampada que podia ser bonitinha se no fosse pelo
estampado, e jeans pretos que eram meio pequenos demais para ela. -- Isso  demais.
      -- Casa bonita. -- Jenny a cumprimentou com os olhos cor de chocolate percorrendo a
sala. -- E uma tima festa... Est bombando.
      -- Eu juro que acho que metade da Waverly est aqui -- disse Yvonne, delirando um
pouco com o prprio sucesso. Tinsley e Callie se olharam e deram uma risadinha.
      Uma mquina de pinball soou em algum lugar da cobertura como um alarme de
incndio, mas ningum pareceu perceber. O telefone no bolso de Yvonne zumbiu e ela o
abriu.
      -- Fiquem  vontade -- disse ela, apertando o brao de Jenny antes de se afastar.
      -- Tenho que me trocar agora -- reclamou Callie, tocando o cabelo molhado com a
ponta dos dedos. -- Parece que estou toda suada e nojenta.
      -- Mas voc no estava, tipo assim, noiva? -- Tinsley passou os dedos pelo cabelo,
dando vida novamente s ondas pretas.
      Callie revirou os olhos para Tinsley antes de pegar a bolsa e desaparecer no corredor em
busca de um banheiro. Esta era uma autntica festa. S mostrava o que pode acontecer
quando as Waverly Owls esto entediadas em Nova York.
      -- Vou falar com a Kara. -- Jenny desapareceu na multido, lanando os braos em
Kara Whalen, a irritante ex-namoradinha de Brett, enquanto a loura ao lado dela olhava.
Pera. Aquele cabelo louro e ondulado era totalmente familiar e quando a menina se virou
para Jenny e apertou sua mo, Tinsley a reconheceu. Sleigh Monroe-Hill, sua colega de
quarto por trs meses inteiros no primeiro ano. Um suor frio -- no por nervosismo, mas por
uma raiva muito latente -- brotou em sua pele.
      Sleigh Monroe-Hill era a maior vaca que Tinsley j conheceu na vida -- e olha que ela
conheceu muitas. Elas voaram no pescoo uma da outra desde o primeiro dia na Waverly,
quando Alexander Zales, capito do time de futebol e o cara mais gato do primeiro ano, tinha
se sentado ao lado delas no refeitrio. Foi o que bastou: alguns dias depois, Sleigh disse a ele
que Tinsley tinha uma misteriosa doena de pele -- algo que provocava coceira em lugares
impronunciveis. Tinsley revidou encolhendo todos os jeans de grife de Sleigh na lavanderia
do poro, repetindo os ciclos de lavagem um aps o outro at que ficassem pequenos demais.
Sleigh passou semanas se lamentando, usando calas de veludo cotel e comendo gelatina,
convencida de que tinha cado na engorda dos calouros.
      Mas quando Sleigh descobriu que Tinsley tinha ficado com Alexander (ah, o meigo
Alexander) depois de um dos jogos de futebol, ela pirou completamente, atirando todas as
coisas de Tinsley -- roupas, livros, laptop, calcinhas La Perla, caixas de absorventes, tudo --
pela janela do quarto andar do alojamento Graham Hall. Totalmente insana. Logo depois
disso, Tinsley voltou do almoo e encontrou o lado de Sleigh do quarto limpo, como se ela
nunca tivesse estado ali. O reitor Marymount chamou Tinsley e disse que Sleigh estava em
uma curta "licena mdica", mas Tinsley nunca mais viu a menina e curtiu um quarto s para
ela -- e com dois armrios -- pelo resto do ano letivo.
      Tinsley fingiu examinar um mapa antigo de Manhattan pendurado na parede da sala de
estar enquanto fitava Sleigh pelo canto do olho.
      -- Que surpresa ver voc, Carmichael. -- Cliff Montgomery, com um sorriso no rosto,
apareceu diante dela. Estava com um suter azul royal justo por cima de uma camisa branca
amarrotada e Doc Martens surrados.
      -- E posso saber por qu? -- perguntou Tinsley, glida, irritada por ele estar cobrindo
sua viso de Sleigh.
      Suas entranhas palpitavam pelo reaparecimento inesperado de sua Nmesis e ela mal
conseguia se concentrar. Mas que diabos Sleigh estava fazendo aqui?
      -- Pensei que voc s fosse a lugares com gente bonita. -- Cliff deu de ombros. --
Tipo o Beatrice Inn, entendeu?
      Ele soltou o nome de um lugar exclusivo, como se ele ficasse mais descolado por saber
disso. Cliff era uma graa, de um jeito emo e Death Cab for Cutie de ser. Mas tinha um p
atrs desde uma excurso do Clube de Italiano para ver La Bohme, quando Tinsley deixou
que ele a beijasse no escuro do Metropolitan Opera House -- e depois nunca mais permitiu
que ele repetisse.
      -- Pode pegar uma bebida pra mim? -- perguntou Tinsley com doura, querendo se
livrar de Cliff e ficar o mais longe possvel de Sleigh.
      O ltimo boato que Tinsley ouvira era de que Sleigh estava recebendo aulas em casa e
tinha se reinventado como uma espcie de aspirante da cantora folk Joan Baez. A fivela de
couro com o prendedor de madeira no cabelo louro embaraado, junto com o jeans que
parecia sujo e a camiseta infantil de florzinha pareciam confirmar esse boato. Francamente.
     Enquanto Cliff se afastava para procurar um coquetel, Tinsley pegou a bolsa e entrou
pela primeira porta que encontrou. Pertencia a um quarto de hspedes com paredes carvo e
uma cama baixa, e uma porta do outro lado que dava para um banheiro pequeno. Depois de
se olhar no espelho e passar um pouco de delineador cinza chumbo, Tinsley saiu mais
parecida consigo mesma. Com o vestido American Apparel preto trespassado que mostrava a
bainha do corpete Cosabella pssego, ela estava sexy, relaxada e no dava a mnima para
nenhuma outra menina na sala.
     Sleigh Monroe-Hill que se danasse.
           epois de tirar a roupa e colocar um vestido de jrsei Kyumi de manga bufante,
           meias-calas marrons e um par de sandlias de veludo azul royal no toalete de p-
           direito alto de Yvonne Stidder, Callie se sentia muito melhor. Pela milionsima
vez quis que Easy estivesse com ela. No era to divertido passar o batom DuWop na boca
sabendo que ele no a beijaria -- pelo menos, esta noite no. Amanh, pensou ela
sonhadoramente enquanto voltava para a festa, os sapatos batendo de leve no piso de tbua
corrida de nogueira brasileira. Ela foi para a parede das vidraas e olhou a cidade,
perguntando-se se Easy j conseguira sair do colgio militar e se os planos dele para um fim
de semana romntico incluam um quarto no hotel W.
      Callie estava to imersa em pensamentos que nem ouviu o cara parando ao lado para lhe
fazer uma pergunta.
      -- Desculpe, o que disse? -- perguntou ela, tirando os olhos da noite escura.
      Um garoto com cabelo louro e curto e o queixo do Brad Pitt estava diante dela,
estendendo uma taa de martini cheia de um lquido rosa, com uma cereja flutuando no alto.
      -- Yvonne me pediu para te trazer um Cosmo... Ela disse que voc parecia precisar de
um.
      Ele ofereceu a bebida e Callie aceitou, olhando-o de cima a baixo. Ele vestia suter
Hugo Boss cinza e justo por cima de um bluso azul e jeans escuros Rock & Republic --
exatamente o tipo de roupa que ela escolheria para Easy, se Easy a deixasse escolher suas
roupas.
      Callie sorriu, um tanto agradecida por ter se precavido ao passar um gloss.
      -- Bem, obrigada -- respondeu ela com frieza, recostando-se na estante de ao e vidro
do canto.
      No passado, se um universitrio lhe oferecesse uma bebida numa festa, ela teria de
pensar cuidadosamente em todas as ramificaes da aceitao. Mas agora que estava
praticamente noiva, ela se sentia imune s paqueras dos que a cercavam -- fossem
universitrios ou no.
      -- Meu nome  Ellis. -- Brad Pitt estendeu a mo educadamente. Parecia meio um anti-
Easy, o que fez Callie sentir ainda mais saudade do prprio.
      -- Callie. -- Ela jogou a cabea de leve, o cabelo louro na altura do ombro quicando no
rabo de cavalo frouxo. -- Como conheceu Yvonne? -- O que queria dizer era, como um gato
como esse conhece Yvonne Stidder? Ela passou despreocupadamente o dedo pelos grossos
livros de arquitetura que se enfileiravam na estante.
      -- Fui colega de Jeremy na escola preparatria. O irmo dela. -- Ele apontou o terrao,
que estava momentaneamente vazio. -- Vim de Princeton agora. -- Ele sorriu para o martini
antes de tomar um gole.
      -- Princeton -- repetiu Callie, impressionada. Ela sempre pensou que Princeton era
uma das universidades chatas e ultracompetitivas onde os nerds se entocavam para estudar na
biblioteca por semanas a fio, mas agora imaginara um campus coberto de hera e cheio de
caras que pareciam o Brad Pitt. -- Gosta de l?
      Ellis assentiu, recostando-se no espaldar de uma cadeira vermelha berrante que parecia
vir dos Jetsons.
      -- Mas sinto falta de Nova York. Morei aqui a minha vida toda. -- Ele passou a mo no
cabelo louro. -- E a, o que vai fazer enquanto estiver aqui?
      -- Na verdade, vou encontrar meu namorado. -- Ela soltou a palavra namorado sem
esforo nenhum, observando a expresso de Ellis para ver sua reao. -- J faz algum tempo
que a gente no se v.
      -- Sei como  isso -- confidenciou Ellis, os olhos verde-claros e solidrios. -- Minha
namorada mora na Blgica.
      -- Uau, isso sim  distncia.
      Callie olhou o escuro de novo, imediatamente conjurando para ele uma namorada tipo
Angelina Jolie, lbios carnudos e francfona. Ela se perguntou como se sentiria sabendo que
Easy estava em outro continente. Tomou outro gole do drinque, sem perceber que j havia
secado metade dele. Jenny, sentada no sof com Kara, olhou-a nos olhos. Callie lhe lanou
um olhar que dizia que s estava conversando, que no estava rolando nada. Ele tinha
namorada, pensou ela, quase com alegria. No havia problema s conversar com ele.
      -- No  assim to ruim.  meio como ir daqui at a Califrnia -- disse Ellis. --
Apenas no fao isso com muita frequncia,  s isso. Ela s vezes vem, mas a famlia dela
est toda l. O pai  diplomata... Ento no  fcil para ela. -- Ele parecia triste e Callie podia
sentir sua dor.
      -- Qual  o nome dela? -- perguntou Callie, fingindo interesse em um livro imenso
sobre arquitetura brasileira moderna.
      -- Sybil -- respondeu Ellis, triste. Por um momento parecia que ele estava devaneando,
depois ele tomou outro gole do martini. -- E voc? Qual  a histria do seu namorado?
      -- Easy est numa escola da Virgnia, a oeste... Mas vai escapulir para passar o fim de
semana aqui. -- Dizer isso em voz alta a fez tremer. Ela no havia pensado em como seria
depois de seu fim de semana romntico, quando Easy teria de voltar ao colgio militar. Ser
que ele ficaria encrencado? Para onde se vai quando se  expulso do colgio militar? Para a
priso? -- Ele me deu isso. -- Ela mostrou a ele o anel de compromisso.
      -- Impressionante. -- Ellis coou o pescoo e Callie viu uma correntinha platinada ali.
-- Achar algum assim. Especialmente quando ainda se est no ensino mdio. -- Callie
procurou vestgios de condescendncia no rosto dele -- parecia algo que Tinsley diria --,
mas no achou nenhum. Ela entendeu, pela expresso de Ellis, que ele tambm tinha
encontrado a pessoa com quem queria passar o resto da vida. -- Seu namorado  um cara de
sorte -- acrescentou ele. -- Espero que ele saiba disso.
      -- Eu tambm -- riu Callie. S mais uma noite e ela estaria com Easy de novo. -- Ao...
Hummmm... amor de longa distncia. -- Callie ergueu a taa e Ellis brindou com ela.
      -- Amm -- disse ele. -- S que sua taa est vazia. Vou encher pra voc.
      Do outro lado da sala, Jenny olhava Callie e um dos amigos bonitinhos de Jeremy
Stidder reunidos no canto.
      -- Ele  seu amigo? -- perguntou a Casey, o universitrio lindinho que estava ao lado
dela.
      Ele tinha se sentado no sof de couro preto com ela e Kara e entrou na discusso sobre
onde achar o melhor restaurante da cidade. Quando Rifat Jones chamou Kara para jogar air
hockey no salo de jogos, Casey se aproximou alguns centmetros de Jenny.
      --  o Ellis. -- Casey seguiu os olhos de Jenny pela sala, com um cacho de cabelo
escuro caindo na testa. -- A gente j andou por a. Ele  legal. Tem namorada.
      -- E voc? -- Jenny voltou a ateno  sua paquera.
      Casey tinha comeado dizendo o quanto ela era parecida com uma estrela de cinema
cujo nome ele no se lembrava. Ele era uma graa total -- com uma camiseta vintage dos
Thundercats e cala preta, parecia uma espcie de roqueiro alternativo numa noite de folga.
      -- Nada de namorada -- disse ele com a mo no corao. -- D pra acreditar nisso?
      -- No. -- Jenny riu, encostando a cabea no sof e olhando o teto. As pessoas giravam
em volta deles, mas parecia que os dois estavam sozinhos em seu prprio mundo.
      Ele se encostou na almofada cinza e achatada no canto do sof e Jenny teve de se
segurar para no partir para cima dele, sentir seu peito largo contra o rosto. Mas ser possvel
que ela j estivesse bbada?
       -- E a, como conheceu Yvonne mesmo? -- perguntou ele, os olhos castanho-
acinzentados faiscando.
      Jenny mordeu o lbio, relutando em romper o feitio de sua paquera ao dizer que estava
no ensino mdio. Ser que ele ia mudar de ideia?
      -- Waverly -- disse ela por fim.
      -- T de sacanagem. -- Ele sorriu. -- Eu sou da Union. Fica, tipo assim, a meia hora de
voc.
      -- Que legal.
      Sua imaginao se encheu com imagens dela mesma andando com confiana pelo
campus da Union College nas visitas de fim de semana, acenando para os amigos de Casey,
ouvindo cochichos de Essa  a namorada do Casey. Jenny podia se ver chegando a festas
loucas de fraternidade, de mos dadas com ele.
      -- ,  superbacana -- concordou Casey, coando o joelho. -- A Union  tima.
      Jenny de repente percebeu que ainda estava com o suter aveia calombento e feio -- a
roupa do trem -- e nem um pingo de maquiagem. Ela mesma devia estar parecendo um naco
calombento de aveia.
      -- Ei, guarda meu lugar -- disse ela timidamente, colocando o copo vazio de cosmo no
tampo de vidro da mesa de caf.
      -- Tenho que tirar o suter... Est bem quente aqui dentro. -- Ela disparou na direo
de sua mala para pegar alguma coisa mais bonita e a bolsa de maquiagem. Entrou num quarto
de hspedes exatamente quando Tinsley saa com um olhar decidido no rosto.
      -- Vou me trocar -- cochichou Jenny, tirando o suter. -- Nem tinha percebido que
estou parecendo uma qualquer.
      -- Voc no est to mal assim. -- Tinsley tombou a cabea de lado, o cabelo roando
nos ombros. -- Mas j vi dias melhores.
      Tinsley deixou Jenny e andou pelo corredor, procurando algum sinal da malfica Sleigh
Monroe-Hill, que provavelmente comearia uma briga de mulheres bem no meio da festa,
gritando que Tinsley conseguira sua expulso da escola. Que fosse. At parece que foi
Tinsley que largou toda a gaveta de lingerie dela no gramado da frente. (Tinsley tinha certeza
absoluta de que Heath Ferro tinha roubado dos arbustos sua calcinha de biquni Agent
Provocateur preferida, mas ele ainda negava.)
      Ela viu Callie e um cara lindo conversando perto das portas de vidro que davam para o
terrao. Que interessante. Ao que parecia, Callie abandonara sua fantasia de vestido de noiva.
Pelo menos a festa de Yvonne no era uma nerdfest total. Tinsley se sentia ligada e parecia
que algo muito interessante podia acontecer. Ao entrar na cozinha, ficou totalmente
decepcionada ao ver um monte de completos imbecis -- provavelmente da banda de jazz de
Yvonne -- se reunindo no cmodo de mogno e ao inox. A galera magricela e esquisita bebia
cooler de Bacardi.
      Tinsley colocou a mo no quadril.
      -- Algum sabe onde a bebida est escondida?
      Ela espiou um armrio, mas s viu caixas de Froot Loops.
      -- Posso te preparar um cosmo, Tinsley.
      Um louro de cabelo curto cuja cabea s chegava ao queixo de Tinsley de imediato
saltou para a frente, pegando uma coqueteleira prateada e uma taa de martini. Ela parou por
um segundo, perguntando-se se conhecia aquele man. Depois teve um estalo. Era o colega
de quarto de Julian, Kevin.
      -- No bebo nada rosa -- respondeu ela, pegando a taa de martini da mo dele e
agarrando uma garrafa de Absolut. -- Mas obrigada.
      Tinsley no soube o que a fez olhar para cima naquele momento na sala de jantar, mas
ela olhou. Seus olhos caram em um cara parado sozinho, olhando fixamente uma tela
enorme, vermelha e laranja, no estilo Jackson Pollock, imerso em pensamentos. Julian. Julian
estava aqui. Ela sentiu o corao tremer, se isso fosse possvel. Ainda podia ouvir as ltimas
palavras de Julian, quando ela perguntou por que no o vira na festa de Halloween da
Waverly: Mesmo que eu tivesse ido, no ia querer ficar com voc. Foi de longe a coisa mais
cruel que algum j disse a ela, mas vindo de Julian, que era o cara mais descolado que ela
havia conhecido, tinha magoado mais do que qualquer outra coisa.
      De repente Tinsley recuou, encostando-se na bancada da cozinha. Kevin, que estava em
modo de ataque, ofereceu-se para lhe preparar um martini, mas em vez de responder ela deu
meia-volta e saiu dali. Com a taa de martini e a garrafa de vodca nas mos, ela voltou ao
quarto de hspedes e desabou na cama.
      No era mais Halloween, mas os fantasmas de seu passado voltavam para assombr-la.
   OwlNet                        Caixa de Mensagem Instantnea


EmilyJenkins: AimeuDeus, vc nem acredita em quem est na festa
da Yvonne Stidder.

BennyCunningham: Quem? Um monte de mans? R!

EmilyJenkins: Cara, no. TODA a Waverly est em NY -- at
Callie, Jenny e Tinsley... E Sleigh Monroe-Hill

BennyCunningham: Essa vaca me disse no primeiro ano que
conhecia um dermatologista que podia fazer maravilhas no meu
rosto -- na frente de Tom Pham, pra quem eu dava mole total!

EmilyJenkins: Vc estava com uma acne sria naquele ano...

BennyCunningham: Nem tanto! Era alergia ao meu uniforme de
hquei. No arrume desculpa por ela ser uma VACA!

EmilyJenkins: Acho que ela tem certo currculo...

BennyCunningham: T mais para ficha. Queria ver essa garota e
TC saindo na porrada!
       enny passou com cuidado o batom Cargo PlantLove com sabor de cereja, deixando a
       boca macia, doce e hiperbeijvel. J havia ficado uma hora conversando com Casey e
       queria passar a hora seguinte conversando com ele tambm -- quem sabe, se ela
tivesse sorte, ele pensaria em beij-la. Ser que ela deixaria? A resposta era... Jenny no
sabia. Sabia que no devia -- ela o conheceu h mais ou menos uma hora -- mas havia toda
uma lista de coisas que no devia fazer, e onde  que estava a diverso nisso? Depois de tirar
o suter pesado e revelar a blusa Free People transparente e preta de mangas soltas, ela sentiu
muito mais vontade de se divertir.
        A porta do banheiro se abriu, empurrando Jenny contra o espelho e sua mo esquerda
quase enfiou o pincel de maquiagem no olho.
        -- Mas o que... -- comeou Jenny, surpresa ao ver Tinsley  porta.
        -- Desculpe, pensei que no tinha ningum -- murmurou Tinsley, recuando.
        -- Est tudo bem -- insistiu Jenny. -- Pode entrar.
        -- Obrigada. -- Tinsley fechou a porta com a taa de martini na mo.
        -- E a... -- Jenny sentiu a necessidade de dizer alguma coisa, j que ela e Tinsley no
eram exatamente ntimas para ficar juntas num banheiro estranho em completo silncio. --
Acabo de conhecer o cara perfeito. -- Ela uniu os lbios para suavizar o batom, sentindo o
gosto de cereja na ponta da lngua.
        -- Eu tambm -- disse Tinsley em voz baixa, olhando a si mesma no espelho com
severidade.
        Jenny percebeu com interesse que no era um olhar do tipo Eu no sou uma gata?
Tinsley sempre estava uma gata, e especialmente esta noite, com o vestido preto trespassado
e brincos de pingente em formato de folha; mas era um olhar mais do tipo Onde estou?
        Um tremor percorreu o corpo de Jenny. Ela no quis dizer que tinha conhecido Casey
tambm, n?
        -- Quem? -- perguntou Jenny, meio temerosa da resposta.
        Tinsley ps as mos nos quadris e baixou os olhos, dando a impresso de que estava
prestes a vomitar. Jenny se preparou para o pior -- que Casey era um ex-namorado e eles
estavam falando em passar o Dia de Ao de Graas em alguma cobertura do centro,
cercados de supermodelos e estrelas de cinema, restando a Jenny se arrastar de volta ao pai e
aos Hare Krishnas.
        -- Julian.
        -- Como ?
        Sem querer, Jenny largou o pincel e ele bateu na cuba de vidro claro da pia, que ficou
manchado de preto.
       Julian McCafferty estava aqui? No parecia fazer tanto tempo desde que Jenny foi
convencida de que estava apaixonada pelo calouro lindo e superalto -- mas descobrir que ele
tinha ficado com Tinsley Carmichael s alguns dias antes de eles ficarem juntos foi o fim de
tudo.
       Jenny via as mos de Tinsley tremerem.
       -- Eu te disse que j estive apaixonada.
       -- Pensei que estivesse falando daquele cara da frica, ou de algum prncipe europeu.
-- Julian? Mas ele era to... normal. -- Ou de um astro do rock.
       Tinsley riu, a cor voltando a seu rosto.
       -- No,  s um calouro. -- A mente de Jenny disparava -- se Tinsley realmente era
apaixonada por Julian, no admirava que ela desse aquele ataque contra Jenny depois de
descobrir que eles estavam juntos. No que isso tornasse mais aceitvel colocar a culpa nela
por comear o incndio no celeiro -- mas talvez ficasse um pouco mais compreensvel.
Tinsley abriu uma gaveta na penteadeira e comeou a mexer ali, distraidamente. -- Eu nunca
senti o que ele me provoca. Ele  to franco e honesto. No tem, tipo assim, segundas
intenes, entendeu? -- Os olhos de Tinsley se arregalaram, como se de repente ela se
lembrasse de que falava com algum que tambm tinha ficado com Julian. -- Quero dizer,
no  que voc no saiba... Hummm, bom, acho que sabe, mas no foi o que eu quis dizer...
       -- Eu sei. -- Jenny olhou a gaveta aberta. Ela e Tinsley viram uma caixa de
camisinhas -- extragrande, Muito Prazer.
       -- Ai, que nojo. -- Tinsley fechou a gaveta com um baque. -- Esse  o banheiro do
Sr. e da Sra. Stidder? Quem  que deixa camisinhas para os convidados?
       -- Talvez eles s sejam atenciosos. -- O riso de Jenny rapidamente se transformou em
soluos e Tinsley lhe deu um tapa rpido nas costas para ela parar. Passou-se um momento e
Jenny se sentiu mais  vontade do que nunca com a menina mais velha e glamourosa. -- Sabe
de uma coisa, no houve realmente nada entre mim e Julian.
       Seria a verdade? Certamente no era assim na poca -- mas j se passou mais de um
ms desde que Jenny falou com ele, e ela no ficou morrendo de amores por ele todo esse
tempo. Em seus sonhos mais loucos, ela nem teria pensado que Tinsley e Julian tinham mais
do que algumas ficadas ao acaso, mas o olhar de Tinsley deixava claro que ela se apaixonara
pra valer.
       -- No consigo tirar esse cara da cabea -- admitiu Tinsley, curvando-se para a pia e
jogando gua no rosto.
       Jenny se sentou na tampa da privada. Julian e Tinsley? Ela esperou pela pontada
familiar de cime que sentira momentos antes, quando pensou que Tinsley tinha laado
Casey bem debaixo de seu nariz, mas no havia nada. E realmente pensou que esteve
apaixonada por Julian. Podia se lembrar de uma noite, h no muito tempo, quando olhou as
estrelas pela janela de seu quarto de alojamento, perguntando-se se Julian estaria vendo a
mesma coisa.
       Mas depois ela se lembrou do mesmssimo cenrio, aquela sensao de novo amor, s
que com Drew... E estremeceu.
       Olhando fixamente a pequena bandeja de velas aromticas no cho ao lado da banheira
de ps em garra, Jenny se lembrou de pensar em Easy da mesma maneira. Ela s estava na
Waverly desde setembro -- e j tinha se apaixonado trs vezes.
       -- Queria ser mais parecida com voc. -- Tinsley suspirou, abaixando na beira da
banheira, unindo os joelhos com meias pretas.
       -- O qu? -- Jenny deu um gritinho. Tinsley Carmichael, a pessoa mais glamourosa a
colocar os Manolos no campus verdejante da Waverly, queria ser como Jenny Humphrey,
que tinha acabado de passar uma hora paquerando um cara vestida num suter gigantesco e
feio pra caramba? -- Mas como?
       -- No sei. -- Tinsley suspirou, passando os dedos pelas ferragens de bronze da
banheira. -- Quero dizer, esta  a nica vez em que me sinto assim, mas nunca deixei que
Julian percebesse nada. Eu s fui a Tinsley mandona de sempre. -- Ela olhou novamente
para Jenny, os olhos violeta lindos e tristes. -- Entendo por que ele gostou mais de voc.
       -- Talvez ele s quisesse te conhecer melhor -- sugeriu Jenny, girando a pulseira no
brao. -- E voc no deixou.
       Tinsley assentiu e pegou um frasco de espuma para banho de lavanda da L'Occitane.
Abriu a tampa, cheirou e o devolveu ao lugar.
       -- Quero dizer, eu vejo como as pessoas reagem a voc.  to fcil conviver com
voc.
       -- No tem truque nenhum. -- Jenny se levantou, espanando os jeans escuros J Brand
com bainha torta. Ela teve de cortar uns 30 centmetros e costurar ela mesma. -- S gosto de
conhecer gente.
       -- Eu no. -- Tinsley torceu o nariz. -- Perturba meu equilbrio. Odeio ter de
reconfigurar todo mundo constantemente, quem cabe onde e essas coisas.
       --  por isso que voc  to fria com as pessoas quando as conhece? -- perguntou
Jenny para o prprio reflexo. Ela no teria se arriscado a fazer essa pergunta antes, em
especial no trem, quando Tinsley estava em seu mau humor eterno.
       Tinsley fez biquinho.
       -- Acho que sim.
       Uma batida alta sobressaltou as duas e Tinsley foi at a porta para abri-la.
       -- Que foi? -- perguntou ela  coitada da menina que tremia ali. -- Tem outros
banheiros na casa, sabia? Este est ocupado. -- Tinsley bateu a porta antes que a menina
pudesse dizer alguma coisa.
       -- Bem, se quiser Julian de volta, vai ter que tirar a capa de rainha do gelo -- disse
Jenny abruptamente. Ela percebeu que isso parecia meio rspido e que Tinsley no tinha
pedido conselho nenhum, ento acrescentou: -- Na minha opinio.
       -- No sei o que quer dizer -- disse Tinsley friamente, cruzando os braos.
       Jenny aproveitou a chance, pressionando um pouco mais.
       -- Isto -- disse ela, apontando o espelho. -- Voc fica na defensiva. No faa isso.
No h nada demais em se arriscar  rejeio. Sabe o que meu irmo diz? "Uma garota bonita
no pode dizer no se eu no convid-la para sair." Sempre penso nisso quando tenho medo
do fracasso.
       -- Eu diria que agora  tarde demais. -- Tinsley reprimiu um sorriso falso. -- Julian
nunca mais vai gostar de mim, no depois do que eu fiz com voc. -- Ela sugou as
bochechas.
       Jenny se virou para ela.
       -- S o que estou dizendo  que est claro que voc  mesmo apaixonada pelo Julian
-- continuou -- e precisa se abrir com ele. No tente manipular o cara para ele gostar de
voc de novo, porque no ia dar certo. S... Sabe como ... Pea desculpas por tudo e diga a
ele como se sente. Se ele no der ouvidos, bem, pior para ele. -- Ela colocou o tubo de gloss
na bolsa.
       Tinsley sorriu.
       -- Obrigada -- disse ela mansamente. -- Talvez eu faa isso mesmo.
       -- Que bom. -- Jenny abriu a porta, mas Tinsley se interps, fechando-a novamente,
para um coro de gemidos do lado de fora.
        -- Ento um conselho para voc, j que estamos no modo amiguinhas. -- Tinsley
apontou o dedo de brincadeira para Jenny, mas sua expresso era sria. -- No comece a
pensar em namoro firme com esse cara que acaba de conhecer. Voc precisa pegar leve e se
divertir.
        Jenny olhou a prpria boca no espelho. T legal, ento ela meio que j planejava sua
primeira ida  Union.
        -- Quer dizer que no posso beijar o cara?
        -- Desde quando eu virei freira? -- Tinsley revirou os olhos. -- Claro que pode
beijar. Mas no comece, sabe como , a escolher a aliana.
        -- Tudo bem,  justo -- concordou Jenny.
        -- Parta alguns coraes antes de deixar que o seu se parta de novo, est bem?
        Jenny deu uma ltima olhada em seu reflexo no espelho. Perto de Tinsley, ela ficava...
Bem, no era to ruim como pensava.
        Tinsley olhou para Jenny pelo espelho.
        -- Ns duas temos muito trabalho pela frente.
        Ela lhe deu um leve empurro para a porta e Jenny a abriu. Uma multido de meninas
que morriam de vontade de fazer xixi explodiu em aplausos.
        Kara puxou Jenny para um canto enquanto Tinsley passava.
        -- Eu a vi entrar aqui... Pensei que ela estava te estrangulando! -- Ela fez um olhar
indagativo. -- O que estavam fazendo a dentro?
        Jenny se limitou a sorrir.
        -- Voc no acreditaria em mim se eu contasse.
          insley abriu caminho pela multido espremida, voltando para a cozinha. A
          cobertura fedia  fumaa azeda de cigarro e colnia e perfume demais num espao
          muito pequeno. Sua garganta estava seca de falar com Jenny, e a taa de martini
tambm.
      Como se o destino a estivesse pressionando a testar o conselho de Jenny, a nica pessoa
na cozinha era quem ela mais queria ver -- e ao mesmo tempo a ltima. Julian estava na
frente da geladeira, olhando a porta fechada. Tinsley ficou paralisada. Ele estava lindo com
um cardig listrado de verde e cinza por cima de uma camiseta, cala Levi's preta e os tnis
Chuck Taylors pretos e desbotados. O estmago de Tinsley revirou.
      Ela tentou olhar por sobre o ombro dele para ver o que tinha prendido sua ateno,
perguntando-se se havia alguma foto divertida da famlia de Yvonne usando alguma coisa
idiota, ou um m de geladeira abertamente inteligente com alguma piadinha.
      -- Verduras -- disse uma voz, e Tinsley levou um ou dois segundos para entender que
no era Julian, mas a geladeira. Julian abriu e fechou a porta do refrigerador. -- Cerveja --
disse a mesma voz eletrnica.
      -- Oi -- disse Tinsley suavemente, sem querer assust-lo.
      Julian deu um salto, virando-se para ela. A surpresa em seus olhos castanhos a fez sorrir
involuntariamente.
      -- Oi. -- Ele passou a mo pelo cabelo castanho desgrenhado que cortara. Tambm no
era mais descolorido de sol e o fazia parecer mais velho. No bom sentido. -- O que est
fazendo aqui?
      Ela procurou por algum sinal de irritao ou raiva na voz dele, mas no percebeu nada.
      -- Meus pais esto terminando o piso -- explicou, embora soubesse que a resposta s o
confundiria. Ento decidiu explicar toda a saga, contando de um flego s que o pai de Jenny
era de um culto, todos os hotis estavam lotados e elas terminaram na casa de Yvonne.
      Julian sorriu. A covinha  esquerda da boca era como uma velha amiga para Tinsley.
Uma velha amiga que ela queria lamber.
      -- Parece o filme Depois de horas.
      -- Esse eu no vi. -- Ela adorava que Julian tambm fosse f de cinema, mas odiava
quando no entendia uma referncia a um filme. Na realidade, Tinsley sentia pelo
conhecimento de cinema de Julian o mesmo que sentia por ele: de certo modo odiava, porque
ele era um calouro e no devia saber mais do que ela, e ela meio que amava isso. -- O que
voc est fazendo aqui? -- perguntou ela, recostando-se na bancada de granito e tentando no
dar a impresso de que queria parecer sexy, o que ela era mesmo. -- Quero dizer, alm de
conversar com uma geladeira.
      Julian sorriu um pouco. Ela se perguntou se ele s estaria pouco  vontade, ou se ele
talvez se sentisse meio mal pela ltima coisa que disse a ela. No que no fosse verdade ou
ela no merecesse -- mas ela via que Julian se sentia mal assim mesmo, e uma onda de
esperana correu por suas veias.
      -- Seattle fica muito longe para o dia de Ao de Graas, e sou vegetariano mesmo,
ento  meio complicado querer pegar um voo longo s para comer um...
      -- Peru de tofu? -- sugeriu Tinsley, pegando algumas castanhas em uma tigela com
nozes na mesa. -- No sabia que voc era vegetariano.
      Julian olhou diretamente para ela e Tinsley sentiu um arrepio correr pela espinha at os
dedos dos ps.
      -- Tem muita coisa que voc no sabe sobre mim. -- O corao de Tinsley afundou e
ela teve a sensao de que ele estava a ponto de ir embora.
      -- Leite -- disse a geladeira de repente, provocando o riso dos dois.
      -- Acho que pifou. -- Julian apontou o polegar e se afastou da geladeira num
movimento suave. -- Acho que  uma espcie de sistema de alerta de mantimentos de alta
tecnologia.
      Nenhum dos dois disse nada por um segundo, o rudo da sala de estar entrando pela
porta. Algum gritou a letra de uma msica do Radiohead a plenos pulmes, mas foi
rapidamente tragada por um coro de "Cala a boca!" Julian olhava o cho, batendo no ladrilho
com os tnis. Tinsley sentiu uma pontada ao se lembrar das palavras de Jenny.
      -- Olha, Julian. -- Ela engoliu em seco, encarando a marca de caneta no bico de
plstico branco do sapato de Julian. Ela odiava quando as pessoas comeavam frases por
Olha. -- Me desculpe. -- As palavras saram com dificuldade, mas o alvio a tomou no
minuto em que ela as pronunciou.
      Tinsley sentia os olhos de Julian e desejou ter uma bebida, um cigarro ou algum outro
esteio para esconder o nervosismo.
      -- Pelo qu?
      -- Por tudo. -- Ela se afastou um pouco dele, pegando a garrafa de vodca e servindo
um jato na taa de martini vazia na bancada. -- Desculpe pelo modo como tratei voc, por
agir com tanta frieza quando voc foi, sabe como ... -- Ela deixou que a voz se arrastasse,
sexy, no podia evitar. Meu Deus, por que era to difcil ser sincera? Parar com aquele
teatro? Ento ela percebeu que estava sendo sincera. E depois que ela abriu as comportas das
desculpas, no conseguiu mais parar. -- Desculpe pelo que aconteceu com Jenny tambm. A
gente conversou e estamos... Agora est tudo bem.
      -- Ah, ?
      -- . -- Tinsley assentiu devagar, olhando um prato de hummus e cenouras. -- Ela 
mil vezes mais legal do que eu. No lugar dela, provavelmente eu nunca teria me perdoado.
      -- Isso deve ser verdade mesmo.
      Tinsley teve a sensao de que ele estava fazendo a linha dura para test-la, para ver se
ela se irritava e atirava algum comentrio depreciativo para cima dele. Mas ela no se sentia
assim, mesmo que estivesse constrangida por ser to humilhada na cozinha idiota de Yvonne
Stidder.
      -- Mas queria te dizer que peo desculpas a voc, porque sei que deve pensar que sou a
pessoa mais cruel do mundo, mas na verdade no sou. -- Sua voz tremeu um pouco,
involuntariamente.
      -- No acho que seja a pessoa mais cruel do mundo.
      Julian pegou uma Heineken na geladeira e a abriu. Tinsley se perguntou se tinha
imaginado a nfase na palavra mais. Mas era tarde demais para revidar.
      -- S tive cime. -- Ela baixou os olhos e espiou Julian pelos clios longos e grossos.
Era um gesto que usou muitas vezes para parecer humilde quando no se sentia assim, mas
agora era difcil demais olhar diretamente para Julian. Era como se ele fosse o sol ou coisa
assim, e ela tivesse de proteger os olhos. -- E agora estou totalmente arrependida. Nem
consigo pensar nisso sem ficar com nojo de como me comportei. Eu no sou uma pessoa m.
-- Ela controlou a respirao pesada, reprimindo o choro que sentia crescer no peito. -- Sou
mais legal do que voc pensa.
      Julian a encarava, confuso. Tirou as mos dos bolsos, depois as recolocou ali. Tinsley
tinha rompido a frieza com a qual ele se protegia, ela podia notar.
      -- No sei se acredito em voc -- disse ele por fim --, mas seria bom se fosse verdade.
      -- Me d uma chance de provar -- pediu Tinsley. Tinha ido longe demais para voltar
atrs e sabia que no ouviria um no. -- Talvez a gente possa passar um tempo juntos.
      Julian sorriu e deu de ombros.
      -- T legal -- disse ele simplesmente. -- Acho que gostaria disso.
      -- Ei, voc vem, Jules? -- Uma voz familiar e indesejada falou da porta, e Tinsley nem
precisou erguer os olhos para saber que era Sleigh Monroe-Hill. Jules? -- Carreguei todo
meu vdeo do YouTube, como prometi. Voc disse que... -- Ela parou de repente ao ver
Tinsley, arregalando os olhos azuis. -- Ai, meu Deus, essa  Tinsley Carmichael?
      A voz de Sleigh era coberta de acar e Tinsley mal conseguiu controlar a nsia de
vmito. Mas de maneira nenhuma ia deixar que Sleigh estragasse seu recomeo com Julian.
Tinsley abriu a boca para dizer alguma coisa educada, mas que no a comprometesse (afinal,
na ltima vez que Tinsley a vira, o pai de Sleigh estava preenchendo um gordo cheque pelo
laptop e todas as outras porcarias que ela arruinou), mas antes de poder fazer isso, Sleigh a
envolveu num abrao imenso. -- Meu Deus, j faz tanto tempo, TC. -- Tinsley lhe deu um
abrao frouxo. Desde quando Sleigh era to simptica? Ou legal? -- Voc est deslumbrante,
como sempre!
      Com esse pequeno comentrio, Tinsley sabia que nada tinha mudado. Sleigh disse
"deslumbrante" como se fosse um insulto -- que s as mulheres conseguiam ouvir.
      -- , j faz um tempo.
      Tinsley se afastou de Sleigh, olhando a camiseta sem manga lavanda de hippie
(hummm, estava nevando l fora) e o cabelo descorado do sol (ela andou pelo Caribe?). Ela
no usava suti, era isso mesmo? Mas Tinsley sentiu os olhos de Julian nela, ento
rapidamente emendou:
      -- Voc tambm est tima, Sleigh.
      Os olhos azuis de Sleigh pestanejaram brevemente antes de ela pegar a mo de Julian.
      -- Vem, est todo mundo esperando.
      -- T bem, estou indo.
      Julian olhou Tinsley uma ltima vez antes de os dois desaparecerem na sala da frente,
deixando-a sozinha na cozinha subitamente vazia. Ela estava um tanto curiosa sobre o vdeo,
mas uma pergunta mais urgente se metia na frente de seu crebro: como assim Sleigh
conhecia Julian?
      -- Manteiga -- disse a geladeira, como se respondesse  pergunta.
        enny se recostou na estante preta e polida, vendo a neve cair do lado de fora da
        biblioteca. A vista do terrao era desimpedida e algumas almas corajosas estavam na
        banheira ali, curtindo, bbadas, a paisagem de inverno que se esparramava pelos
terraos da Park Avenue. A intensidade da neve aumentara nas ltimas horas, mas Jenny mal
percebera. Mal percebia qualquer coisa alm de Casey -- o tempo voou enquanto conversava
com ele sobre tudo, de seus filmes preferidos a bandas que eles adoravam e lugares que
Casey tinha conhecido.
      -- Phuket deve ser o lugar mais bonito que j fui -- disse ele, passando o dedo pelo
globo antigo em seu suporte de madeira escura. -- Precisa ir, quando tiver oportunidade. --
Jenny no se importaria de ir -- com Casey. Mas depois ela se lembrou da reprimenda de
Tinsley para pegar leve e se divertir. E uma viagem  Tailndia devia violar essa regra --
embora imaginasse que certamente contaria como diverso.
      -- Gente, olha.
      Emily Jenkins acenou para a janela e uma dezena de Owls bbadas se reuniram em
volta dela, olhando a rua. Jenny balanou a cabea para clarear os pensamentos -- nem
percebeu que tinha mais algum ali -- e correu para a janela com Casey. Um nibus tinha
enguiado no meio do cruzamento tomado de neve da 80 com a Park Avenue. Soou uma
cacofonia de buzinas e instantes depois a rua estava engarrafada, uma camada de neve
rapidamente se acumulando em todos os carros. Toda a cena parecia em miniatura, como um
globo de neve que algum tinha sacudido.
      Yvonne subiu na mesa executiva de mogno no canto. Ela acenou, mal conseguindo ficar
de p depois de beber todo seu peso em rum e Diet Coke.
      -- Quem precisar de um lugar para passar a noite pode acampar aqui! -- gritou ela,
feliz. Yvonne estivera circulando pela festa a noite toda, bbada no s dos drinks, mas por
sua festa ter sido esse sucesso todo. -- Vai ser como uma festinha de pijama gigante... Meus
pais ficam em Londres at segunda, ento todos esto convidados para o feriado de Ao de
Graas! -- Sua voz era arrastada e Jenny teve medo de que ela pudesse despencar no piso de
madeira. -- A pizza  por minha conta. Vai ser o mximo!
      -- Caraca, ela t de porre -- sussurrou Casey, inclinando-se para Jenny.
      Jenny assentiu, encarando os olhos castanho-escuros dele. Havia um aro cinza em volta
da pupila, algo que Jenny no tinha notado. Ele era mais alto do que Jenny -- praticamente
todo mundo com mais de 10 anos era assim --, mas no era to mais alto quanto a maioria
dos meninos por quem Jenny se apaixonou, e era bom no ter que arquear o pescoo para
olh-lo.
      Ou beij-lo, pensou ela, a pulsao comeando a acelerar.
      -- Vai ficar aqui? -- perguntou Casey, como se lesse sua mente. Ele colocou o copo
plstico vazio ao lado do globo na ponta da mesa.
      -- Voc vai? -- perguntou ela como quem no quer nada. Jenny balanou o cabelo para
mostrar que podia ficar ou no, mas na realidade no tinha aonde ir. Voltar  casa do pai?
Mesmo que quisesse fazer isso, seria um pesadelo atravessar a cidade tomada de neve.
      -- Vou -- respondeu ele.
      E Jenny seria capaz de jurar que os olhos dele pousaram por uma frao de segundo nos
lbios dela.
      A eletricidade disparou pela espinha de Jenny.
      -- Eu tambm. -- Ela sorriu. -- Todos os hotis esto lotados mesmo -- acrescentou
ela, surpresa por parecer to cosmopolita.
      -- timo. -- Casey sorriu.
      As luzes diminuram enquanto o comeo da noite virava madrugada. A tela plana no
alto da lareira exibia, muda, Meninas malvadas e as pessoas em volta jogavam cartas ou
inventavam falas de bbadas para o filme. A neve diminuiu e a banheira reabriu seus
trabalhos. Uma trilha molhada corria do terrao  sala e todos gritaram quando a porta se
abriu e uma lufada de ar frio entrou pelo apartamento. Julian estava junto da grande lareira do
canto, virando as pequenas toras com o atiador, enquanto uma loura que Jenny no
reconhecia estava sentada em uma almofada a seus ps, de pernas cruzadas, como se
meditasse ou estivesse numa aula de ioga. Jenny procurou por Tinsley, perguntando-se se ela
conseguira conversar com ele, mas s viu Callie, sentada em uma cadeira vermelha e
ultramoderna em forma de lgrima, conversando atentamente com o cara ao lado.
      A noite esmoreceu em murmrios enquanto todos reivindicavam camas ou cavavam um
lugar na sala da frente com os sacos de dormir, cobertores e travesseiros que algum
desenterrara de um armrio no corredor. Jenny no se lembrava de quem tinha afastado o
sof, ou como terminou recostada nele ao lado de Casey, mas gostou.
      -- Voc est tremendo. -- Ele estendeu a mo para a escurido enevoada e puxou o
cobertor para cima. Ele colocou o edredom por cima dela e o enfiou sob seu queixo, as mos
tocando de leve em seu corpo.
      -- Obrigada. -- O rosto de Casey estava to perto que ela podia beij-lo. Casey se
inclinou como se a desafiasse a isso, mas se limitou a colocar um cacho atrs da orelha de
Jenny, demorando-se um pouco com os dedos ali.
      -- Tenha doces sonhos -- sussurrou ele, metendo um travesseiro sob a cabea, e Jenny,
enquanto adormecia, percebeu que j estava sonhando.
          s degraus para a casa de madeira do Sr. Dunderdorf na margem norte do campus
          estavam cobertos de uma grossa camada de neve e Heath os subiu com ansiedade.
          Brandon ficou para trs, perguntando-se que merda estavam fazendo acordados
quela hora, na manh de Ao de Graas, quando deviam estar de frias. Quase quis estar
em casa, metido em sua cama, deixando que a "onda do mar" de seu aparelho de som Bose
bloqueasse os rudos de dois bebs barulhentos que viam Thomas e seus amigos e
transformavam a sala numa zona de guerra. Ao que parecia, no havia mais nenhum lugar
seguro. Mas no segundo em que Heath saltou da cama s 5 da manh, antes at de o sol
nascer, ele entendeu que seria um dia longo, muito longo. Brandon tentou rolar na cama,
enterrando a cabea no travesseiro, mas Heath no deixou.
      -- As gmeas Dunderdorf esto esperando por ns -- ficava entoando sem parar antes
de Brandon ceder, dormindo no banho at que a gua quente esfriou.
      Agora Heath mostrava a Brandon os dois polegares erguidos e bateu na porta
desgastada da casa dos Dunderdorf. O cheiro quente do forno os recebeu quando a porta foi
aberta.
      -- Entrem -- disse o Sr. Dunderdorf com aquela voz, incrivelmente grave para um
homem de aparncia to frgil.
      -- Ele est usando lederhosen? -- cochichou Brandon a Heath.
      Enquanto isso, Dunderdorf acenava para que passassem pelo slido batente de carvalho
e entrassem na sala do estar, que era um pesadelo alpino de paredes revestidas de madeira e
prateleiras de quinquilharias empoeiradas. Ele olhou para a cala verde escura de Dunderdorf,
que s ia at os joelhos, por baixo da qual tinha uma espcie de cenoura de l.
      -- A lederhosen  a roupa tradicional dos bvaros -- sibilou Heath. -- No seja to
ranheta.
      Os olhos de Brandon se adaptaram  meia-luz, vendo os entalhes de elfos e gnomos que
se espalhavam por toda parte. Um entalhe em particular -- de um elfo gigante com uma cara
ameaadora de porco -- realmente lhe deu medo. Uma mesa no canto abrigava toda uma
aldeia de cermica, cada casa pintada numa cor primria diferente, todos os telhados
laqueados com uma camada de neve falsa. Um fio de luzes de Natal serpenteava pela aldeia,
piscando em vermelho, verde, amarelo, rosa e azul a cada trinta segundos.
      Ouviram um carrilho e, antes que Brandon pudesse se equilibrar, o relgio de cuco na
parede soou oito badaladas. Um tirols minsculo -- de lederhosen -- saiu numa prancha, a
carinha demonaca gasta dos anos de exposio.
      -- Cara, esse sujeito do relgio no tem rosto -- observou Heath.
      -- Eu vi.
      Brandon de repente teve a impresso de que fora apanhado numa espcie de dobra do
tempo intercultural. Precisou olhar seus jeans True Religion desbotados e o familiar colete
Burberry para se lembrar de que no estava em outro planeta.
      -- Frau Dunderdorf e eu estamos no meio do Dutch Blitz. -- O Sr. Dunderdorf enfiou
os polegares nos suspensrios da cala curta e os puxou do peito. -- Sabem jogar?
      Brandon estava prestes a dizer no -- quem jogava cartas a essa hora? -- quando Heath
se intrometeu.
      -- No, senhor, mas adoraramos aprender.
      Dando um tapinha nas costas de Heath, Dunderdorf os levou pela sala da frente at a
cozinha abafada, onde uma mulher baixa e corpulenta, com uma semelhana impressionante
com o Sr. Dunderdorf, estava sentada em uma mesa de metal cheia de cartas que nenhum dos
dois reconheceu.
      -- Esta  a Sra. Dunderdorf.
      Heath e Brandon assentiram para cumpriment-la. Como esses dois geraram um par de
gmeas de arrasar?, pensou Brandon. Ele queria perguntar a Heath se ele realmente vira as
lendrias gmeas, mas sabia que Heath estava to apavorado quanto ele prprio.
      -- Caramba, essas cartas so de dar medo. -- A voz de Heath quase guinchava de
pnico.
      -- Ah... -- O Sr. Dunderdorf fez um gesto de desprezo. --  fcil. Sentem-se.
      Eles se sentaram com cautela  mesa e a ateno de Brandon vagou enquanto o Sr.
Dunderdorf explicava sobre os quatro naipes -- Bomba, Carroa, Arado e Balde -- e que
cada naipe tinha dez cartas vermelhas, azuis, verdes e amarelas. Brandon olhou o pequeno
holands que aparecia em cada um dos quatro cantos das cartas, perguntando-se se de algum
modo tinha entrado em Alm da imaginao. Pelo menos ele no estava pensando em Sage,
perguntando-se o que ela estaria fazendo... Mas agora que pensou nisso, o que ela estaria
fazendo mesmo? E o que, alis, ele estava fazendo?
      -- Qual  o problema? -- perguntou a Sra. Dunderdorf, os olhos azuis de Mame Noel
concentrados em Brandon.
      -- Nenhum -- garantiu Brandon. -- Eu s, humm, estava procurando uma... -- ele se
interrompeu, vasculhando o crebro atrs da palavra para salsicha alem. -- Deutsche Wurst.
      A Sra. Dunderdorf sorriu para ele, revelando um buraco entre os dentes da frente,
grande o bastante para se meter um lpis por ali. O Sr. Dunderdorf comeou a primeira
rodada de Dutch Blitz, que acabou se mostrando parecida com Uno. Depois de uns vinte
minutos de um intenso jogo de cartas, a Sra. Dunderdorf trouxe o bule de caf e encheu as
xcaras. Brandon deu um rpido chute na canela de Heath, mas este s lhe lanou um olhar de
eu sei, cara, mas o que quer que eu faa?
      O Sr. Dunderdorf pediu licena para usar o Raum des Kleinen Jungen -- Brandon
pensou significar "quarto do garotinho", mas j fazia alguns anos desde que teve aulas de
alemo. Depois que Dunderdorf estava fora do alcance, Heath se inclinou para a frente e
perguntou  Sra. Dunderdorf:
      -- Ento, humm, suas filhas ainda esto dormindo? -- A pergunta pareceu inocente,
mas Brandon estremeceu quando Heath a pronunciou.
      A Sra. Dunderdorf balanou a cabea e Brandon se preparou para as ms notcias, de
que ou elas no viriam, ou simplesmente no existiam. Talvez algum veterano safado tenha
espalhado o boato, sabendo que uma alma fogosa tentaria explor-lo.
      -- O avio delas atrasou -- respondeu a Sra. Dunderdorf embaralhando as cartas. --
Vamos peg-las mais tarde.
      O qu? Heath se recusou a olhar para Brandon, fingindo se concentrar nas cartas. Eles
arrastaram a bunda para l praticamente ao amanhecer -- e por nada! Pelo menos elas
viriam...
      -- Agora est na hora de pegar o peru -- anunciou o Sr. Dunderdorf, voltando 
cozinha e batendo palmas. Sua expresso era positiva e alegre. -- Acompanhem-me.
      Brandon e Heath se afastaram da mesa e se colocaram de p, ansiosos pela oportunidade
de evitar mais uma rodada de Dutch Blitz. Talvez uma ida  Stop & Shop de Rhinecliff lhes
desse a chance de escapar -- ou, raciocinou Brandon consigo mesmo, pelo menos "lembrar"
de um "projeto importante" em que precisava trabalhar. Podiam voltar mais tarde -- ou
amanh -- para dar uma olhada nas gmeas.
      -- Obrigado pelo delicioso caf, Sra. Dunderdorf. -- Heath sorriu obsequiosamente,
sem jamais desistir. -- Acertou em cheio.
      O Sr. Dunderdorf os levou para fora, o frio da manh pendendo no ar, mas em vez de
irem para o Volkswagen estacionado na entrada, ele contornou a casa com os dois. Brandon
ficou paralisado quando ouviu o que esperava no ter ouvido.
      O Sr. Dunderdorf abriu o porto de um pequeno quintal. Um peru grande andava pelo
gramado, parando e olhando para eles antes de fugir.
      -- Vamos, meninos,  s um passarinho. -- Ele riu consigo mesmo.
      -- Ah, droga, no. -- Brandon balanou a cabea e se recostou no porto, tentando
gesticular para Heath que agora era a hora de correr. Acabou-se. Nada de gmeas, s um peru
vivo e uma casa que tinha cheiro de bolo Grandma Ginny's.
      -- Cara. -- Heath deu um suspiro, ele estava plido. -- Isso  pssimo.
      O Sr. Dunderdorf, sem perceber a agonia dos dois, foi at a gaiola no canto.
      -- Precisamos coloc-lo aqui dentro, meninos -- disse ele. -- Vocs tm de perseguir,
ou ele no vai se mexer. No podem s andar at ele. -- O velho desandou a correr atrs do
peru, que batia as asas e disparava na direo contrria  da gaiola aberta.
      -- No estou fazendo isso -- declarou Brandon, passando a mo no cabelo castanho
dourado e curto.
      -- Cara, vai valer a pena. -- Heath plantou as duas mos nos ombros de Brandon. --
Tem alguma ideia de como as gmeas so deliciosas? J pensou que seremos uma lenda na
segunda de manh? Sage provavelmente vai saber e ficar toda "oh, o que foi que eu fiiiiz?"
-- Heath imitou uma voz aguda bem feminina para imitar Sage.
      E deu certo. Brandon adorou a ideia de Sage descobrir que ele ficou com uma gostosa
alem dias depois de ela tentar partir seu corao. Foi o bastante para que corresse pelo
quintal, perseguindo a ave gigantesca e estpida. O corao de Brandon batia loucamente no
peito enquanto ele tentava conduzir o peru para a gaiola -- mas a ave sempre se desviava da
porta aberta no ltimo minuto, contornando o quintal e gritando. Sem flego, ele parou, com
as mos nos joelhos, vendo o Sr. Dunderdorf e Heath levarem a gaiola ao peru, encurralando-
o no quintal at que ele no teve alternativa a no ser entrar.
      -- Arr! -- exclamou o Sr. Dunderdorf ao trancar a porta da gaiola. -- Bom trabalho,
Sr. Ferro. -- Ele pegou um machado.
      -- Agora, vamos  baguna.
      Uma hora depois, aps se lavar, quando Heath e Brandon ainda estavam traumatizados
demais para falar, o Sr. Dunderdorf anunciou que era a hora perfeita para uma sauna.
      -- Uma sauna?
      Brandon sufocou, fraco demais para resistir enquanto o Sr. Dunderdorf o levava com
Heath pela escada do poro. O cheiro de madeira mida encheu as narinas de Brandon e a
escurido de repente se iluminou, revelando uma sauna completa atrs de uma porta de vidro,
os bancos de madeira iluminados por lmpadas vermelhas. O Sr. Dunderdorf ajustou o boto
junto  porta e comeou a se despir.
      -- Deixem as roupas do lado de fora -- instruiu o Sr. Dunderdorf. -- Pendurem nos
ganchos. -- Ele apontou uma srie de ganchos na parede.
      Brandon olhou para ver se o primeiro instinto de Heath era o mesmo dele -- fugir --,
mas Heath deu as costas ao Sr. Dunderdorf e comeou a tirar a roupa. O Sr. Dunderdorf
pegou uma toalha limpa do cesto de vime perto da porta e entrou na sauna, a porta de vidro
estalando depois de ele passar.
      -- De jeito nenhum -- disse Brandon.
      -- Confie em mim, cara -- disse Heath, parado de cueca. -- Vai valer totalmente a
pena. Voc j chegou at aqui.
      Brandon assentiu. Heath tinha razo. Ele s precisava que as gmeas Dunderdorf
chegassem, e rpido, para que Sage soubesse daquilo tudo, ficasse com um cime louco e
ento lhe implorasse para voltar.
      Ele tirou a cueca Ralph Lauren listrada de marinho e amarelo, jogou as roupas numa
pilha ao lado das de Heath e pegou uma toalha.
          cordes de msica clssica soavam pelos alto-falantes recuados do sistema de som
          ambiente embutido dos Messerschmidt na manh de quinta-feira. Infeliz, Brett
          olhou a torta de caviar com cebolas champanhe, um prato de que nunca ouvira falar,
que dir vira servido em sua casa. Apertou os olhos pela mesa de jantar de carvalho polido na
direo de Bree, que considerava a responsvel pela monstruosidade. Quando prometeu 
me que se comportaria no brunch de Ao de Graas com os Cooper, Brett imaginara que
teria auxlio em seu esforo mastigando silenciosamente as rabanadas leves da me, e no
preparando ovas de peixe gelatinosas. Ela sentiu a garganta se apertar ao meter o garfo num
pedao da torta, soltando-o com uma sacudida e empurrando pelo prato, a porcelana
imaculada brilhando como um espelho.
      Mas Brianna, com um vestido azul virginal Ann Taylor estampado de rosinhas
minsculas, recusava-se a reconhecer sua presena, como vinha fazendo desde a chegada.
Brett no incio ficou em pnico com a irm noiva zumbi da Vogue -- ser que eles a
drogaram? Fizeram lavagem cerebral? --, mas agora s estava irritada com toda a situao.
      -- Gosta de golfe? -- perguntou o pai de Brett ao Sr. Cooper, tomando um gole de suco
de laranja fresco.
      Stuart Messerschmidt, cujo tema preferido -- histrias de cirurgia plstica -- sem
dvida foi proibido por Bree, passou ao segundo assunto de que mais gostava: esportes. Ele
parecia mais estressado agora do que quando todo o elenco das Rockettes o procurou em um
ms de novembro e exigiu que ele aplicasse Botox em cada uma para sua estreia.
      O Sr. Cooper engoliu uma garfada de torta e assentiu.
      -- Sim, gosto.
      Estava com uma camisa Nautica rosa e uma gravata azul-marinho com pequenos
veleiros amarelos. Ao que parecia, os brunches de Ao de Graas deviam ser formais --
quando Bree esbarrou com a irm no corredor do segundo andar naquela manh, obrigou
Brett a voltar ao quarto e trocar sua cala aveludada favorita Juicy Couture e camiseta preta
dos Rolling Stones.
      -- Quem  seu jogador preferido? -- perguntou o pai de Brett, parecendo grato por ter
achado alguma coisa para conversar.
      A me de Brett, numa espcie de terninho bege que parecia algo usado por uma
advogada, apertou a mo dele do outro lado da mesa.
      -- Jogador preferido? -- O Sr. Cooper parecia perplexo. Olhou a esposa, como se
dependesse dela como intrprete.
      -- Acho que ele quis dizer na televiso -- disse a Sra. Cooper, toda prestativa. Ela
bebeu de seu copo de gua com gs.
      -- Ah. -- O semblante do Sr. Cooper escureceu e ele olhou o Sr. Messerschmidt como
se ele fosse uma criana. -- No assisto golfe. Eu jogo.
      A expresso do pai de Brett esmoreceu e Brett se controlou para no estender a mo
pela mesa e meter um tabefe no Sr. Cooper. Ela tentou pensar num comentrio mordaz sobre
o golfe, mas no lhe veio nada.
      -- Pai, voc gosta do Tiger Woods. -- Willy se manifestou, empurrando o pedao de
torta de caviar para a beira do prato. Ele, Brett percebeu com alivio, no estava de gravata.
      O Sr. Cooper assentiu, os olhos de um verde plido da cor de uma cdula de dlar que
tinha cado na lavadora por acidente.
      -- Certamente gosto.
      --  impossvel no amar um jogador como aquele. -- O Sr. Messerschmidt balanou a
cabea e soltou um assovio leve. -- Mas, pessoalmente, sou f de John Daly.  de se adorar
um cara que consegue fazer tantas trapalhadas daquele jeito.
      -- No o conheo -- disse Bree toda recatada, sabendo muito bem quem ele era. Ela
ajeitou o leno branco que prendia o cabelo.
      -- Sabe quem , o gordo que joga bbado e  casado com uma ex-presidiria --
respondeu Brett alegremente, vendo o olhar de pavor toldar a cara de Bree.
      Brett sempre reclamava quando entrava na sala e o pai estava vendo golfe na tela
grande, mas agora bem que veio a calhar.
      O Sr. e a Sra. Cooper partilharam um olhar e voltaram em silncio a sua torta.
      -- Algum gostaria de outro bolinho de mirtilo com cobertura de laranja?
      A Sra. Messerschmidt se levantou e passou a bandeja de bolos endurecidos pela mesa.
Ela afundou na cadeira, mexendo no colar de prolas no pescoo que Brett jamais a vira usar.
Ela tendia a preferir colares imensos com um monte de contas e muito ouro, num visual meio
excntrico de Home Shopping Network.
      -- Somos fs de corridas -- disse Willy, tentando mudar de assunto. Brett percebeu que
ele sorria com verdadeira doura para Bree, que estava com cara de quem passava mal.
      -- Nascar? -- perguntou o pai de Brett, e esta deixou escapar uma risadinha.
      -- No -- disse Bree, exasperada. Ela baixou garfo. -- Remo. Sabe o que , corrida de
barcos?
      Brett semicerrou os olhos. Tinha certeza absoluta de que Bree no entendia nada de
corridas de barcos e Brett queria que ela soubesse para colocar Bree no lugar dela. Quem era
essa Ann Taylor chata e o que ela fez com a irm divertida de Brett?
      -- Papai estudou em New Haven -- continuou Willy, tomando um grande gole de sua
mimosa -- e a equipe dele tambm.
      -- Sherrie, nossa vizinha, estudou em New Haven tambm.
      A me de Brett sorriu, os olhos verdes de gata que Brett herdara brilhando de uma
alegria forada. Sherrie Inman era a melhor amiga da me, presidente da seo local da
Sociedade Protetora dos Animais, onde a me pegara todos os chihuahuas, e secretria
rotativa do Neighborhood Watch.
      -- Ah? -- O Sr. Cooper se empertigou. -- Em que ano?
      A me de Brett franziu a testa.
      -- No sei bem. Ela estudou gesto de restaurantes, imagino.
      -- Acho que no -- disse a Sra. Cooper, reprimindo o riso.
      A Sra. Messerschmidt piscou para a grosseria evidente na observao da Sra. Cooper.
      -- Certamente sim. -- Ela se sentou mais reta na cadeira.
      -- Me -- comeou Bree calmamente, as unhas de esmalte claro estalando com
impacincia no copo de suco de grapefruit pela metade. -- A Sra. Inman foi do Albertus
Magnus College.
      --  isso mesmo -- disse a me de Brett com vigor, sem entender o que Bree tentava
dizer.
      -- O Sr. Cooper foi de New Haven... -- continuou Bree.
      Brett teve de apertar as mos para no revirar os olhos.
      -- O Albertus Magnus fica em New Haven -- disse a me, confusa.
      -- Me... -- Brett se inclinou na direo da me e sussurrou: -- As pessoas dizem que
foram a New Haven quando querem dizer que estudaram em Yale. -- Bree lanou-lhe um
olhar severo.
      -- Mas quem diria, hein? -- disse o pai de Brett, rindo um pouco, tentando neutralizar o
tom passivo-agressivo de Brett.
      -- Conheci uma menina que foi de Yale -- continuou Brett, baixando o garfo na torta
intocada. -- Bom, na verdade era irm de algum que foi da Waverly. Ela estudava teatro...
      -- Yale tem um programa de teatro famoso -- interrompeu a Sra. Cooper.
      -- Jodie Foster estudou l -- intrometeu-se Bree.
      -- Mas ento -- continuou Brett --, a irm da menina largou a faculdade e foi morar
em Nova York para ser modelo. Foi tipo top model em Paris, Milo e Londres. Viajou o
mundo todo. -- Brett pegou o garfo para ver se os Cooper tinham mordido a isca.
      -- Acho que  muito comum os atores largarem a faculdade para aproveitar outras
oportunidades. -- Bree semicerrou os olhos e encarou Brett, perguntando-se onde ela queria
chegar com aquilo.
      -- Qual  o nome dela? -- perguntou Willy, todo inocente.
      -- No me lembro. -- Brett meteu o garfo num pedao de melo macio. -- S lembro
dela porque ela morreu de Aids.
      A Sra. Cooper ps a mo na frente da boca e tossiu.
      -- No acho que tenha sido algo sexual -- garantiu Brett. -- Foi de dividir agulhas. Ela
se viciou feio em herona em New Haven.
      O Sr. Cooper gemeu audivelmente e Brett se afastou do prato, satisfeita o bastante com
sua histria inventada.
      -- Deixei meu remdio l em cima -- anunciou ela e saiu da mesa, ao som de Bree se
desculpando profusamente.
      Brett se jogou na cama queen size tren e folheou um exemplar da W que estava na
mesa de cabeceira, na esperana de que gastasse com aquilo tempo suficiente para o brunch
acabar. S o que ela queria era uma tigela gigante de Cap'n Crunch, o cereal matinal
preterido do pai. Seu estmago roncou ao pensar nisso.
      Brett ficou paralisada ao ouvir passos no corredor e se perguntou se talvez Bree tivesse
vindo se desculpar por ser to megacretina. Mas o som da Sra. Cooper soltando uma
exclamao suave espicaou a curiosidade de Brett e ela abriu um pouco a porta. Espiou os
Cooper, que involuntariamente tinham aberto a porta da lavanderia do segundo andar, lar
temporrio dos chihuahuas. Brett passou uma hora enroscada com eles na noite anterior,
depois que todos foram dormir -- os coitadinhos estavam solitrios, sem a me dela. Todas
as roupinhas Gucci iguais estavam enfiadas em uma das prateleiras acima da secadora.
      -- Eles so criadores de ces? -- perguntou o Sr. Cooper numa voz baixa enquanto a
esposa rapidamente fechava a porta na cara dos ces que latiam.
      Um deles escapou -- seria Tinkerbell? -- e disparou escada abaixo.
      -- Como saberiam alguma coisa sobre criao? -- perguntou a Sra. Cooper, a voz
pingando sarcasmo. -- Quero dizer, convenhamos.
      O Sr. Cooper riu.
      -- Acho que tem razo.
      -- Percebeu que a torta foi comprada em loja? -- Suspirou a Sra. Cooper, descendo
mais o corredor na direo do quarto de hspedes que ocupavam. -- Vi as latas de torta na
lixeira quando procurei a adega. Alis, acho que eles no tm uma.
      -- Uma compaixo com o vinho -- acrescentou o Sr. Cooper.
      -- A irm  uma menina-problema, no acha? -- A Sra. Cooper abriu outra porta. --
C estamos. S preciso me deitar por um minuto antes de descer novamente.
      Brett fechou a porta com as orelhas ardendo. Uma fria cega a tomou e ela cerrou os
punhos, olhando uma srie de fotos em preto e branco. Tiradas em Creta e penduradas sobre
sua cama. Essa gente era horrvel -- da pior espcie de esnobes. Brett se lembrou de como se
sentiu na primeira vez que colocou os ps no campus da Waverly Academy e rapidamente
percebeu que usar roupas novas de grife no era a coisa certa a fazer. Em vez disso, as roupas
ali eram vintage, jeans de grife que perderam parte da cor, botas e bolsas de couro meio
surradas -- era assim que devia se vestir. Era sutil, e Brett rapidamente mandou por FedEx
metade das roupas novas que ela e a me tinham comprado no shopping de Short Hills,
aproveitando a primeira oportunidade que teve de pegar um trem para Nova York e comprar
em lojas de segunda mo em Williamsburgh.
      Como a irm trouxe essa gente horrorosa para a famlia, que dir para dentro de sua
casa? Brett de imediato correu ao closet e abriu a porta espelhada, procurando uma de suas
antigas roupas que ela condenara por no serem adequadas  Waverly. E ela no ia parar nas
roupas. Pegou o celular Nokia, com um plano j se formando.
      Se os Cooper achavam que ela era uma menina-problema, esperem s at conhecerem
os amigos dela.
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BrettMesserschmidt: T vendo futebol?

SebastianValenti: No, s mais tarde. O que t pegando, gata?

BrettMesserschmidt: Acredite ou no, pensando se voc estaria
interessado em vir jantar aqui. Desculpe pelo convite de ltima
hora, mas aqui t muito chato.

SebastianValenti: T falando srio?

BrettMesserschmidt: Vc s vai ver TV, n? Pensei que podia
querer um peru com recheio de verdade.

SebastianValenti: Caraca. Valeu. Levo alguma coisa?

BrettMesserschmidt: S voc. Jantamos s seis. A gente se v!
          ma luz fraca entrava pelas janelas cobertas de neve, criando uma leve nvoa na sala
          de estar. Jenny abriu os olhos, piscando para afastar o sono e olhando o lustre de
          vidro e metal moderno e desconhecido que pendia sobre a cabea. Precisou de um
minuto para se lembrar de que estava na sala de Yvonne Stidder, mas s mais um segundo
para se lembrar de que Casey dormia tranquilamente a centmetros dela.
      Ela puxou mais para perto do corpo o cobertor que Casey lhe dera -- tinha cheiro de
lavanda. A sala estava em silncio, como se a nevasca da noite anterior tivesse abafado o som
normal da cidade a que Jenny estava acostumada.
      Depois ela voltou os olhos para outra bela viso -- Casey, deitado a seu lado com o
brao estendido por baixo do travesseiro de Jenny, quase como se seu brao a envolvesse. A
noite toda lhe voltou num relance -- ela se lembrava de adormecer murmurando com Casey,
a sala viva de segredos cochichados e paqueras disfaradas dos pares de sacos de dormir
enroscados no cho. Em algum lugar entre contar a Casey sobre seu pai e ouvir as histrias da
vida na Union, Jenny cara num sono que no tinha h meses. Quando acordou no meio da
noite querendo um copo de gua, escovou os dentes de novo, sem querer acordar com aquele
bafo horroroso. E ento, olhando a pele perfeita de Casey a centmetros de seu rosto, deu
graas a Deus por ter sido precavida. O brao de Jenny coou e enquanto ela tentava alcan-
lo, Casey abriu os olhos.
      -- Bom dia -- sussurrou ela.
      -- Bom dia. -- Ele sorriu. Seus olhos pareciam Hershey's kisses derretidos.
      Jenny bocejou, cobrindo a boca com a mo.
      -- Algum ainda est cansada -- disse Casey.
      -- Na verdade, eu dormi muito bem. -- Um cacho rebelde escorregou de trs da orelha
de Jenny, caindo em seu rosto. Ela esperava que o cabelo parecesse sexy e no sujo. --
Parece que dormi numa nuvem.
      Os olhos de Casey percorreram lentamente seu rosto. Ela imaginou que acordava em
alguma cabana de esqui nos Alpes, completamente coberta de neve, sem nada a fazer alm de
se manter aquecida. E depois Casey se inclinou para beij-la. Ela sabia que ia acontecer antes
que ele o fizesse. Sentiu os lbios dele tocando os dela num beijo to suave que Jenny pensou
que talvez ainda estivesse sonhando.
      Quando ela finalmente abriu os olhos e se afastou um pouco, seu corao batia forte no
peito. Era perfeito demais.
      -- Isso foi bom.
      -- Bom? Foi mais do que bom. -- Casey esfregou os olhos com a mo livre e baixou a
cabea no travesseiro dobrado. -- Voc tem gosto de morango.
      Jenny riu baixinho, pensando na Crest de menta com morango.
      -- E voc tem gosto de cerveja.
      -- Ahhh, desculpe.
      -- Eu no ligo -- confessou ela.
      O corpo no saco de dormir ao lado no cho se agitou e eles ficaram paralisados, sem
querer quebrar a magia da quietude que os cercava.
      -- Sabe o que eu adoro? -- sussurrou Jenny, virando-se de costas e olhando o teto. Ela
cruzou o brao sob a cabea.
      -- Fala.
      -- Adoro que ontem, quando acordei, eu no sabia que ia terminar numa festa na casa
de Yvonne, nem dormir no sof dela, nem conhecer voc, nem... -- Ela corou e sua voz
falhou.
      -- Que eu te daria um beijo -- disse Casey sem rodeio nenhum, tocando as sardas do
brao branco de Jenny com os dedos. Ela riu.
      -- No  timo estudarmos to perto? Eu podia te fazer uma visita.
      Casey cobriu a boca ao bocejar.
      -- Claro -- disse ele. -- Quem sabe?
      Jenny corou de constrangimento. L vou eu de novo, pensou ela. Ela se lembrou do que
Tinsley disse sobre pegar leve, s se divertir. Era to complicado. Ela realmente devia beijar
Casey e tentar se obrigar a no sentir nada? Bom, podia tentar. Afinal, quando foi que Tinsley
a deixou errar?
      R.




      Tinsley tocou as pontas molhadas do cabelo, irritada por ter ficado no final da fila de
meninas que tomavam banho nos trs banheiros da cobertura e por uma menina imbecil do
segundo ano j ter queimado o nico secador. Yvonne prometera correr at a Duane Reade na
esquina e comprar outro, mas ela no conseguiu ir alm da cozinha antes de se envolver em
vrias conversas sobre os planos do dia, depois de a nevasca ter tomado a cidade  noite.
Ventilaram vrias propostas de "beber o dia todo, comer pizza e beber a noite toda",
incitando Yvonne a anotar os sabores de pizza que queriam. Todo mundo gritava suas
coberturas preferidas at que Yvonne, aturdida, prometeu pedir uma de cada.
      Tinsley parou no corredor, vestindo o suter largo French Connection creme por cima
da camiseta branca. Sua ateno foi atrada por uma foto de Yvonne com quem devia ser o
pai dela (ele tinha o mesmo cabelo louro palha de milho e culos grossos). Era no campo do
estdio dos Yankees e uma Yvonne nova e de aparncia hiperbobalhona apertava a mo de
um jovem Derek Jeter, o famoso -- e notoriamente gato -- shortstop do time de beisebol. O
pai de Tinsley teria ficado impressionado.
      Julian apareceu como que por mgica ao lado dela, com as roupas que estava na
vspera. Tinsley terminara no canto oposto da sala de estar na noite passada, consciente de
Julian jogando cartas com o irmo de Yvonne e seus amigos. Pelo menos ele no se enroscou
no sof com Sleigh. Ele olhou Tinsley e tocou a moldura da foto, endireitando-a.
      -- No  f de beisebol, ?
      -- Por que a surpresa? -- Tinsley enfiou as mos nos bolsos da cala skinny Citzens
preta. -- As mulheres no podem gostar de beisebol? -- Ela empinou o queixo para ele. No
gostava nada de beisebol, mas de certo modo queria provar que ele no a conhecia
inteiramente.
      -- Voc  cheia de surpresas, n? -- Julian cruzou os braos e se recostou no batente da
porta.
      Tinsley passou o dedo do p no piso de madeira escura.
      -- Mas no esprito sinceridade total, na verdade sou mais f do jogador gato de
beisebol.
      Julian riu, um riso bonito e completo que deu arrepios em Tinsley. Era bom faz-lo rir
de novo.
      -- Dormiu bem?
      -- Feito uma pedra -- mentiu ela. -- O cho mais confortvel do Upper East Side. --
Ela sorriu para que ele percebesse que ela no estava reclamando e ele retribuiu o sorriso.
Isso. Tinsley podia sentir as coisas se encaixando. -- E quais so seus planos para hoje?
      Julian deu de ombros.
      -- Est horrvel l fora.
      Ele se virou e olhou pela vidraa que dava para uma rua 80 coberta de neve. Durante a
noite, caiu um metro de neve em Manhattan, a maior nevasca que a cidade tinha em anos, e
uma escavadeira amarela gigante trabalhava na rua. Os carros estacionados pareciam montes
misteriosos de neve.
      -- T brincando? -- perguntou Tinsley brandamente, tocando os dedos na vidraa. Uma
baixinha com quatro labradores pretos nas guias andava com dificuldade pela calada ainda
tomada pela neve, deixando que os ces a arrastassem para o parque. -- Est lindo l fora. --
Ela se virou para Julian. -- E se a gente andasse de tren no parque?
      Julian passou a mo no cabelo meio comprido, pensando na proposta.
      -- No diga no -- acrescentou Tinsley, na esperana de parecer pedir.
      -- T, tudo bem. -- Ele se virou para ela. -- Voc tem umas luvas?
      O corao de Tinsley fez uma dana da vitria no peito.
      -- Claro que sim.
      A TV de plasma na sala estava ligada e quem estava com o controle remoto colocou no
SportsCenter. Uma prvia do jogo Detroit Lions/Green Bay Packers se uniu  cacofonia de
vozes na sala, mas Tinsley s conseguia pensar em Julian. Ela o seguiu at o armrio de
casacos e ele de imediato pegou o sobretudo acinturado Michael Kors de l cinza de Tinsley.
Ele se lembra, pensou ela.
      -- Aonde vo, meninos?
      Sleigh apareceu na porta da cozinha, tombando a cabea loura de trana no batente e
bebendo um copo de suco de laranja, com a mesma blusa hippie que usava na vspera.
Tinsley de imediato deu graas a Deus por ter chegado com a mala.
      No vamos a lugar nenhum, pensou Tinsley, e quase verbalizou o sentimento. Mas ela
sabia que se quisesse reconquistar Julian, no podia comear a implicar com Sleigh. Tinsley
ainda nem acreditava que ela se materializara depois de todos esses anos. Era como um
daqueles filmes de terror onde algum volta dos mortos.
      -- Vamos andar de tren no Central Park -- respondeu Julian, vestindo um casaco
verde-oliva acolchoado.
      -- Demais! Posso ir com vocs?
      A mente de Tinsley falhou enquanto ela amarrava os cadaros das botas Ugg
Adirondack, procurando pela coisa certa a dizer, algo que informasse a Sleigh de que ela no
era bem-vinda sem parecer que estava sendo uma cretina -- o que, claramente, ela era
mesmo.
      -- Claro -- respondeu Julian antes que Tinsley conseguisse dizer alguma coisa. Ele
colocou um par de luvas grossas e pretas. -- Pegue seu casaco.
      No elevador, Sleigh berrou sobre algum passeio de snowboard a Telluride que fizera
com outro amigo "que estuda em casa" -- "Foi como nossas frias de primavera" -- e que os
hippies do Colorado eram legais, e que ela aprendeu esqui Telemark com Ty, um dos
instrutores de esqui mais lindos do mundo.
      Pgina nova, Tinsley lembrou a si mesma. Voc est virando uma nova pgina. Agora
 uma pessoa muito mais legal; e a idiota da Sleigh Monroe-Hill no vai estragar nada para
voc.
      -- Que divertido! -- comentou Tinsley, por nada, para manter bom humor.
      E assim os trs se arrastaram pelos bancos de neve, batendo os ps em uma ou outra
calada que fora limpa, o ar frio do final da manh em seus pulmes, seguindo para o parque.
Tinsley passou o cachecol no pescoo para se proteger do frio, surpresa por Sleigh deixar
aberto o alto do casaco marrom-vmito Urban Outfitters, expondo o pescoo aos elementos.
Maldita hippie, pensou Tinsley. Ela lanou um olhar fatal para a nuca de Sleigh enquanto
esta colocava no brao de Julian a mo com a luva rosa de tric.
      -- Espera um pouco -- disse ela. -- Volto j.
      Sleigh entrou numa mercearia de esquina. A luz eltrica da placa de non do Boar's
Head refletia-se na neve intacta. Tinsley colocou as mos nos bolsos, tremendo.
      -- E a -- arriscou-se ela --, como conheceu Sleigh?
      -- Ela  amiga da irm mais velha de Kevin, meu colega de quarto -- respondeu Julian,
chutando uma nuvem de neve no ar gelado. -- Eu sa com ela algumas vezes. Ela  legal.
      --  -- respondeu Tinsley involuntariamente. Ela fez um crculo de neve com seus
passos para se manter aquecida, suas Ugg deixando pegadas perfeitas. Parou, olhando para
Julian. Flocos de neve comeavam a cair de novo, pousando em seu gorro cor de aveia. A
cidade estava em silncio em volta dela. De repente, Tinsley no deu a mnima para o que
Sleigh fez.
      -- Ns j fomos colegas de quarto.
      --  mesmo? -- Julian arqueou uma sobrancelha, como se detectasse algum sarcasmo,
mas Tinsley olhava a vitrine da mercearia. -- Ela  uma pessoa legal.
      Esta ltima frase deu uma ferroada na pele j congelada de Tinsley. Pessoa legal era um
elogio enorme para Julian. Pessoa legal? Ser que uma atira o iMac novo em folha de
algum, com seu dever de casa, pela janela do quarto andar? No.
      Como se recebesse uma deixa, Sleigh reapareceu, as mos equilibrando trs copos
brancos com tampas de papelo.
      -- Achei que a gente podia tomar um chocolate quente. -- Ela sorriu com doura, o
gorro listrado enfiado pela testa.
      -- Demais -- disse Julian, pegando um copo. O vapor escapava do buraquinho da
tampa de plstico.
      -- O seu tem menta. -- Sleigh passou a Tinsley o copo com o X marcado na tampa. --
Lembrei que era o seu preferido.
      Tinsley fez um esforo para no vomitar. T legal. Sleigh a conheceu por trs meses e
se lembrava de como preferia o chocolate? Tinsley se obrigou a sorrir.
      -- T, valeu -- conseguiu dizer.
      Queria dar um banho de chocolate escaldante em Sleigh, derreter o verniz falso para que
Julian visse que ela era medonha por baixo. Tinsley procurou algum sinal de ironia nos olhos
de Sleigh, um lampejo da velha colega de quarto vingativa que ela conheceu -- ser que ela
colocou Tabasco no copo marcado de Tinsley? Arsnico? Laxante? Tinsley se lembrou de
Sleigh ter despejado seu xampu e o condicionador Frdric Fekkai privada abaixo -- mas s
o que ela viu foi um rosto sardento e angelical.
     Sleigh tomou outro gole do chocolate, lambendo a boca como uma criana provando
sorvete pela primeira vez.
     -- O dia no est perfeito?
     Ela pegou um punhado de neve de uma caixa de correio sepultada e atirou de bom
humor em Tinsley, que riu hesitante. Ser possvel que Sleigh tenha mudado
verdadeiramente? Ela realmente superou seus rancores?
     Tinsley tomou um gole do chocolate. O gosto era timo, mas no to bom quanto a
viso de Julian sorrindo para ela com seu rosto brincalho, malicioso e lindo. Ela pegou um
punhado de neve e atirou nele. Podia ser mais legal do que Sleigh quando quisesse. S
precisaria de algum esforo.
   OwlNet                           Caixa de Mensagem Instantnea


CallieVernon: TC, kd vc?

CallieVernon: Vc me abandonou MESMO na casa da Yvonne?

CallieVernon: Srio, onde vc foi?

CallieVernon: Oi? Kd todo mundo?

JennyHumphrey: Patinando no gelo no parque. Com Casey. Vem
pra c!

CallieVernon: Desculpe. No preciso quebrar o tornozelo antes de
ver EZ. Talvez eu v fazer as unhas.

JennyHumphrey: T! Tchau!
          allie estava sentada sozinha no ensolarado recanto de caf da manh de Yvonne
          Stidder na manh de domingo, ouvindo os rudos do Xbox no outro cmodo e
          bebendo um Sanka descafeinado horrvel que ela achou no fundo de uma gaveta da
cozinha, o caf aguado morno na boca. Seu estmago roncava de fome, mas seus
pensamentos estavam envolvidos demais no encontro com Easy mais tarde no alto do Empire
State. Ela pegou o donut com acar de confeiteiro na caixa que algum tinha trazido da
padaria da esquina e olhou o limpador de neve pela janela.
      Callie olhou o pingente de relgio de ouro antigo na pulseira, um presente de
aniversrio de 16 anos do pai, os minutos passando com uma lentido agonizante. Como
diabos ia aguentar at as oito da noite? O dia todo se estendia diante dela como um deserto --
de certo modo, as ltimas quatro semanas sem Easy no eram nada se comparadas com o
tempo interminvel entre eles agora. Era totalmente injusto que Tinsley e Jenny a
desertassem desse jeito -- o que ela realmente precisava agora era que algum a distrasse
durante a espera... ou de uma ida  um spa. Ela ligou para sales de beleza no bairro, na
esperana de relaxar fazendo as mos e os ps, mas tudo estava fechado pelo feriado. Alm
disso, parecia estar um frio de lascar l fora, lembrando-a de sua estada dolorosa demais nos
bosques do Maine na reabilitao que a me lhe prometera que era um spa. Ela engoliu mais
um pouco de Sanka e colocou a xcara na pia.
      -- Bem que estou precisando disso. -- Ellis, o gracinha com quem ela passou uma hora
conversando na noite anterior, bocejou ao entrar na cozinha, os ps de meias pretas
deslizando pelo piso de granito. Ele massageou o pescoo. -- Tive que dormir como um
pretzel.
      -- Ai. -- Callie estremeceu, solidria. -- Mas acho que o Sanka no  a resposta. Voc
precisa de Starbucks.
      -- Bom diagnstico. -- Ellis riu. -- Quer ir comigo? -- Ele se recostou em uma das
cadeiras da mesa de caf da manh. Seu cabelo louro escuro e curto estava molhado do banho
e ele tinha cheiro de creme de barbear.
      -- Tem Starbucks aberta no Dia de Ao de Graas?
      Callie de repente se sentiu constrangida por ter vestido o suter cinza e velho Juicy
Couture com gola em V por cima de uma camiseta preta e bsica e a cala Banana Republic
stretch preta e comum. Pretendia se produzir mais tarde para Easy, mas precisava de uma
roupa para matar o tempo e agora se sentia desmazelada -- embora Ellis estivesse com o
mesmo suter da noite anterior.
      -- Este no seria o nosso pas se no houvesse.
      Callie mordeu o lbio. Os dois tinham namorados. Ento que mal podia haver em se
sentar numa cafeteria abarrotada e comercial, bebendo um latte dez vezes mais forte do que o
Sanka fedorento que ela esteve tomando?
      Com um gato que no era seu namorado.
      -- Claro -- concordou, meio culpada.
      Felizmente, Tinsley no estava ali para v-la saindo com Ellis. E, de qualquer forma, se
Tinsley no a tivesse abandonado, Callie nem sairia com ele. Tinsley no entenderia e Callie
no queria nenhuma fofoca -- em especial hoje, o melhor dia de sua vida.
      Eles vestiram os casacos e foram para a rua. As caladas, s parcialmente limpas,
estavam surpreendentemente cheias de nova-iorquinos ocupados, levando sacos ou caixas de
compras de ltima hora das padarias. Eles empurraram a porta da Starbucks mais prxima,
que ficava a menos de uma quadra. Todos os lugares estavam ocupados, as mesas cheias de
jovens com laptops ou mulheres lendo revistas. Callie de repente foi tomada de uma sensao
esmagadora de solido. Era to triste que essas pessoas no tivessem aonde ir no Dia de Ao
de Graas em vez do Starbucks. Mas ela tambm estava ali.
      Ellis se curvou para ela com preocupao.
      -- Voc est bem? -- As mquinas de cappuccino zumbiam atrs do balco enquanto
ele lhe passava o latte grande desnatado de baunilha que ela pedira.
      -- Estou. -- Callie levantou o copo de papel fumegante e sentiu o cheiro. Qual era o
problema dela? -- Acho que eu s... Sei l. Acho que estou nervosa. Nem acredito que tenho
que esperar o dia todo para ver Easy. -- Ela tomou um gole do latte, o lquido quente ardendo
em sua garganta.
      -- Imagino. -- Ellis assentiu, solidrio, enquanto esvaziava um pacote de acar em seu
caf. -- Voc s precisa de algo para se distrair enquanto espera. -- Ele abriu o casaco de l
Diesel. -- Vamos.
      Meia hora depois, eles saram do metr. Callie estava grata por Ellis saber exatamente
aonde iam, uma vez que ela ficava completamente perdida sempre que olhava um dos mapas
coloridos do Metr. S pegou o metr algumas vezes na vida e a linha 6, com seus bancos
pegajosos e cho tomado de jornais, era um nojo. Mas quase valeu a viagem quando ela e
Ellis saram da estao subterrnea. Uma estrutura gtica imensa assomava diante deles.
      Ellis a olhou.
      -- J atravessou a ponte do Brooklyn?
      -- D pra ir a p? -- perguntou Callie, surpresa. Os carros disparavam pela enorme
ponte suspensa diante deles, tocando as buzinas e os faris piscando. -- No , tipo assim,
perigoso?
      -- No,  totalmente seguro -- disse Ellis com confiana. -- Um monte de gente
atravessa a p todo dia.
      Ele levou Callie por uma rampa larga que dava na passarela de pedestres, olhando os
carros que passavam rpido embaixo. O vento soprava atravs do cabelo de Callie e ela se
esqueceu de ficar nervosa ao ver a imagem tremeluzente de uma cidade de arranha-cus,
refletida no azul escuro, quase negro, da gua do East River.
      -- Caramba. -- Parou e se recostou na grade. Um jovem casal de moletom da NYU
passou correndo por eles, empurrando um carrinho de beb de bom gosto. -- A gente est to
no alto. -- Ela comeou a se virar para olhar a cidade, mas Ellis a segurou pelos ombros.
      -- No olhe para trs agora.
      -- O qu? -- Callie se aproximou um pouco dele. -- Por que no?
      -- Confie em mim.  melhor esperar. A vista  incrvel mais l para cima.
      Ellis apontou  frente deles, para os arcos imensos de tijolos aparentes. Milhes de
cabos percorriam o alto das torres dos lados da ponte, como uma teia de aranha gigante. Eles
andaram por alguns minutos sem dizer nada. O som alto e ritmado do trnsito abaixo,
combinado com o movimento da gua, teve um efeito tranquilizador em Callie. Quanto mais
ela andava, mais comeava a se sentir agradecida -- pelo cu azul e ensolarado, pelo calor do
latte atravs de suas luvas de cashmere, por...
      -- Agora -- instruiu Ellis, puxando Callie pelo casaco para det-la.
      Ela se virou rapidamente e seu estmago desabou ao ver Lower Manhattan. O vidro liso
dos arranha-cus cintilava ao sol, seus topos pontudos chegando s nuvens. Soprou uma
lufada de vento, jogando o cabelo de Callie no rosto. Mas mesmo atravs dos fios de cabelo,
a vista era incrvel.
      -- Caramba -- repetiu Callie com o corao batendo mais rpido. --  to lindo. --
No conseguia tirar os olhos dos prdios, que quase pareciam em miniatura ali do alto. Callie
abriu a boca para agradecer a Ellis por lev-la ali, mas algo frio bateu em seu pescoo.
      Callie girou e viu alguns pr-adolescentes com casacos North Face acolchoados lhes
jogando bolas de neve.
      -- Eles me atingiram! -- esbravejou ela.
      -- E o que est esperando? -- Ellis j pegava um punhado de neve da beira da
passarela, fazendo uma bola firme. Mirou com perfeio uma bola de neve na barriga de um
dos meninos.
      -- Guerra! -- Gritaram as crianas alegremente e se dispersaram para pegar mais bolas
de neve. E antes que se desse conta, Callie estava cravando as mos no banco de neve sujo,
sem se preocupar com o estrago nas luvas.




      O Pilgrim Hill no Central Park era uma multido de parkas coloridas em um leito
branco e brilhante de neve, crianas pequenas de casacos vermelhos e pink numa correria,
seus pais animados perseguindo-os como formigas procurando acar. Um vendedor esperto
oferecia trens de plstico em formato de disco voador, a 15 dlares cada um, e dezenas de
crianas com tobogs inflveis voavam imprudentemente pela colina, adernando num campo
largo e branco, Sleigh pegou uma nota de cinquenta e se apressou em comprar trs trens
antes que Tinsley pudesse se oferecer para pagar. O vendedor olhou a nota de cinquenta para
ver se era verdadeira enquanto Tinsley amarrava novamente o cadaro das botas.
      -- Eu nunca andei de tren -- anunciou Julian, olhando em volta as crianas
bamboleando feito pinguins com seus trajes de neve de corpo inteiro. -- D pra acreditar
nisso?
      -- Ah, garotos da Costa Oeste. -- Sem acreditar, Sleigh balanou a cabea, o cabelo
louro caindo da trana desordenada enquanto ela ia na frente para o alto da colina. -- Eu
trazia meu irmo mais novo aqui o tempo todo quando ramos crianas.
       -- Que legal. -- Julian ergueu o disco sobre a cabea, como um escudo. -- Aposto que
foi muito divertido ser criado perto disso.
      Tinsley observou esse dilogo, lembrando-se de como era irritante que Sleigh sempre
conseguisse voltar toda conversa para ela. Tinsley sabia que tinha de se intrometer antes que
comeasse a falar da porcaria de sua cor preferida ou coisa assim.
      -- Quando trabalhei no meu documentrio na frica do Sul, tentei explicar s crianas
como era a neve -- isso a fazia parecer a Madre Teresa, e Tinsley gostava --; e elas
arregalaram os olhos no tamanho desses trens.
      Julian riu, satisfazendo a necessidade de ateno de Tinsley.
      -- Que loucura.
      Os trs se desviaram a tempo de evitar o atropelamento por um garotinho que
acidentalmente descia pelo lado errado da colina. Um sujeito com cara de corretor de aes,
com um casaco comprido de l e galochas Hunter na altura dos joelhos, ia atrs dele.
      -- Sei exatamente o que quer dizer -- contra-atacou Sleigh. -- J fui voluntria do
Children's Crisis Center na Flrida...  realmente um lugar horroroso, onde colocam as
crianas que foram tiradas dos pais pela polcia...
      -- Que horror -- disse Julian.
      Ele tirou o adesivo do fundo do tren. Tinsley sacudiu a neve das botas. Voluntria? T
legal. No dia em que ela no estava tomando banho de sol na manso dos pais em West Palm
Beach.
      -- E no ? -- continuou Sleigh, sem se abalar. -- Aquelas criana eram timas. No
sabiam o que estava acontecendo. E meu trabalho era distra-las. Sabe como , tirar a cabea
delas das coisas. Podiam ficar totalmente traumatizadas, mas quando eu comeava a contar
uma histria boa ou coisa assim, devia ver a cara daquelas crianas. Valia totalmente a pena
faz-los sorrir.
      -- Puxa vida. -- Julian subiu o ltimo trecho da colina.
      -- ,  incrvel -- disse Tinsley, metendo-se na conversa -- As famlias so to
diferentes na frica do Sul.  tipo um jeito totalmente diferente de viver, que no temos aqui.
-- Ela se sentia em apuros. -- Lembro que uma vez, na poca do Natal perguntei a uma
menina de uma das aldeias onde estvamos filmando se ela estava pronta para os presentes...
      -- Eles comemoram o Natal na frica do Sul? -- intrometeu-se Sleigh.
      -- Oficialmente, no -- respondeu Tinsley prontamente. -- Mas h todo tipo de gente e
todos sabem do Natal -- Ela sorriu para Julian para reafirmar a credibilidade de sua histria.
-- Mas ento a garotinha disse que no ia ganhar presente nenhum naquele ano e eu reuni a
equipe, e juntamos tudo o que tnhamos... Pentes, chaveiros, livros de palavras-cruzadas,
lpis de cor... Qualquer coisa que achssemos, e embrulhamos em jornal para essa garotinha e
as irms. Nem imagina o olhar delas.
      -- Puxa -- disse Julian. -- Que legal. Aposto que a garotinha nunca mais vai esquecer
aquele Natal. -- Deu para ver o ar condensado flutuando diante dele, quando ento sorriu
para Tinsley, vendo-a talvez por uma nova tica. Pelo menos, assim ela esperava.
      -- Isso foi mais ou menos na poca em que eu construa casas na Repblica
Dominicana! -- Antes que Sleigh pudesse comear outra histria interminvel sobre abertura
de poos, Tinsley jogou o tren no cho e olhou a colina, marcada de sulcos e pegadas de
todos os tamanhos.
      -- O ltimo a chegar  um ovo podre!
      Tinsley caiu de joelhos. Sentia o frio do tren de plstico atravs de seus jeans. O tren
girou no sentido horrio e Tinsley o empurrou com fora, tomando uma boa dianteira de
Sleigh e Julian, que partiram em seus trens atrs dela. Os trs mergulharam pelo declive,
espalhando um grupo de crianas que zanzavam na base, Tinsley em primeiro, Sleigh em
segundo e Julian empacado a alguns metros do p do morro, o tren escapando de seu corpo.
      -- Isso foi irado! -- gritava Sleigh loucamente e Tinsley comeou a questionar a
sanidade da garota. No era difcil acreditar que sua "licena mdica mental" da Waverly a
levasse a problemas mais srios, como a esquizofrenia. -- Sente s meu corao disparando
-- Sleigh pegou a mo de Julian e a colocou em seu peito, como se ele pudesse sentir alguma
coisa com aquele casaco grosso e horroroso.
      -- O meu tambm -- disse Julian, tirando a mo rapidamente e colocando-a no peito.
-- Isso foi timo.
      -- Uma melhor de trs -- disse Sleigh, disparando colina acima.
      Tinsley a seguiu, com Julian a reboque. Uma guerra de bola de neve estourou perto do
alto da colina e uma espiral fria zuniu pela cabea de Tinsley, errando por pouco.
      -- Aquele garoto quase te pegou -- disse Julian, ofegando da subida.
      -- Ainda bem que ele tem 7 anos. -- Tinsley riu. -- Ou eu podia bater nele.
      O resultado da segunda corrida foi exatamente o mesmo da primeira, embora ela no
perdesse a esperana de que Sleigh de algum modo trombasse numa rvore e a deixasse a ss
com Julian. Ficar perto dela de novo era sufocante, e o que foi bom ficava cansativo. Tinsley
precisava de uma escapada rpida para se recompor psicologicamente. Ento ela se lembrou
da Olesia's, a padaria pequena com croissants que derretiam na boca, do outro lado do
parque.
      -- Volto j -- disse Tinsley, largando o tren a seus ps.
      -- Aonde voc vai? -- perguntou Julian. Ele espanava a neve dos jeans.
      -- Vocs podem disputar o segundo lugar.
      Ela andou com neve na altura dos joelhos na direo da Olesia's. Estava com fome de
verdade, mas no foi comprar os pezinhos amanteigados para saciar o ronco de seu
estmago. Quando um no quer, dois no brigam. O ar quente dentro da Olesia's soprou em
seu rosto enquanto olhava o mostrurio bem-abastecido. Ela aumentou seu pedido de
croissants de sempre, pedindo croissants de chocolate. Por que no empurrar algumas calorias
a mais em Sleigh tambm?
      Vinte minutos depois, Tinsley encontrou Sleigh e Julian praticamente onde os deixara,
mas Julian estava de um lado, com os trens empilhados por perto, enquanto Sleigh perseguia
dois gmeos idnticos vestidos com trajes de inverno cor-de-rosa. Os gmeos galopavam pela
neve, gritando, e Sleigh fingia que ia peg-los. Os pais no se preocupavam com uma
adolescente maluca brincando com seus filhos?
      -- O que tem a? -- perguntou Julian, apontando o saco na mo de Tinsley.
      -- Croissants de chocolate. -- Tinsley abriu o saco e Julian olhou seu contedo.
      -- Mas que amor de sua parte -- disse Sleigh, sem flego, com os gmeos em seus
calcanhares. Ela se virou de repente e os gmeos gritaram. -- Esto com fome?
      -- Esses so para ns... -- Tinsley comeou a dizer antes de perceber que tirar doces de
duas crianas pequenas provavelmente a desclassificaria como "pessoa legal". -- Mas podem
ficar com eles. -- Relutante, ela entregou o saco a um dos gmeos, que o pegou, guloso.
      O ardor lento dentro de Tinsley se aproximou perigosamente do ponto de ebulio. Seus
olhos embaaram e ela piscou para se livrar do dio que sentia por Sleigh enquanto os
gmeos atacavam o saco.
      -- Sabem fazer um boneco de neve? -- perguntou Julian aos gmeos, curvando-se ao
nvel deles.
      -- Boneco de neve! -- gritaram os gmeos em unssono.
      Atiraram os croissants no cho e seguiram Julian para um grande monte de neve que
tinha se acumulado sob um grupo de rvores.
     Tinsley mordeu o lbio, olhando os croissants arruinados. Em um movimento rpido,
Sleigh estava ao lado de Tinsley, as duas vendo Julian e os gmeos.
     -- Sei muito bem o que est fazendo -- disse Sleigh num tom de ameaa, num tom de
que Tinsley se lembrava do primeiro ano, sem todos os arco-ris e raios de sol. -- Voc j me
roubou um cara e no vou deixar isso acontecer de novo. Lembra o que eu fiz com as suas
coisas? Trate de se cuidar ou vou fazer duas vezes pior.
     O queixo de Tinsley caiu. Ela nunca duvidou de sua capacidade de acabar com Sleigh
-- tinha chegado bem perto no primeiro ano --, mas aquela mudana sbita na garota a
assustou e ela ficou muda, querendo que Julian pudesse ouvir.
     Sleigh pregou o sorriso na cara de novo.
     -- Julian te falou que estou pensando em voltar para a Waverly? Foi ideia dele. Ento,
de repente, a gente vai se ver no campus. -- Ela andou at Julian e os gmeos, ajudando-os
com o boneco de neve.
     Tinsley observou, incrdula. T legal, mudana de planos. Claramente no havia como
ser mais legal do que Sleigh. A nica alternativa era expor a vaca manipuladora que ela era.
     E isso parecia muitssimo mais divertido.
          s Messerschmidt j sofriam com uma longa e tediosa histria dos Cooper de
          Greenwich quando a campainha tocou "Born in the USA". Brett percebera que a
          me havia mudado o toque para alguns acordes incuos de Beethoven, mas Brett o
alterou de novo. Os Cooper estremeceram visivelmente.
      -- Eu atendo! -- disse Brett se levantando de um salto.
      Sua blusa de bal preta e cortada C&C Califrnia escorregou do ombro esquerdo, a ala
de seda amarela da combinao Paul & Joe brilhando contra a pele clara. A blusa caiu pouco
abaixo do umbigo e alguns centmetros de pele apareceram acima da saia Dolce & Gabbana
de estampa de leopardo -- um presente de aniversrio da me no ano anterior. Os ps
descalos com as unhas pintadas de esmalte pink berrante (Bourjois Pink Flamingo) pisaram
o mrmore do saguo e ela deu graas por se libertar da sala sufocante onde os Cooper e seus
pais se reuniam para o ch da tarde. Ch da tarde! Surreal.
      A pesada porta se abriu o revelou Sebastian parado na soleira de jaqueta de couro preta
aberta na gola, apesar das rajadas de vento que varriam a neve no imenso jardim dos
Messerschmidt. A corrente de ouro em seu pescoo cintilou ao sol e uma nuvem de Drakkai
Noir soprou no rosto de Brett. Mas pela primeira vez Brett no se importou com a colnia
brega dos anos 1980. Na realidade, ela at gostou, pelo menos para seus propsitos imediatos.
      -- Oi -- disse ela, tmida de repente. -- Entra.
      -- Caraca. -- Sebastian balanou a cabea, os olhos partindo dos ps descalos de Brett
e subindo pelo corpo. --  assim que voc se veste em todo feriado?
      Constrangida, Brett puxou a blusa para cima do ombro, revirando os olhos para
Sebastian.
      -- S nos feriados especiais. -- Ele tirou os olhos dela e viu o saguo de teto alto dos
Messerschmidt, balanando a cabea, impressionado.
      -- Cara, toda sua famlia gosta de estampas safri? -- perguntou ele, olhando a sala de
mdia da frente. -- Que demais.
      Brett tinha derramado gua "sem querer" nas capas bege que Bree usara para cobrir as
poltronas de zebra, tirando-as alegremente. Os sete chihuahuas latiam no saguo, pulando
animados nas pernas de Sebastian. Ela soltou os ces algumas horas antes, apelando 
sensibilidade da me. Eles esto to sozinhos e confusos, trancados naquela salinha, ela
tentou persuadi-la, at que a me cedeu.
      -- Acho que  gentico.
      Brett pendurou a jaqueta de Sebastian no armrio do hall, ao lado dos casacos de pele de
camelo dos Cooper. Abriu um largo sorriso enquanto ele a seguia para a sala de estar,
interrompendo o monlogo da Sra. Cooper sobre os Cavalier King Charles spaniels de sua
famlia.
      -- Gente, esse  o Sebastian -- anunciou Brett, gesticulando para Sebastian como uma
apresentadora de game show revelando um prmio. --  um amigo meu da Waverly.
      Brett o apresentou a todos, observando a frieza dos Cooper e o comportamento caloroso
dos pais para com ele. Ela sentiu uma onda sbita de emoo -- os pais eram boas pessoas;
s gostavam de coisas grandes e reluzentes.
      -- E esta  minha irm, Bree. -- Ela apontou para Bree e Willy, que estavam
acampados no sof de dois lugares. Bree aninhou a xcara de ch de camomila, com as pernas
cruzadas delicadamente na altura dos tornozelos. Seu vestido florido subiu cerca de 3
centmetros acima do joelho e ela rapidamente o puxou para baixo. -- Quero dizer, Anna. --
Brett se corrigiu, batendo a palma da mo levemente na testa. Ela murmurou um "desculpe"
para Bree antes de continuar. -- E o namorado dela, Willy.
      -- E a, cara -- disse Sebastian a Willy, trocando um aperto de mos. Ele assentiu para
Bree, sem se deixar abalar pela confuso de Brett com o nome da prpria irm.
      -- Quer um ch? -- perguntou Brett cheia de inocncia, cruzando as mos s costas.
      O Sr. Cooper baixou a xcara no descanso de oncinha que Brett recuperou
proveitosamente do armrio do corredor.
      -- Hum, sim. -- Sebastian olhou os outros. -- Ou, ser que tem um Red Bull, Gatorade
ou coisa assim?
      Brett viu a Sra. Cooper olhar o cabelo preto cuidadosamente esculpido de Sebastian.
Parecia que ele passara mais gel para a ocasio.
      --  qualquer coisa, n? -- perguntou Brett com atrevimento, seguindo o olhar da Sra.
Cooper. Ela tocou o cabelo de Sebastian e ele se encolheu, fugindo da mo dela.
      -- Ei. -- Ele franziu a testa, irritado. Na verdade ele estava meio bonito de jeans pretos
e uma camisa branca bem passada. Mesmo que tivesse aberto dois botes a mais no pescoo.
-- Acabei de fazer.
      -- Eu no estava olhando o cabelo dele. -- A Sra. Cooper ficou vermelha. Pegou a
xcara e girou o ch, fingindo estar envolvida em um fio qualquer em sua cala de linho.
      -- No se preocupe. Todas as mulheres fazem isso -- disse Brett confidencialmente 
Sra. Cooper, como se trocassem segredos sexuais no salo de beleza. Era meio divertido
deix-la constrangida -- e meio fcil tambm.
      Sebastian ajeitou o local onde Brett ameaara tocar seu cabelo e olhou para ela com
malcia.
      -- E no  mesmo?
      -- Receio no saber o que  Red Bull. -- A me de Brett se colocou de p com um
olhar preocupado.
      --  tipo uma bebida energtica com cafena -- disse Sebastian, todo prestativo. --
Mas qualquer refrigerante est bom.
      -- Vou pegar -- ofereceu Brett. Ela saltou para a cozinha e voltou num timo com um
copo de gelo e uma lata de Mountain Dew para Sebastian, que estava empoleirado na beira de
uma cadeira de madeira de espaldar duro. Brett quase desmaiou de prazer quando o ouviu
falar de como foi complicado substituir a alavanca de cmbio de seu Mustang por uma bola
oito de sinuca.
      -- Um tio meu  dono de um salo de bilhar -- disse Sebastian, pegando o copo de
Brett e colocando-o na mesa de canto. -- Ei, valeu. -- Ele bebeu o refrigerante com gosto.
      Brett pegou a mo de Sebastian e o puxou para o sof, colocando-o ao lado dela. Ele
olhou a mo pequena na dele, mas depois que os dois desabaram nas almofadas confortveis
e enormes estampadas de chita que Brett tinha resgatado da sala de mdia, ela rapidamente
soltou a mo.
      -- Voc chegou bem na hora -- disse ela. -- Estvamos prestes a ver o velho lbum de
fotos da famlia.
      -- Brett. -- Os olhos verdes de Bree escureceram. -- No seja ridcula. No queremos
aborrecer ningum.
      Brett enxotou a mo da irm do ba antigo e abriu a tampa. Alm dos destroos de
jogos de tabuleiro amassados, antigos controles remotos de TV e fitas VHS, ela pegou
triunfante um lbum grosso com uma capa rosa e felpuda.
      -- Acho que Willy gostaria de ver como voc era linda quando criana -- disse Brett,
adoando a voz para dar mais efeito.
      -- Pode apostar que sim. -- Willy se sentou mais para frente, afvel como sempre,
pousando os cotovelos de seu suter de l marmorada Nautica nos joelhos das calas cqui.
      Brett abriu o lbum.
      -- Aqui tem uma tima -- suspirou ela, pegando a bem lembrada foto de uma Bree pr-
adolescente e uma Brett no jardim de infncia, vestidas de Madonna para o Halloween, as
perucas louras em penteados malucos, usando idnticos tops de renda pretos por cima de
camisetas vermelhas cortadas e minissaias de brim chamejante. -- Ganhamos um concurso
no shopping... Lembra? Cantamos "Material Girl" e voc atirou a luva de renda branca na
plateia. -- Ela olhou a irm, que lhe respondeu fechando a carranca. -- Eles ficaram loucos
-- sussurrou ela a Willy ao lhe passar a foto.
      -- Eu nem me lembro disso. -- Bree cruzou os braos, sria, sem olhar para os Cooper.
-- J faz muito tempo.
      --  mesmo uma graa. -- Willy apertou o joelho com meia de tric de Bree. -- E eu
nem sabia que voc gostava da Madonna.
      -- Que demais. -- Sebastian cutucou Brett. -- Uma vez eu me vesti de Michael
Jackson. Devia ver meu moonwalk. -- Brett no pde deixar de rir.
      -- Deve se lembrar dessa -- disse Brett alegremente. --  uma daquelas cabines da
Disney. Onde fazem capas falsas de revista com sua foto, lembra? -- Ela olhou os Cooper,
como se eles um dia tivessem feito uma coisa dessas, enquanto sacava outra foto de Bree, de
mo no quadril, na capa da Cosmopolitan. A manchete dizia, Bree Messerschmidt: Uma
Deusa de 16 Anos.
      -- Deixa eu ver -- disse Willy com ansiedade. Ele estendeu a mo e Brett lhe entregou
a foto. -- Vou emoldurar essa -- disse ele a Bree, sorrindo.
      Sebastian deu uma gargalhada, apontando a foto de uma Brett de oito anos, toda de
preto, agitando uma guitarra no alto da cabea, na capa da Rolling Stone.
      -- Mas voc tem mesmo complexo de estrela do rock, n?
      A Sra. Messerschmidt, provavelmente se lembrando de que na pgina seguinte havia
fotos dela e do Sr. Messerschmidt na capa da Fortune, saltou e pegou o lbum das mos de
Brett.
      -- J basta -- disse a me com firmeza. Mas Brett sabia que ela no teria se importado
em mostrar a foto constrangedora se no fosse pelos Cooper. -- O que teramos de ver depois
disso?
      -- Ei, pai, que tipo de intervenes acha que a Madonna fez? -- perguntou Brett com
inocncia, sabendo que era o assunto preferido do pai.
      O rosto de Stuart Messerschmidt se iluminou e ele se recostou na poltrona, cruzando as
mos na barriga.
      -- Eu diria que, no mnimo, ela tem uma srie de injees de Botox... Uma mulher da
idade dela? Sem rugas na testa? -- Ele riu alegremente. --  mais provvel que tenha feito
um lift no rosto e no pescoo, porque ela est bem demais para uma mulher de cinquenta
natural.
      O Sr. Cooper deu um pigarro, indicando seu desejo de mudar de assunto.
      -- Meu pai  um milagreiro. -- Brett estendeu as pernas e pensou ter visto o Sr. Cooper
encarar sua saia. O cretino reprimido deve ter gostado. Um trio de chihuahuas entrou
correndo na sala da frente -- Curly, Larry e Princess, ao que parecia. -- Ele trabalhou em
todo mundo no bairro.
      -- Oh! -- A Sra. Cooper ofegou, erguendo os ps assim que Princess disparou para
eles. Sebastian soltou um assovio curto e os ces correram de imediato para ele, pulando em
seu colo e tentando lamber seu rosto com as linguinhas cor-de-rosa.
      -- Brett, por que no me ajuda a dar uma olhada no peru? -- pediu a me.
      -- Papai no devia ser to modesto. -- Brett ignorou a me e pegou Curly, que reagiu
lambendo seus dedos. A lngua macia e quente fez ccegas e Brett riu. -- O quarteiro todo
foi alisado por suas injees de Botox, ou beliscado, dobrado e lustrado. Devamos ser eleitos
o bairro mais gato de Nova Jersey!
      Sebastian bufou.
      -- Cara, isso  engraado demais.
      Brett olhou a Sra. Cooper, que parecia apopltica.
      -- E como  mesmo o nome, aquilo no... -- Ela no tirava os olhos da Sra. Cooper, em
particular da pele frouxa sob o queixo. -- Como se chama mesmo? -- Ela pegou a pele
frouxa no prprio queixo,
      -- Minha me tambm -- disse Sebastian, afagando Princess sob o queixo. -- Ela
odeia. Ela se mudou para Miami. -- Ele olhou a sala. -- Meus pais so divorciados. Mas
ento, ela disse que ningum em Miami tem. Tambm esqueci como se chama.
      --  queixo duplo -- disse o pai de Brett, olhando a xcara de ch.
      -- Isso mesmo -- disse Sebastian, estendendo o Moutain Dew como se fizesse um
brinde. -- Queixo duplo.
      Brett no tirava os olhos da Sra. Cooper, que evitava seu olhar.  claro que ela estava
morrendo de vontade de perguntar ao pai de Brett se ele podia fazer alguma coisa com seu
queixo duplo, mas estava nervosa demais para abrir a boca.
      -- Podemos mudar de assunto? -- pediu Bree. -- Por favor?
      Uma onda de satisfao tomou Brett ao ver a irm se contorcer junto com os Cooper.
Bem-feito para eles. Ela sentia que os pais se divertiam com a histria toda, mas no
deixavam transparecer.
      -- Onde comprou esses descansos? -- perguntou Sebastian de repente, pegando um dos
porta-copos de oncinha que Brett tinha desenterrado de uma caixa de sapatos escondida na
despensa. -- So demais.
      A Sra. Messerschmidt olhou para Bree, sem saber o que dizer.
      -- Nosso decorador... fez sob encomenda para mim. -- Ela olhou os Cooper como
quem se desculpa. -- Foi uma fase por qual eu passei.
      -- Bom, acho que vou querer o telefone dele. Seria um timo presente de Natal para
minha me. -- Sebastian ainda afagava Princess em seu colo. Ele se virou para o pai de Brett.
-- Senhor, tenho que dizer que aquela TV de plasma na sua sala da frente  uma das obras de
arte mais lindas que j vi.
      O rosto do Sr. Messerschmidt se iluminou imediatamente.
     -- Filho, s vezes eu olho para ela e acho que  mais bonita do que um Monet... E isso
com ela desligada! -- Ele soltou uma gargalhada ofegante e seu rosto ficou vermelho -- era
sua marca registrada --, e ento deu um soquinho nas costas de Sebastian.
     Os Cooper ficaram to mortificados que quase derramaram o ch. Brett colocou o
cotovelo na almofada de chita, roando o joelho no de Sebastian. Ele ergueu a lata de
Moutain Dew e a bateu na lata de Diet Coke de Brett. O discpulo se transformara em mestre.
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BrandonBuchanan: Mas onde vc est? Dunderdorf t na terceira
histria das cabras!

HeathFerro: Fumando um aqui fora. Preciso de algo que mantenha
minha sanidade.

BrandonBuchanan: E eu?

HeathFerro: Vou deixar a ponta aqui pra vc. Fica calminho a.
           insley abriu a porta de correr do terrao para deixar entrar um pouco de ar fresco. O
           apartamento de Yvonne fedia com corpos quentes amontoados em volta da TV de
           plasma, vendo uma maratona de America's Next Top Model e passando maconha
de um a outro. Uma avalanche de neve caiu em seus ps com meias e ela soltou um gritinho.
      -- Ei, fecha a porta a! -- gritou algum da sala. -- A fumaa est escapando toda!
      Tinsley respirou fundo o ar fresco antes de fechar a porta. Sua tarde brincando na neve
com Julian como criancinhas teria dado um roteiro perfeito, se Sleigh Monroe-Hill no
tivesse grudado em Julian o tempo todo. A porta de vidro parecia um espelho no escuro,
refletindo a imagem de Tinsley com o minivestido Lauren Conrad preto e solto, o tecido de
jrsei macio e as mangas sino dando-lhe um visual hippie muito mais sofisticado do que os
trapos de sem-teto de Sleigh. Engole essa, pensou Tinsley, girando em suas meias de l.
      -- Chegou a pizza! -- Yvonne veio derrapando da sala de jantar, onde ela e algumas
amigas bobocas acendiam velas para o que ficavam chamando de "banquete de Ao de
Graas". Tinsley olhou a sala, procurando por Julian. Cerca de metade dos convidados tinha
ido para a casa das famlias pela manh, mas a outra metade -- pessoas que a nevasca
prendera na cidade, ou cujas famlias as abandonaram, como a de Tinsley -- ficou por ali.
      Embora ela tivesse passado a ltima hora enroscada na frente da lareira da aconchegante
biblioteca de Yvonne Stidder, o nico cmodo da cobertura que no exibia nenhum ao inox,
Tinsley no conseguia se livrar da sensao que a acometera na sada da tarde. Sleigh
Monroe-Hill tinha de ser a pessoa mais falsa da terra e lhe dava arrepios que tivesse
manipulado Julian a pensar que ela realmente era boa gente. Tinsley estava morrendo de
vontade de puxar Julian para uma sala vazia e lhe contar aos cochichos todas as coisas
terrveis que Sleigh fizera, at que ameaou Tinsley havia apenas uma hora, mas talvez fosse
exatamente isso que Sleigh quisesse.
      Yvonne conseguiu reunir um monte de Owls na sala de jantar, o ar tomado pelo cheiro
delicioso de pepperoni, linguia e cogumelos. O irmo dela e alguns amigos, querendo ver o
jogo de futebol americano na sala de estar, pegaram trs caixas de pizza, sob protestos de
Yvonne.
      -- Sentem-se por a.
      Yvonne, parecendo vagamente uma bibliotecria com um vestido de gola rul marrom
reforada e um cinto preto e grosso, sentou-se  cabeceira da mesa de carvalho entalhada.
Velas votivas vermelhas bruxuleavam em pequenas tigelas de gua pela mesa, lanando um
brilho romntico no rosto de todos. Tinsley esperou que Sleigh se sentasse -- na outra ponta
da mesa, previsivelmente -- e ficou decepcionada quando Julian se sentou ao lado dela. Ser
que ela o acorrentou? Julian ouvia uma histria que Sleigh contava sobre a me obrig-la a
ler Guerra e paz -- e que ela ficou agradecida pela experincia. Tinsley pegou a cadeira na
frente dele, ao lado de Rifat Jones, como que para mostrar a Julian que esta no era uma
competio.
      -- Sua casa  muito bonita, Yvonne -- disse Tinsley, alisando o vestido nas coxas
pretas. -- Vocs fizeram um timo trabalho.
      Yvonne corou intensamente e se sentou do outro lado de Rifat, cuja me era
embaixadora na Somlia e comparecia ao jantar de Ao de Graas do presidente em
Washington.
      -- Obrigada -- guinchou ela para Tinsley. -- Vamos l, gente, mos  obra, rpido.
      Uma por uma, as caixas de pizza se esvaziaram enquanto os pratos se enchiam de fatias
e pores generosas de salada. Garrafa aps garrafa aparecia da adega dos pais de Yvonne,
at que um pequeno exrcito de taas surgiu no meio da mesa. Tinsley saciou sua fome com
uma fatia e garfadas de salada caesar, bebericando o merlot que algum pusera na sua frente,
o vinho frutado trazendo-lhe o gosto de uvas frescas. Ela estava faminta. Quem sabia quantas
calorias andar de tren podia queimar? Ou talvez tivesse se esgotado de tanto se preocupar
com uma Sleigh hiperfalsa.
      Ela cortou um pedao de pizza de mozarela com uma faca e um garfo do mesmo
faqueiro que os pais possuam. Uma pontada de tristeza lhe atingiu quando percebeu o quanto
queria estar reunida com a prpria famlia  mesa de jantar, em vez de acampada no
apartamento de Yvonne com Sleigh Monroe-Hill.
      Yvonne bateu o garfo na taa, os olhos azuis claros brilhando  luz das velas.
      -- Agora cada um de ns vai dizer um motivo para agradecer. -- Tinsley lamentou um
pouquinho por Yvonne, sabendo que na segunda-feira seguinte a maioria dos Owls agora em
seu apartamento a trataria com a mesma desconsiderao que tinham antes da festa de Ao
de Graas. Ningum ia comear a convid-la para as festas deles. Incluindo ela mesma. -- Eu
comeo -- continuou Yvonne. -- Agradeo por partilhar este fim de semana com todos
vocs.
      -- Aai -- disse Jeremy ao entrar para pegar mais pizza. -- Isso no  lindo? -- Ele
abriu um sorriso lascivo para Tinsley, que ela ignorou educadamente. Ele a esteve
perseguindo o dia todo.
      -- Cala a boca, Jerm. -- Yvonne o olhou com desprezo.
      -- Eu agradeo porque os Lions fizeram um touchdown. -- Jeremy enfiou uma garrafa
de vinho debaixo do brao e saiu com meia pizza de mozarela.
      -- Agradeo por ele no ser o meu irmo -- brincou Rifat, que estava  esquerda de
Yvonne.
      Estimulados pelo vinho e pela comida gratuita, o festival de graas prosseguiu pela
mesa e Tinsley suportou tributos  paz mundial, aos direitos dos animais e ao novo disco do
Five Times Fast antes de algum dizer, "eu agradeo s por um fim de semana longe da
Waverly". Um coro de "apoiado, apoiado!" correu a mesa, todos erguendo as taas. Tinsley
bateu a taa na de Julian, cujos olhos castanhos pontilhados de dourado pegaram os dela por
uma frao de segundo antes de ele tomar um gole de vinho.
      Isso, Tinsley queria gritar alegremente.  por esse olhar que eu nunca vou desistir para
Sleigh Monroe-Hill.
      -- E voc, Sleigh? -- perguntou Yvonne. -- No disse nada ainda. -- Como todos se
conheciam aqui, antes de mais nada? Na Waverly, Sleigh tinha sido o pior tipo de esnobe e
agora era toda amiguinha de Yvonne? Que coisa esquisita.
      -- Eu sei. -- Sleigh olhou o teto, os olhos claros assumindo um jeito sonhador que ou
vinha da maconha do irmo de Yvonne, ou de sua etrea sensao de bem-estar. --  s que
tenho motivos demais para agradecer. -- Ela parou teatralmente e um silncio caiu na sala de
jantar. Tinsley teve vontade de vomitar em cada uma das sardas redondas e castanhas de
Sleigh. Uma das velas votivas apagou e a mo de algum se estendeu no escuro para acend-
la em silncio. -- Agradeo pela WILDFARM, a organizao que me mandou  Repblica
Dominicana para trabalhar nas casas -- disse ela por fim. -- Isso mudou toda minha
perspectiva de vida.
      Tinsley baixou a cabea e revirou os olhos. Meu Deus, os pobres sem-teto dominicanos
de novo, no. Ser que ela no tinha outro truque?
      -- Agradeo pelas pessoas que se importam com os outros -- disse Julian de repente,
olhando para Sleigh.
      Tinsley tomou um gole de vinho para se recuperar. O que ele pretendia dizer com isso?
Seria dirigido a Sleigh? Ele no estava seriamente interessado nela, estava? Primeiro Julian a
largou para ficar com Jenny Humphrey, agora a estava largando para ficar com a encarnao
do mal Sleigh Monroe-Hill? Sleigh no era mais legal do que ela -- Sleigh no era mais legal
do que ningum. A ideia a deixou nauseada e, antes que ela pudesse se controlar, as palavras
saram aos tropeos de sua boca.
      -- Agradeo por uma colega de quarto que no atira minhas coisas pela janela -- disse
ela com doura, o vinho zumbindo em sua cabea.
      Mesmo na luz baixa, Tinsley viu Sleigh ficar vermelha. De imediato sua cara iluminada
e feliz rachou.
      -- Voc mereceu isso, merda! -- gritou Sleigh, pulsando uma veia azul na plpebra.
      Ela se afastou da mesa, deixando cair no cho o garfo coberto de molho de tomate.
Tinsley a viu sair, mordendo o lbio para reprimir o sorriso presunoso que se formava em
seu rosto.
      Risos irromperam pela mesa.
      -- Eu me lembro totalmente de ver seus sapatos espalhados pelo gramado! -- disse
Rifat Jones, balanando a cabea. -- Nem tinha percebido que era a mesma Sleigh.
      Tinsley se limitou a sorrir e deixar que os outros falassem, grata porque enfim o segredo
da psicopata foi revelado.
      Julian se virou para Tinsley.
      -- Acho que era demais ter esperanas.
      -- Do qu? De uma colega de quarto legal? -- perguntou Tinsley, surpresa. Ela podia
sentir que os outros a encaravam.
      -- Sleigh me contou tudo sobre o que aconteceu naquele primeiro ano -- disse Julian.
-- Ela disse que voc a provocava sem parar, at que ela simplesmente explodiu. -- Seus
olhos varreram o rosto de Tinsley e ela de repente sentiu-se nua -- e no uma nudez sensual,
mas algo tpico de um pesadelo, nua-no-meio-de-uma-aula. -- Ela se arrependeu do que fez.
Disse que agora  uma pessoa melhor e eu acredito nela. Ela mudou, mas voc claramente  a
mesma. -- Ele se levantou da mesa, com o cuidado de colocar o guardanapo amassado no
prato, e desapareceu na sala de estar.
      -- E por falar em colegas de quarto -- manifestou-se Jenny fazendo com que todos,
petrificados pelo drama, se virassem para ela. -- Agradeo totalmente por no ter de jantar
com meu pai e todos os Hare Krishnas amontoados na minha casa agora!
      Todos riram e Jenny explicou que as trs tinham entrado num apartamento cheio de
carecas e mantos laranja -- e um peru vivo. Outros comearam a contar histrias de feriados
de pesadelo, e o bater de garfos na porcelana ressoou mais uma vez na sala de jantar.
      Tinsley ficou sentada em silncio, tinha ficado mexida. Por que ela teve de dizer aquilo?
Sleigh merecia totalmente... Mas ainda assim... A ideia de Julian correndo para confortar
Sleigh a deixou enjoada e ela imaginou Julian tirando o cabelo louro e despenteado do rosto
de Sleigh e limpando suas lgrimas aos beijos.
     -- Voc est bem? -- cochichou Jenny, cutucando Tinsley na cintura.
     Tinsley sorriu com tristeza e olhou a expresso preocupada de Jenny.
     -- Agradeo por a gente no se odiar mais -- cochichou ela.
     Jenny sorriu de volta.
     -- Eu tambm.
     Se Tinsley ao menos tivesse a mesma sorte de esquecer Julian...
         randon tomou outro gole de kirsch, o gosto de cereja doce ardendo no fundo da
         garganta. O lcool -- estiveram bebendo a tarde toda, do primeiro prato, uma
         celebrada salsicha alem, ao ltimo, o peru recm-abatido -- fez sua cabea zumbir
e ele fechou os olhos, descansando momentaneamente. E isso, com o assassinato de uma ave
indefesa, as repetidas rodadas de Dutch Blitz e uma longa sauna com o colega de quarto e o
velho professor alemo, bastava para afirmar que o Dia de Ao de Graas deste ano foi
surreal. Talvez no o pior da vida de Brandon -- ele se lembrava de ficar preso no aeroporto
de Newark por 18 horas, a caminho da casa da famlia nas Bermudas, a madrasta grvida e
rabugenta enfiando Cupcakes Hostess na boca como uma refugiada --, mas chegou perto.
Depois de um dia inteiro preso na casa do Sr. Dunderdorf, Brandon sentia-se claustrofbico e
tenso, pronto para disparar porta afora e correr de volta ao campus a p assim que aparecesse
a oportunidade.
      Mas Heath se recusava a deixar.
      -- Cara -- ficava cochichando --, no seja to gay.
      Brandon no podia evitar -- ele tinha sido chamado de gay tantas vezes nos dois dias
anteriores que precisava provar que no era. E assim Brandon se deixou convencer de que as
gmeas valiam o esforo, se isto significava no ter de voltar a seu quarto de alojamento e
ficar sentado sozinho no escuro, pensando em Sage.
      -- Cara -- disse Heath, talvez pela milionsima vez naquele dia. -- Esse troo  tipo
lcool 90. -- Heath soltou o que s podia ser descrito como uma risada enquanto tombava o
copo para trs. Lambeu os lbios, com os olhos meio vidrados.
      -- L vamos ns. -- O Sr. Dunderdorf voltou num rompante  sala da frente com um
lbum de fotos da famlia metido debaixo de cada brao. Brandon queria poder pedir licena,
como fez a Sra. Dunderdorf horas antes -- ela disse que precisava cuidar de umas coisas na
cozinha, mas quando Brandon foi ao banheiro, viu-a sentada na banqueta da cozinha vendo
uma novela na TV minscula. -- Nada como comear bem do comeo. Esta  a casa onde fui
criado. -- O Sr. Dunderdorf apontou uma foto em preto e branco desbotada de uma pequena
cabana alpina, quatro homens de lederhosen e duas cabras que pareciam furiosas paradas
rigidamente na frente. Brandon teve vontade de se matar.
      -- Tem mais desse suquinho de cereja? -- perguntou Heath inocentemente, levantando
o copo que esvaziara pela quinta vez. --  to delicioso.
      Os olhos do Sr. Dunderdorf faiscaram.
      -- Voc tem gosto para kirsch, hein? Excelente. -- Ele se esforou para se levantar do
sof e Brandon agradeceu pela chance de tirar a lederhosen do velho de sua vista. -- Vamos
ver. -- Ele desapareceu na cozinha.
      Heath esticou as pernas e fechou os olhos.
      -- A que horas ele disse que as gmeas iam chegar? -- Brandon vasculhou a memria,
mas seu crebro era uma nvoa s.
      -- Tarde.
      Seu estmago roncava. Ele sabia que isso o fazia parecer um fresco, mas ele no
conseguira comer o peru fatiado que a Sra. Dunderdorf colocou em seu prato sem pensar no
pobre animal correndo pelo quintal. Talvez ele devesse trabalhar na PETA e pegar umas
hippies que militavam pelos animais. Depois ele se lembrou de seu breve e malfadado caso
com "Eu no fico com ningum exclusivamente" Elizabeth do St. Lucius e percebeu que j
tentara essa.
      -- Meu Deus, queria que elas j estivessem aqui -- murmurou Heath. Ele lambeu os
lbios de novo. -- J estou de porre.
      -- , eu tambm -- concordou Brandon. Ele evitou olhar o relgio de cuco que soava a
hora -- Brandon nem mesmo acompanhava as batidas e no suportava olhar o celular. -- Ei,
quais so os nomes delas, voc se lembra?
      Heath se sentou ereto.
      -- Merda, no sei. Todo mundo s as chama de gmeas Dunderdorf. -- Ele colocou os
dedos nas tmporas, tentando invocar os anos de fofoca, procurando por uma meno do
nome das gmeas. -- Porcaria.
      O Sr. Dunderdorf reapareceu com uma garrafa nova de kirsch e Brandon tomou os
ltimos goles do copo antes de estend-lo para ser servido. O Sr. Dunderdorf serviu nos dois
copos, mas s pela metade.
      -- Precisamos ir mais devagar, cavalheiros, no? Sei que no esto acostumados a
beber. -- Ele passou por Brandon e reassumiu seu lugar entre os dois, abrindo o lbum no
colo largo.
      -- Esta  uma foto minha no gramado da Waverly quando cheguei, em meu primeiro
ano de magistrio. -- O Sr. Dunderdorf virou a pgina com as mos enrugadas. Toda a casa
tinha cheiro de salsicha alem.
      -- Quem ? -- perguntou Brandon, apontando o jovem ao lado de Dunderdorf.
      --  o seu reitor Marymount -- respondeu o Sr. Dunderdorf. -- Ele era um dos meus
alunos de alemo mais promissores.
      -- No brinca. -- Heath se curvou para frente. -- Ele tinha cabelo.
      -- Ah, sim -- assentiu o Sr. Dunderdorf. -- Era um tremendo mulherengo. -- O
professor tomou um longo gole de kirsch.
      --  mesmo? -- perguntou Brandon, sentindo que Dunderdorf estava prestes a contar
uma fofoca. Talvez eles pelo menos pudessem ter algumas histrias picantes em seu longo
dia jogado fora.
      Dunderdorf bufou.
      -- Era famoso por ter uns namoricos com docentes nos tempos dele. -- Ele esfregou o
queixo, coberto de uma barba branca por fazer. -- Mas no sei muita coisa disso.
      -- Tipo com quem? -- Heath quis saber. Brandon sabia que o principal objetivo de
Heath era transar com uma professora nova e gata antes de se formar -- mas o mximo que
conseguira at agora tinha sido um afago na cabea da Srta. Seraphim, a professora de
qumica.
      O Sr. Dunderdorf balanou a cabea.
      -- No cabe a mim dizer -- respondeu ele, para decepo dos dois. -- De qualquer
forma, duvido que vocs as conhecessem. -- Ele virou a pgina como forma de dar um fim
quela conversa. -- Ah, nossa viagem  EuroDisney. -- Ele suspirou.
      Heath se inclinou.
      -- So suas filhas? -- Brandon se curvou tambm. A foto era do Sr. e da Sra.
Dunderdorf e duas meninas louras de seis anos, fantasiadas de Minnie Mouse.
      -- So -- disse o Sr. Dunderdorf. Ele suspirou. -- Todos esses anos. Parece que foi s
ontem que elas eram to pequenas. Vocs vero quando as conhecerem.
      -- Mal posso esperar -- disse Heath com ansiedade.
      -- Qual  o nome delas mesmo? -- perguntou Brandon.
      O Sr. Dunderdorf apontou as Minnies.
      -- Esta  Helga, e esta  Gretchen.
      Heath fez uma careta por trs das costas do Sr. Dunderdorf, como quem diz,  melhor
que no sejam feias como os nomes.
      -- Vocs vero quando tambm se tornarem pais -- disse-lhe o Sr. Dunderdorf,
tristonho. Por um segundo seus olhos lacrimejaram e Brandon torceu para que ele no
chorasse. Em vez disso, ele espirrou e assoou o nariz no leno desbotado enfiado no bolso da
camisa. -- O tempo passa rpido demais.
      O Sr. Dunderdorf folheou algumas pginas do lbum, passando rapidamente pelos anos.
      -- Aqui tem uma foto mais recente -- disse ele. -- Minhas lindas meninas.
      Heath engasgou com o kirsch, tossindo na mo. Brandon se curvou para ver a foto de
duas louras desajeitadas da lederhosen, as duas exibindo faiscantes aparelhos extrabucais nos
dentes. Uma das gmeas tinha uma espcie de permanente ultrabizarra, o cabelo louro em
espirais mnimas, enquanto a outra tinha uma bandana turquesa de bolinhas e botas de couro
que pareciam ter sado de Miami Vice.
      Brandon fuzilou Heath com os olhos. Gatas? Misses Suas deliciosas? Mais pareciam
patinhos feios de boca de lata com nenhuma noo de moda e o que parecia uma acne
medonha. Todo o dia estpido tinha dado nisso -- num pesadelo. Como ele ia deixar Sage
com cimes ficando com uma garota que parecia ter um centro de reciclagem na boca?
      Heath fingiu no perceber o olhar de Brandon, perguntando ao Sr. Dunderdorf se o
kirsch era a bebida nacional da Alemanha -- porque, se no fosse, certamente deveria ser.
Satisfeito com o interesse dos alunos pela cultura alem, Dunderdorf serviu mais da bebida
em seus copos.
      Os trs lbuns seguintes foram um borro de histrias chatas, fotos horrveis e poses das
gmeas nada atraentes em cada cidade da Europa Oriental. Brandon sentiu as plpebras se
fecharem por mais tempo sempre que ele piscava.
      -- Esto cansados, meninos -- anunciou o Sr. Dunderdorf, fechando o lbum com um
baque.
      -- Sim! -- disse Brandon, desperto de repente. Enfim. Eles podiam voltar para casa aos
trambolhes, desmaiar e apagar de sua lembrana o dia todo -- talvez a comear pela noite
passada, quando Sage o largou. As pernas de Brandon vacilaram e ele se segurou no brao do
sof.
      -- Subam. -- O Sr. Dunderdorf apontou. -- Podem dormir no quarto de hspedes. No
tem sentido voltar ao campus. Isso pode ser ruim para todos ns, no? -- Ele balanou a
garrafa vazia de kirsch com malcia.
      -- Ah, no queremos ser demais aqui -- protestou Brandon, mas mesmo enquanto dizia
isso ele se perguntou se seria capaz de voltar ao alojamento. Sua testa transpirava, e de
repente beber todo aquele kirsch no parecia mais uma tima ideia.
      -- Eu insisto.
      De algum jeito, Heath e Brandon concordaram com relutncia -- a essa altura, estavam
totalmente derrotados. Enquanto seguiam Dunderdorf pela escada acarpetada e mofada que
lembrava Brandon da casa vitoriana dilapidada da av em Danbury, Connecticut, as pernas
de Brandon pareciam pesadas e rgidas. Dunderdorf os levou a um quarto com duas camas
iguais sob o teto inclinado. O resto do espao era apinhado de caixas com os nomes de
HELGA e GRETCHEN. Como um testemunho de como estavam esgotados, Heath e
Brandon afundaram em suas respectivas camas sem investigar o tesouro -- normalmente,
Heath no teria sossego at que descobrisse algumas calcinhas de cetim e as colocasse sob o
travesseiro.
      -- Como pude deixar que me convencesse a fazer isso? -- perguntou Brandon,
embriagado. -- Achei que elas eram parecidas com a Heidi Klum.
      Heath gemeu antes de rolar e chutar as cobertas no cho. Brandon encarou o teto
inclinado, de boca seca, o crebro assombrado pela imagem do lindo rosto de Sage rindo
dele.
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EmilyJenkins: Vc perdeu -- TC acaba de dar um fora em Sleigh MH.

BennyCunningham: J tava na hora. Essa garota  uma vaca. Teve
sangue?

EmilyJenkins: Ainda no. Mas acho que tem algo a ver c/ Julian.

BennyCunningham: No admira que seja de novo um garoto --
at um calouro.

EmilyJenkins: Sei l... TC acabou mal... Talvez SMH enfim possa
revidar.

BennyCunningham: Aposto na Tinsley. Sempre.

EmilyJenkins: E se Sleigh voltar para Waverly?

BennyCunningham: No meu quarto ela no fica!
           allie subiu numa banqueta de couro vermelho  bancada da cozinha de granito e
           meteu o polegar na tigela de vidro quase vazia de brownies no alto do fogo de ao
           inox. Ela lambeu os farelos, querendo que algum tivesse pensado em guardar um
brownie inteiro. (Mas com o irmo de Yvonne e seus amigos, quem podia saber com o que
tinha sido batizado?) Sedenta depois das atividades do dia, ergueu a taa de vinho e tomou
um gole imenso.
      Ellis atirou a parka com capuz numa banqueta e vasculhou a pilha de caixas de pizza
nas bancadas, procurando algum resto.
      -- Cara, a gente chega meia hora atrasado para o jantar e j acabou tudo.
      Callie riu, tirando as meias ensopadas. Ela no estava acostumada a sair com os garotos
s como amigos. Havia algo inteiramente renovador nisso, e h muito tempo ela no ria tanto
num nico dia. Depois de esmagarem os dois meninos de dez anos numa guerra de bolas de
neve, foram para o Brooklyn e andaram pelo Park Slope, vendo as vitrines de todas as lojas
fechadas. Pararam para comer panquecas de cebolinha em um restaurante chins que estava
aberto, mas ainda assim Callie estava faminta ao voltar ao Upper East Side.
      A cozinha de Yvonne, assim como todo o apartamento, estava uma baguna completa
ps-pizza-de-Ao-de-Graas e Callie ouvia o barulho das portas de vidro deslizantes se
abrindo e fechando enquanto as pessoas entravam na hidro.
      S que no havia sinal de Tinsley ou Jenny. A ideia de que saram juntas para fazer
alguma coisa mais divertida parecia impossvel. Mas pela primeira vez Callie no ia
enlouquecer de pensar nisso.
      -- Quer beber alguma coisa?
      Ellis pegou uma garrafa de merlot da adega de ao inox na despensa e a abriu
rapidamente com um saca-rolhas em formato de coelho. Serviu-se de uma taa cheia e girou
o vinho na taa como um especialista.
      -- Sim, por favor. Minha me sempre bebe merlot -- disse Callie ao acaso, pensando
na me e na raiva que ela sentiu quando Callie ligou na noite anterior para dizer que no ia
para casa. Callie colocou uma mecha de cabelo arruivado atrs da orelha ainda fria. Olhou
Ellis servir outra taa. -- Mas ela no bebe com tanta frequncia assim.  governadora e 
muito chata. O que sua me faz?
      Ellis bebericou o vinho.
      --  artista.
      --  mesmo? -- perguntou Callie, colocando os cotovelos na bancada. Isso era muito
mais legal do que o trabalho da me dela. Ellis provavelmente nunca foi obrigado a
comparecer a jantares de Estado usando luvas brancas. -- Mas que tipo de arte?
      -- Ela faz colagens com objetos que encontra... Sabe como , coisas que acha na rua, no
metr etc. -- Ellis passou a mo no cabelo e deu de ombros.
      -- Tipo lixo? -- Callie teve uma breve viso de uma mulher elegante do Upper East
Side pegando um papel higinico sujo na sarjeta e colando numa tela. Eca.
      Ellis riu e Callie teve um vislumbre de uma obturao prateada no fundo de sua boca.
      -- Ela prefere chamar de "lembranas recicladas". s vezes  lixo, mas em geral so
coisas como cartas ou postais, ou, sei l, buttons.
      -- Parece legal -- admitiu Callie, pensando no quanto a me odiaria ter uma colagem
de buttons e embalagens de chiclete na sala de jantar. -- Gostaria de ver um dia desses.
      -- Ah, ? -- Ellis ficou surpreso. -- Ento vou te levar ao ateli dela. Ela tem um
espao timo na Broome Street.
      -- Seria divertido -- disse Callie, falando seriamente.
      Ela observou Ellis lhe servir mais uma taa de vinho, depois baixar a garrafa na
bancada. Uma mancha mnima de molho de pizza tinha cado na gola de sua camisa.
      -- Que foi? -- perguntou ele, percebendo que Callie o olhava. -- Derramei vinho em
mim? -- Ele olhou a camisa.
      -- No. -- Callie saiu da banqueta sentindo o piso frio nos ps descalos. -- Pizza. --
Ela pegou um guardanapo de linho amassado e molhou a ponta, depois foi at Ellis. Sua mo
tremia quase imperceptivelmente enquanto ela passava o guardanapo no molho de pizza, a
cabea girando. Sentiu os olhos dele em seu rosto e parecia que estavam agora mais perto do
que os cinco centmetros de distncia que ela costumavam manter.
      Depois ela percebeu que seu anel tinha sumido.
      Ela soltou um grito e se afastou de Ellis, os olhos procurando no piso escuro por algum
lampejo do anel de ametista.
      -- O que foi? -- perguntou Ellis, com a voz preocupada.
      -- Perdi -- gemeu Callie, inteiramente em pnico. Seus dedos escavaram pelas crostas
de pizza e pedaos de cobertura seca, mas nada de anel.
      -- O qu? -- perguntou Ellis com pacincia. Ele deu a volta at o lado dela na mesa e
se ajoelhou.
      -- Meu anel. -- Ela ps a cabea nas mos, apertando a testa com a ponta dos dedos,
tentando se lembrar de quando o vira pela ltima vez. Ser que o deixou cair em algum
momento do dia? -- Minhas luvas! -- Ela se colocou de p rapidamente, mas uma olhada
nas luvas no revelou o anel de compromisso.
      -- Onde pode ter sido? -- perguntou Ellis, prestativo. -- Voc olhou na bolsa e no
bolso do casaco?
      Callie fez o que Ellis sugeriu, mas nada. Depois se lembrou. A guerra de bolas de neve
na ponte. Ela tirou as luvas para espanar a neve molhada que grudava ali depois de preparar
uma bola extradura. Seu anel deve ter sado com a luva.
      -- A guerra de bolas de neve. -- Callie sentiu o lbio inferior tremer. No ia chorar na
frente de Ellis. Seus ombros envergaram pela derrota. -- Eu sacudi as luvas. Perdi.
      Ellis tocou suas costas, um gesto que era meio abrao, meio carinho.
      -- Tenho certeza de que ele vai entender -- disse ele com ternura. -- Basta explicar o
que houve. Foi um acidente.
      -- Ai, meu Deus! -- exclamou Callie. -- Que horas so?
      Ellis olhou os nmeros verdes e digitais no micro-ondas, que Callie nem tinha percebido
at agora.
      -- Oito horas -- respondeu ele.
      A cabea de Callie clareou, o zumbido do vinho de repente sumiu quando ela pensou
em um Easy desnorteado, provavelmente de farda, sozinho no alto do Empire State.
Esperando por ela. Ela disparou para a porta, colocando casaco e luvas num s movimento.
      -- Estou atrasada.
      Ellis vestiu o prprio casaco.
      -- Vou arrumar um txi para voc.
      Ela martelou repetidas vezes o boto do elevador com o polegar. S pensava no cara no
alto do prdio mais alto de Nova York, perguntando-se onde diabos estava a namorada.
          rett ajudou a me a colocar no lava-louas os ltimos pratos do jantar de Ao de
          Graas, at se oferecendo para ajudar o pai a secar panelas e potes enquanto ele se
          curvava na pia com as mangas da camisa enroladas para cima. Ela se sentia protetora
com relao aos pais desde que os aliengenas Cooper aportaram em sua praia e, finalmente,
talvez pela primeira vez na vida, Brett comeava a verdadeiramente apreciar Becki e Stuart
Messerschmidt.
      E embora ficar sentada com os Cooper sempre fosse torturante, o jantar de Ao de
Graas no foi to ruim. Primeiro, Sebastian teve uma conversa de dez minutos com o pai
sobre a TiVo ser a maior inveno do sculo XXI. E quando a Sra. Cooper ofegou ao ver a
me servir batata-doce com uma camada de marshmallows tostados, como Brett gostava,
Sebastian disse: "A senhora  demais, Sra. Messerschmidt."
      No todo, seu plano tinha funcionado  perfeio. Logo depois de uma discusso iniciada
por Brett sobre que celebridade tinha os piores implantes de seios (os pais de Brett votaram
em Pamela Anderson, enquanto Sebastian escolheu Posh Spice), e pouco antes de a torta de
abbora ser passada pela mesa, o Sr. Cooper anunciou que ele e a esposa voltariam a
Greenwich aps a refeio e no ficariam por mais uma noite. A Sra. Cooper tentou atenuar
as coisas culpando a previso do tempo do dia seguinte, mas Brett no pde deixar de se
sentir triunfante.
      Brett guardou os restos na geladeira abarrotada.
      -- Sanduche de peru para o fim de semana todo. -- O pai sorriu, esfregando a barriga.
      -- Jogo os pezinhos doces no lixo? -- perguntou a me.
      -- Deixa de fora -- disse o pai. -- Algum pode querer comer mais tarde.
      Brett equilibrou o Tupperware de acar no alto do pote de farinha de trigo e os
carregou para a despensa. Peaches, um dos ces da me, disparou entre suas pernas e o pote
de acar vacilou.
      -- O que pensa que est fazendo?
      Brett se virou devagar. A irm bateu a porta da despensa depois de entrar. Tinha o rosto
vermelho e as mos nos quadris.
      -- Ajudando na cozinha enquanto vocs tomam os aperitivos. -- A despensa tinha
cheiro de canela e mas, e as prateleiras eram abarrotadas de tudo, dos vidros de azeitonas
pretas preferidas da me a Tupperwares gigantescos contendo cortadores de biscoitos de
Natal.
      -- Voc entendeu muito bem o que eu quis dizer! -- Bree adquirira um tom arroxeado
que Brett nunca vira na vida. No era um bom visual para ela, mas a roupa Ann Taylor tapa-
tudo tambm no era. -- Desde quando voc usa essas roupas? -- perguntou Bree. Ela
estendeu a mo para tocar a camiseta de Bon Jovi -- outra relquia do oitavo ano -- que Brett
vestira depois de derramar molho na outra blusa.
      -- E desde quando voc usa essas roupas? -- Brett estendeu o dedo para o vestido
estampado de rosas de Bree. -- Parece que voc canta no coro da igreja.
      Bree apertou os lbios at ficarem quase brancos. Da ltima vez em que Brett a vira
com tanta raiva, ela simplesmente tinha descoberto que Melanie Spielgelman comprara o
mesmo vestido para o baile do ltimo ano.
      -- E quem era aquele cara? Aposto que nem mesmo  da Waverly. Voc o escolheu na
estao de trem e o convidou a vir a nossa casa. Confesse.
      -- Quando foi que voc virou uma esnobe de merda? -- O sangue de Brett fervia, mas
ela mantinha a voz baixa. -- Mesmo que eu confessasse, ainda seria melhor do que o que
voc trouxe para nossa casa. Eu preferia ter passado o Dia de Ao de Graas no sopo dos
pobres a ficar um minuto a mais com essa gente. Eles so uns caretas metidos a besta. E voc
tambm, j que no v isso. Por que est se esforando tanto para fingir ser um deles?
      -- Pelo menos no procuro a companhia de traficantes de drogas -- rebateu a irm.
      Brett teve vontade de estender a mo e dar um tabefe na irm. Ela e Bree sempre foram
prximas, o que significava que tinham sua parcela de brigas e gritos. Mas Bree jamais tinha
sido to estranha. Brett queria pegar o pote de farinha de trigo e atirar na roupa perfeita da
irm. Em vez disso, baixou-o com cautela em uma das prateleiras e cruzou os braos com
orgulho.
      -- Eu sabia que ia dar certo.
      -- Sabia que ia dar certo o qu? -- perguntou Bree.
      -- O nico motivo para eu convidar Sebastian foi dar um susto em voc e em seus
futuros sogros-monstro. -- Ela controlou o impulso de mostrar a lngua. -- E sabe de uma
coisa? Eu consegui.
      Brett passou empurrando Bree para escapar da despensa subitamente sufocante e ficou
paralisada ao ver os Cooper e Sebastian com os pais dela na cozinha. Os Cooper fingiram
admirar a bancada de granito enquanto a me de Brett estava de braos cruzados, olhando
para ela com decepo. A carteira de corrente de Sebastian tilintou quando ele colocou as
mos nos bolsos, arriando os ombros.
      -- Estvamos nos preparando para partir -- falou o Sr. Cooper, dirigindo-se aos pais de
Brett como se no tivessem acabado de ouvir Brett dizer que eram uns caretas metidos a
besta. -- Obrigado por um... dia interessante. -- Eles marcharam para fora da cozinha com
Bree, Willy e os pais de Brett em seus calcanhares.
      Sozinha com Sebastian, Brett quis dizer que se desculpava por todo o drama. Mas sua
pulsao ainda estava acelerada da briga com Bree e sua mente era um branco completo. O
que ela queria agora era levar algumas cervejas do pai para a sala da famlia, se jogar no sof
gigantesco e mole e ver o Homem-Aranha. Talvez se enroscar sob uma das mantas de
oncinha da me.
      -- Voc quer... -- comeou a perguntar, mas Sebastian a interrompeu.
      -- Acho que est na hora de eu ir tambm. -- Ele estava com uma expresso estranha.
      -- Ah. -- Brett tombou a cabea de lado, surpreendentemente decepcionada. -- Por
favor, no... -- Mas antes que pudesse terminar, ele j havia sado.
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De: BrettMesserschmidt@waverly.edu

Para: CallieVernon@waverly.edu;
      JennyHumphrey@waverly.edu;
      KaraWhalen@waverly.edu

Data: Quarta-feira, 28 de novembro, 20:15h

Assunto: O fracasso do Dia de Ao de Graas

Receita para um feriado de merda:

Pegue um bando de futuros sogros pretensiosos e desalmados,
misture com uma irm subitamente inspida e pais inteiramente
dceis, acrescente uma pitada de garoto de Jersey para temperar e
-- bum! Veja explodir.
Suspiro. Espero que vocs estejam se divertindo mais do que eu.
Contem histrias para me animar, por favor, porque estou presa em
NJ e os shoppings s abrem s nove da manh. Estou louca para
voltar  escola.

                               Bjs
                               B
                st congelando aqui fora! -- gritou Jenny ao chegar ao terrao, com uma
                toalha de algodo egpcio branca enrolada na regata Calvin Klein preta,
                combinando com o short masculino. Ela se arrastou para a hidro, os dedos
dos ps enfiados nos sapatos de algum para atravessar o deck molhado. Tinsley, Kara,
Yvonne e meia dzia de outros j estavam espremidos na banheira quente, mas Kara e Casey
abriram espao para Jenny.
      -- Entra aqui -- disse Casey com um sorriso diablico na cara. -- Vai se sentir muito
melhor.
      Como Jenny no se apaixonaria por esse cara? Ele era to... tentador. Depois de seu
beijo perfeito de manh, passaram o dia todo juntos -- patinando no Rockefeller Center,
coisa que Jenny no fazia h anos, travando uma guerra de bolas de neve na Madison Avenue
na frente de todas as lojas elegantes, bebendo chocolate quente em uma espelunca qualquer.
      Mas um nico olhar de Tinsley a lembrou de que ela devia estar se divertindo. Ela
pegou um cooler de vinho e meteu um dedo na gua quente. Depois largou a toalha e
rapidamente afundou na gua o bastante para que seus peitos imensos ficassem submersos.
Sua cabea estava leve depois de um jogo alcolico -- caso contrrio, talvez ela no tivesse
coragem de pular na banheira, pelo menos no com Tinsley ali, com aquele corpo perfeito e
bronzeado no conjunto de calcinha e suti Ralph Lauren pink. Jenny fechou os olhos e contou
lentamente at trs antes de tomar um gole do cooler, o elixir frio e frutado fazendo ccegas
em sua lngua. Tinsley tinha dito para ela se divertir e Jenny estava fazendo exatamente isso.
A comear por, ah, seus drinques a mais no final da tarde.
      -- No  uma loucura? -- disse Kara Whalen, o cabelo castanho-claro molhado
grudando nos ombros nus. -- Ficar numa banheira em Manhattan no meio de uma nevasca?
      -- Tem espao para mais um a?
      Julian McCafferty passou pelas portas de vidro e pegou um punhado de neve de uma
planta num vaso. Largou a toalha, revelando o tronco magro e musculoso e uma cueca
samba-cano Gap de estampa havaiana com morangos por toda parte. Jenny e Tinsley
trocaram um olhar -- era evidente que Julian no olhava para Tinsley, depois de t-la
repreendido na sala de jantar.
      -- Pra voc, tem! -- Yvonne Stidder riu e tomou outro gole do cooler de vinho. Seu
cabelo louro estava preso num rabo de cavalo frisado e os culos completamente embaados.
Eles estiveram fazendo jogos com as bebidas desde o jantar e agora todos estavam
agradavelmente embriagados. Yvonne se afastou de Tinsley, deixando um bom espao para
que Julian se sentasse.
      -- O que todos esto fazendo aqui fora?
      Julian entrou na banheira at que s a cabea ficasse visvel. Jenny se recostou, olhando
o cu noturno e deixando a gua borbulhar em volta de suas orelhas. Ela pensou sentir o
joelho de Casey esbarrar nos seus por baixo d'gua.
      -- O que h para se fazer numa banheira?
      Yvonne tropeava nas palavras ao se aproximar mais de Julian. Ela ajeitou a ala da
regata amarela C&C, uma cor que a deixava parecida com um daqueles pintinhos de
marshmallow de Pscoa.
      -- Que tal um joguinho da verdade ou consequncia? -- falou Casey, tomando outro
gole da cerveja. Seus cachos escuros estavam molhados e colados na testa. Quando ele tirou a
camiseta, Jenny quase desmaiou. Ele tinha um corpo de nadador lindo -- ombros musculosos
afilando numa barriga sarada e magra. -- No se faz muito esse jogo na faculdade.
      -- Mas como no? -- perguntou Jenny, afundando para que seus ombros ficassem sob a
gua maravilhosamente quente.
      Sua cabea estava deliciosamente confusa e ela mal conseguia deixar de passar os
braos em volta de Casey e comear a beij-lo na frente de todo mundo. Ele era to gracinha.
      Casey se inclinou para ela e ergueu as sobrancelhas. Ela sentiu a respirao dele na pele.
      -- Fazemos jogos muito mais sofisticados -- disse ele de brincadeira. Ela no teria se
importado de aprender quais eram.
      -- T legal... Tinsley. Verdade ou consequncia? -- Clifford Montgomery, o jogador de
polo aqutico que era completamente apaixonado por Tinsley, se curvou para ela.
      -- Consequncia -- disse Tinsley com tdio ao estender a mo e torcer o cabelo em um
coque na nuca. Ela ficou surpresa ao ver Julian vir para a banheira -- ou pelo menos sem a
idiota da Sleigh Monroe-Hill --, uma vez que ele relutava completamente at em ficar no
mesmo ambiente de Tinsley desde o jantar. Mas onde estava Sleigh, afinal? Talvez tenha ido
para casa, j satisfeita por ter acabado com as chances de Tinsley para sempre.
      -- Desafio voc a beijar Kara. -- Cliff sorriu de orelha a orelha.
      -- Ei! -- protestou Kara. -- O desafio no  meu. -- Ela cruzou os braos. -- S
porque j beijei meninas...
      Revirando os olhos, Tinsley se levantou da banheira e rapidamente se curvou sobre
Kara, beijando-a de leve no rosto, bem ao lado da boca.
      -- Desculpe -- cochichou Tinsley antes de afundar de novo em seu lugar na banheira e
olhar o cu nublado.
      -- No  justo. -- Cliff agitou a garrafa de cerveja vazia no ar. -- No foi de lngua.
      Casey apontou o dedo para ele.
      -- Acho que da prxima vez voc vai saber especificar, cara.
      Ele riu e se reclinou, passando os braos despreocupadamente pelos ombros nus de
Jenny. Parecia o paraso. O ar da noite era frio em sua pele quente e ela sentia cada floco de
neve que caa e derretia em seu corpo. Por baixo da gua, Jenny sentia os ps de Casey
tocando levemente os dela. Tudo era to... perfeito.
      Este era O. Melhor. Dia. De. Ao. De. Graas. Da. Histria.
      -- Verdade ou consequncia, Jenny? -- Tinsley deu um peteleco na superfcie da
banheira, borrifando gua em Jenny.
      Como no queria beijar nenhuma menina, Jenny optou pela verdade.
      Casey se pronunciou antes que Tinsley pudesse dizer alguma coisa.
      -- E a, Jenny, se tivesse de beijar algum na hidro, quem seria? -- perguntou ele com a
voz rouca.
      Jenny riu. Ele era to lindo. Seu crebro ensopado de bebida gaseificada de vinho
conseguiu ordenar  boca para falar o que ela realmente pensava, que foi:
      -- Voc, seu bobo! Sabe que eu te amo!
      Foi uma gargalhada geral, mas antes que Jenny pudesse abrir a boca para dizer mais
alguma coisa, Tinsley praticamente voou para cima dela, colocando a mo sob o brao de
Jenny e levantando-a com um puxo.
      -- Voc vem comigo. -- Tinsley puxou Jenny da banheira e atirou uma toalha em seus
ombros.
      -- Mas no quero ir a lugar nenhum! -- gemeu Jenny, virando-se para a hidro e
acenando como bbada para todos. O grupo gritou para ela.
      Jenny deixou a toalha cair dos ombros e Tinsley teve a sensao de que se no levasse a
menina dali agora, o que ela tiraria -- agora que a palavra comeada por A j fora
pronunciada -- seria a roupa.
      -- Vamos!
      -- Voc est bbada -- sibilou Tinsley. Apertou o brao de Jenny com mais fora,
pegou a toalha no cho e a empurrou pelas portas de correr.
      Ao ver as meninas pouco vestidas e pingando gua, a sala de estar, numa nuvem de
maconha e cheia de universitrios jogando videogames, explodiu em uivos de satisfao.
      -- Fica aqui com a gente! -- disse Jeremy Stidder enquanto Tinsley empurrava Jenny
pelo corredor at o banheiro.
      Depois de entrar, com a porta trancada, Tinsley serviu um copo de gua enorme para
Jenny.
      -- O que estamos fazendo aqui? -- Jenny girou a maaneta, mas no conseguiu
descobriu onde ficava a tranca. Sua cabea oscilava como se fosse pesada demais para o
suporte do pescoo e seus olhos estavam completamente vidrados. -- Quero ficar l fora...
com Casey.
      -- Beba. -- Tinsley entregou o copo a Jenny, que o bebeu obedientemente. Ela mexeu
num interruptor na parede e zumbiu uma lmpada de calor vermelha no alto.
      -- Epa.
      Jenny de repente baixou o copo na bancada. Em sua toalha branca e frouxa e com o
cabelo molhado colado na cabea, ela parecia uma criana. E de certo modo, era mesmo uma.
Mais uma razo para no declarar seu amor a meninos que nem conhecia.
      -- Qual  o problema? -- perguntou Tinsley cautelosa, tremendo um pouco.
      Ela pegou um vislumbre de Julian enquanto obrigava Jenny a sair da banheira. Pelo
olhar dele, ela sabia que a cena era mais uma prova de que Tinsley Carmichael era uma
cretina mandona.
      -- Acho que eu vou... -- Jenny se interrompeu, mas Tinsley reconheceu o tom
esverdeado de sua pele e rapidamente levou Jenny at a privada. Segurou seu cabelo na nuca
enquanto toda a bebida que Jenny tinha consumido -- assim como suas tentativas de
continuar distante e s se divertir -- desceram pelo ralo.
           cheiro de madeira embolorada da sauna enchia o nariz de Brandon enquanto ele
           colocava a toalha junto de um dos bancos. Ele enxugou o suor da testa e se esticou
           num dos bancos de cedro, ajeitando a cueca Ralph Lauren.
      -- Isso  lindo. -- Heath meteu a toalha debaixo da cabea e bocejou. -- Sem
Dunderdorf, eu podia relaxar mesmo por aqui.
      Depois do jantar, eles se remexeram sob o beiral do quarto abafado das gmeas
Dunderdorf, incapazes de dormir num ambiente to estranho. Brandon originalmente tinha
hesitado  sugesto de Heath de que fizessem sauna para "suar nossa frustrao sexual", mas
vinte minutos insones depois, ele cedeu. Heath lhe garantiu que ele tomou a deciso certa,
insistindo que a sauna "abriria os poros de Brandon".
      -- Posso sentir o kirsch saindo de mim. -- Heath fechou os olhos e tomou um gole
enorme da Evian que pegaram na geladeira quando desceram. -- Essa coisa  braba.
      --  do mal -- acrescentou Brandon, recostando a cabea na parede de cedro e
deixando que o vapor o ajudasse a ficar sbrio.
      Ele ainda estava infinitamente irritado com Heath por arrast-lo  casa do Sr.
Dunderdorf sob pretextos falsos -- a fbula das gmeas supostamente lendrias agora lhe
parecia fantstica como as histrias do Monstro de Loch Ness ou o P-Grande -- mas ele
tambm estava feliz, de certa maneira. Feliz por ter algo para fazer alm de ficar infeliz por
Sage. A mgoa do repentino rompimento de Sage comeara a ceder, porque embora o dia
todo na casa de Dunderdorf tenha sido sufocante e chato, agora parecia que tinham se
passado cinco anos.
      O vapor encheu a sauna e Brandon esfregou os olhos cansados. Dois rostos na porta de
vidro o assustaram.
      -- Heath! -- sibilou, ainda meio bbado.
      Um ronco suave emanou de Heath.
      -- Heath. -- Ele bateu em Heath com a toalha, atingindo-o no peito nu.
      Heath abriu um olho.
      -- Hein?
      -- Olha. Bem. Ali. -- Brandon apontou a porta da sauna assim que ela se abriu e Heath
se sentou rapidamente. Assombrados, viram duas meninas numa armadura de trajes de esqui
acolchoados um laranja, outro azul -- colocando a cabea para dentro, o cabelo encerrado em
grossos gorros de l. Os culos iguais de aro preto ficaram embaados de imediato.
      -- So amigos do nosso pai? -- perguntou uma delas, tirando os culos para limpar o
vapor. Uma rajada de ar frio entrou na sauna.
      Brandon e Heath s olhavam, de boca escancarada. Pior do que a ideia das gmeas
sendo fantasmas era a verdadeira viso delas com roupas volumosas.
      Elas so mesmo nerds, pensou Brandon.
      -- Somos da Waverly -- conseguiu dizer Heath, finalmente. Ele estufou um pouco o
peito -- para ele, at as mongas ainda eram meninas. -- Seu pai nos convidou para passar o
Dia de Ao de Graas.
      -- Ento voc deve ter uma opinio -- disse a de azul. -- A Amrica  uma
democracia, ou na verdade  uma repblica?
      O rosto de Heath, que mostrava uma centelha de esperana, logo murchou de novo.
      -- No tem aula no feriado -- grunhiu ele.
      Brandon ainda estava bbado demais para se meter numa discusso sobre poltica e se
perguntou como eles iam sair dessa. No podiam ser grosseiros com as filhas de Dunderdorf,
podiam? Mas s o que Brandon queria neste momento era pegar suas roupas e voltar
rapidinho ao campus.
      A outra gmea comeou a abrir o traje de esqui.
      --  uma democracia -- disse ela, tirando a cala e revelando leggings pretas -- Os
americanos s falam disso. Que vivem numa democracia.
      -- No sou idiota -- disse a irm, atirando despreocupadamente o traje de esqui pela
porta e tirando o suter de tric coberto de neve pela cabea. -- Eu sei disso. Mas no 
verdadeiramente uma democracia. -- Ela tirou as leggings pretas, revelando um par de
pernas longas e magras. Brandon ouviu um gorgolejo vindo de Heath, que olhava,
assombrado.
      Brandon achou que ia desmaiar. Era como uma daquelas bonecas que tem outra boneca
por dentro e quanto mais bonecas voc descobre, menores elas ficam -- s que desta vez as
bonecas s ficavam mais sexy. As gmeas deviam ter uns 10 quilos de roupa para se
protegerem do frio, todas terminando numa pilha  porta da sauna; os corpos magros, agora
de calcinha cinza de seda e sutis iguais com uma rosa pequena no meio, no pareciam nada
com as fotos das meninas de lederhosen. Sem aparelhos nos dentes, sem botas brancas de
bobocas, sem cortes de cabelo horrveis. Elas cresceram e amadureceram -- e muito, muito
bem. Brandon olhou para Heath, cujos olhos estavam fixos nas gmeas que iam para o banco
do canto.
      -- E ento? -- perguntou a mais prxima de Brandon.
      Sem os culos, os olhos azuis, emoldurados por clios escuros, eram claros e incisivos.
Pareciam uma pedra preciosa, pensou Brandon, ou pelo kirsch, ou pelo vapor, ou por outro
motivo qualquer, no conseguia se lembrar qual.
      --  sem dvida uma democracia -- respondeu Heath, deslizando do banco na direo
das meninas.
      As gmeas riram.
      -- Viu o que eu quis dizer? -- disse uma  outra.
      Brandon no conseguia tirar os olhos das duas meninas idnticas e lindas de suti e
calcinha, com gotas de suor comeando a se formar nas clavculas. Ele sentiu que estava
numa espcie de comercial de cerveja, onde o man consegue pegar duas gatas s porque est
com a cerveja certa na mo.
      -- Meu nome  Helga, a propsito -- disse a gmea sentada ao lado de Brandon. Ela
tirou o elstico da ponta de uma trana comprida e comeou a soltar o cabelo. -- E esta 
minha irm Gretchen.
      Gretchen acenou rapidamente.
      -- A propsito,  uma repblica. -- Ela afastou as tranas dos ombros. Enquanto se
virava para sorrir para Heath, Brandon viu uma tatuagem mnima na forma de uma fada nas
omoplatas. -- Caso contrrio, vocs no teriam colgio eleitoral.
      Heath deu de ombros e Brandon sabia que no tinha ideia do que significava colgio
eleitoral.
      --  verdade -- respondeu Brandon, curvando-se para a frente, com os cotovelos nos
joelhos. -- O que tem na Sua? -- De perto, a pele das meninas parecia chocolate branco.
      -- Tem de tudo.
      Brandon percebeu que as duas embolavam ligeiramente os t's nos z's de modo que
pareciam dizer Tzem de tzudo, o que provocou arrepios em Brandon. Elas podiam ser Bond
Girls. Ele viu Helga abrir um compartimento no banco da sauna que nem ele nem Heath
sabiam existir e pegar dois frascos de spray. As meninas apertaram os gatilhos, soltando uma
nvoa fria em torno da cabea e do peito.
      -- Como foi a viagem? -- perguntou Brandon, remexendo-se no banco e tentando no
pensar em como eram essas meninas seminuas. Heath, com um sorriso de xtase grudado no
rosto, parecia embasbacado demais para contribuir.
      -- tima. -- Helga recostou-se no banco. Ou talvez fosse Gretchen. No, Gretchen era
a da tatuagem, n? -- Li Goethe e isso sempre faz o tempo voar. -- Brandon se limitou a
assentir e tentou no encarar a gotinha de suor que escorria pelo peito da garota.
      -- Onde est o seu pai? -- perguntou Heath de repente. A expresso normalmente
relaxada estava tensa, como se ele estivesse morrendo de medo de o Sr. Dunderdorf passar
pela porta a qualquer momento, agitando seu machado sangrento de matar peru e enxotando-
os dali.
      -- Est num coma de kirsch no sof. -- Gretchen --, ou a que ainda estava de tranas,
tocou despreocupadamente o brao de Heath, para acalm-lo. -- S vai acordar amanh.
      -- Um coma de kirsch no sof -- repetiu Helga, e as meninas deram uma gargalhada.
      Havia algo incrivelmente sexy nas gmeas -- alm dos bvios corpos de matar e os
rostos lindos -- que Brandon no conseguia situar. O modo como brincavam, fazendo piadas,
perguntas, gargalhando. Ele tentou imaginar Helga e Gretchen na Waverly. De quem seriam
amigas? Ele no conseguia ver Tinsley ou Callie se dignando a falar com elas, em especial se
seu traje de esqui acolchoado fosse indicao de senso de moda. Talvez Jenny. Mas Jenny
gostava de todo mundo. Ele tentou imaginar as gmeas no parque, rindo e discutindo poltica,
e depois teve um estalo: as gmeas no tinham pudor nenhum. No sabiam que eram
gostosas, porque no passaram a vida toda pensando nisso, ao contrrio da maioria das
meninas da Waverly.
      -- Talvez tenha sido muita diverso de Ao de Graas pra ele. -- Heath se aprumou de
repente, agora que sabia que Dunderdorf estava seguramente desmaiado. -- Cara, vocs
tiveram muita sorte de perder o abate do peru.
      -- Somos vegetarianas. -- Gretchen se borrifou de novo, as gotas de gua cintilando na
pele.
      -- Vocs no deviam comer animais. -- Helga pegou o cabelo louro e magicamente o
torceu em um daqueles coques frouxos que as meninas de cabelos compridos sempre estavam
fazendo. --  pssimo para o ambiente.
      -- Ter filhos tambm -- observou Gretchen, futucando a coxa magra da irm. -- E
parece que as pessoas no param com isso.
      -- Heath j tem trs, ento acho que no est pensando no meio ambiente. -- Brandon
brincou. As gmeas riram.
      -- Nem ligo. -- Heath jogou a cabea, o cabelo suado colado na testa. -- Meus filhos
vo acabar com os seus, Buchanan. -- Ele tomou um gole da gua. --  garantido.
      Mas Brandon no ouviu muito da conversa que se seguiu. Estava imerso em
pensamentos sobre se devia ou no estar numa sauna com as gmeas. As coisas tendiam a
escapar da boca enorme de Heath e Sage terminara com ele h menos de 24 horas. Talvez
agora ela estivesse em casa, arrependida do que disse, pronta para pedir desculpas na segunda
de manh. Um boato sobre uma sauna de madrugada com as Misses Suas destruiria
qualquer chance que ele podia ter com Sage Francis.
      S o que ele sabia era que no conseguia tirar os olhos de Helga... Ou Gretchen.
      -- Pode me emprestar isso? -- perguntou ele, estendendo a mo para o frasco de spray.
      -- Claro -- disse Helga, entregando-o a Brandon.
      Em vez de borrifar em si mesmo, ele impulsivamente borrifou a gua em Helga e
Gretchen, a nvoa caindo em suas barrigas vegetarianas perfeitamente magras. Elas jogaram
a cabea para trs numa gargalhada e pegaram a garrafa da mo dele, borrifando nele
tambm.
      -- E a -- disse Brandon com malcia, passando a mo no cabelo molhado. -- Seu pai
nos convidou para passar a noite. Quando estava sbrio. -- Ele bocejou. -- Acho que eu
podia voltar ao quarto do sto que ele nos cedeu.
      Os belos lbios rosados de Helga se abriram.
      -- No podem dormir ali. Tem cheiro de... naftalina.
      O nariz de Gretchen torceu enquanto ela enxugava uma gota de suor da clavcula.
      -- E gente morta.
      -- Bem. -- Brandon respirou fundo e olhou nos olhos azuis beb de Helga. -- Tem
outro lugar para a gente dormir?
      Heath teve um acesso de tosse ao beber um gole da gua na garrafa. Gretchen lhe deu
uns tapas fortes nas costas.
      Helga se levantou e estendeu a mo para Brandon.
      -- Vou te mostrar meu quarto.
      A eletricidade tomou o corpo de Brandon enquanto ele segurava a mo da menina e
deixava que ela o levasse para fora da sauna.
      -- Shhhh -- sussurrou Helga ao subirem a escada do poro e passarem pela sala de
estar escura. Uma garrafa vazia de kirsch estava na mesa de centro. -- Eles devem estar
dormindo. -- Uma mecha de cabelo molhado grudava sedutoramente em seu ombro.
      Antes que pudesse se reprimir, Brandon deu um passo para a frente e colocou a boca,
gentilmente mas com firmeza, na mecha de cabelo no ombro nu e perfeito de Helga. Ela
saltou de leve e se virou. Por um segundo terrvel, Brandon teve certeza de que ela ia
comear a gritar em alemo e atrair Dunderdorf escada abaixo com um rifle. Mas ela passou
as mos pelos braos e sorriu timidamente para Brandon.
      -- Isso me deu arrepios.
      Com o corao aos saltos, Brandon se aproximou mais e deixou que sua boca roasse de
leve na orelha de Helga. Ele sentiu o corpo da gmea se inclinar para o dele, como se os dois
se atrassem feito ms.
      -- Voc tem um cheiro incrvel. De flores silvestres ou coisa assim. -- E antes que
conseguisse pensar que agia como um no Brandon, suas mos acabaram nos quadris de
Helga e a puxaram para ele.
      -- Todos os garotos da Waverly so assim to avanadinhos? -- murmurou ela
suavemente. Pela janela da sala de estar, a lua brilhava contra o banco de neve.
      -- No -- respondeu Brandon com um sorriso, a cabea de repente clara. -- Voc  que
teve sorte. -- E ele colocou a boca nos lbios macios e receptivos de Helga.
         rett bateu a porta do quarto com fora suficiente para abalar as paredes e derrubar da
         mesa uma tacha que prendia o pster de Johnny Depp em Piratas do Caribe. Ela a
         deixou cravada no tapete, sem se importar se pisaria ali depois, e se jogou na cama
enorme. Estava irritada demais com todo mundo at para apreciar o quanto aquele colcho
era mais macio e mais mole do que a cama gasta que rangia em seu quarto de alojamento.
Sua mente disparava sobre o que acontecera -- como Bree a encurralou daquele jeito, ou foi
to idiota a ponto de fazer de forma que todos ouvissem o que elas diziam? Como Bree teve
essa audcia? Mas que tremenda cretina ela se tornou. Toda a briga foi to feia e
constrangedora -- mas Bree a obrigou a agir assim. Bree era, inteiramente culpada.
      Brett vestiu uma cala do pijama DKNY preto e confortvel e olhou o e-mail para ver se
Callie ou Jenny j haviam se materializado... Mas nada. Onde elas estavam? Provavelmente
tendo um Dia de Ao de Graas to merda quanto o dela. Eu devia ir embora, pensou Brett.
A Waverly nunca pareceu to atraente.
      Ela tocou o rosto e percebeu que estava chorando. Arriou em sua cama, surpresa ao
perceber o quanto estava angustiada. Toda a trama para estragar o feriado de Bree e dos
Cooper pareceu uma boa ideia quando ela a concebeu -- Sebastian foi to perfeito. Mas o
olhar de mgoa dele enquanto saa da cozinha doeu em seu estmago cheio de peru. Brett se
deitou de costas na cama e respirou fundo, tentando se equilibrar. Sim, ela constrangera Bree.
E sim, foi culpa de Bree... Mas talvez dela tambm. Mesmo que os Cooper fossem totalmente
idiotas, ainda eram hspedes na casa de Brett e ela podia ter sido um pouco mais corts. Ou
ter alguma classe.
      Merda. Ela podia ter puxado Bree de lado -- para algum lugar mais reservado -- e
perguntado por que agia como se tivesse sofrido uma lavagem cerebral. Esta teria sido a
atitude madura.
      Ela encontrou Bree sozinha na cozinha, servindo-se de um copo de gua. Elas no
brigavam desde que Bree foi para a Columbia e era estranho saber que a irm estava com
raiva de Brett.
      -- Oi -- disse Brett, andando com os ps descalos pelo piso frio.
      Bree levantou a cabea com uma carranca no rosto bonito -- ela ainda estava com o
vestido caretinha, mas pelo menos tinha se livrado do leno, e as ondas castanhas caam pelo
rosto.
      -- O que voc quer?
      -- Quero... -- A garganta de Brett estava seca. Ela queria um gole da gua que estava
na mo de Bree. Queria um novo fim de semana de Ao de Graas. Queria a irm de volta.
-- Quero te pedir desculpas.
      Bree a olhou com ceticismo, recostando-se na bancada.
      -- Desculpe pelo modo como agi na frente de Willy e dos pais dele -- disse Brett, as
palavras atropelando-se para fora de sua boca. Ela olhou a janela escura atrs da cabea de
Bree, onde podia ver o reflexo da lua na gua. -- Foi... infantilidade minha.
      -- Bom, devia ter percebido isso um pouco mais cedo. -- Bree colocou o copo na pia e
ia saindo da cozinha. -- Agora o estrago j est feito.
      Brett tocou o brao de Bree.
      -- Eu sei, mas ainda assim peo desculpas. At vou me desculpar com os Cooper, se
voc quiser. -- Ela reprimiu o leve pnico com a possibilidade de Bree no aceitar suas
desculpas. -- Mas coloque-se no meu lugar. Vim para c e de repente minha casa est cheia
de estranhos totalmente arrogantes, a casa parece ter sido camuflada, os ces esto trancados
na lavanderia, algum obrigou minha me a usar cala cqui... -- Brett se interrompeu, vendo
a cara da irm.
      Bree apertou os lbios antes de abrir um sorriso.
      -- Tive que lev-la  Talbots para comprar essas.
      -- Ela estava esquisita -- insistiu Brett. -- Parecia que eu tinha que compensar isso
com a saia Dolce & Gabbana que ela me deu de aniversrio.
      -- E ficou muito bem em voc -- suspirou Bree. -- Olha, desculpe se tentei mudar tudo
por aqui... Mas no  porque eu tenha vergonha da mame e do papai. Eu s sabia que os pais
de Willy so complicados. -- Bree bateu as unhas sem cor na bancada e baixou a voz,
embora ningum mais estivesse ali. -- Mas voc no escolhe seus pais, nem de onde vm,
nem como foram criados. E eu amo o Willy de verdade, ento estava disposta a fazer o que
fosse para que tudo desse certo.
      -- Alis, ele  mesmo um gato. -- Brett abriu a geladeira e pegou uma Diet Coke.
Abrindo-a, ela se lembrou de quando chegou  Waverly, percebendo que todo mundo
chamava de "refrigerante" em vez de "gasosa", e ela imediatamente comeou a dizer
"refrigerante" tambm, embora a sua vida toda tivesse chamado de "gasosa". -- O Willy,
quero dizer. No o Sr. Cooper.
      -- Sei o que quis dizer, parceira. -- Bree se curvou e mexeu no cabelo de Brett como
sempre fazia quando queria irrit-la, mas desta vez foi carinhosa. -- Ele no  lindo? Quero
dizer, devia v-lo saindo do banho quando ele est todo molhado...
      -- Detalhes demais! -- gritou Brett. -- Eu no queria ver isso. -- Mas ela bem que
queria.
      Bree deu de ombros, os olhos verdes finalmente felizes de novo -- s falar de Willy a
animava toda.
      -- Mas ento abri uma exceo para os pais de Willy porque eu o amo. O amor  isso...
Aceitar o bom e o ruim. No espero que voc faa o mesmo, mas se voc me ama, talvez v
fazer.
      -- E farei -- assentiu Brett. -- Eu te amo.
      -- Eu tambm te amo. -- Bree baixou o copo de gua na bancada e abraou Brett, que
podia sentir toda a fora do corpo de Bree no dela. Ela a apertou com a maior fora que pde.
      -- O Willy ainda est aqui? -- perguntou Brett, enxugando um dos olhos com a ponta
do dedo.
      Bree assentiu.
      -- Na sala de TV com papai.
      -- Eu lamento de verdade que os pais dele tenham ido embora -- disse Brett, sendo
sincera. Mais ou menos. Ela ainda estava meio satisfeita consigo mesma.
      -- Acho que foi melhor para todos que eles voltassem para Greenwich. -- Bree sorriu.
-- Eles no saam daquela casa tipo h vinte anos. E mesmo assim foi s para ficar no Yale
Club em Nova York.
      Brett riu e seguiu Bree para a sala da famlia, onde os pais relaxavam nas poltronas
reclinveis La-Z-Boy vendo algum torneio de golfe no que parecia um Hava ensolarado pela
enorme tela de plasma que ocupava metade da parede.
      -- Oi, meninas. -- O pai abriu o sorriso bobo que costumava dar quando elas eram
crianas. -- Vejo que j se beijaram e fizeram as pazes.
      -- Por enquanto.
      Bree cutucou as costelas de Brett, bem onde ela sentia mais ccegas. As duas sentaram-
se no sof gigante, onde Willy estava na ponta. Brett cruzou as pernas sob o corpo e pousou a
cabea nas almofadas. As lmpadas lanavam um brilho suave e o pai pegou o controle
remoto. Selecionou o guia na tela e achou Antes s do que mal acompanhado, uma clssico
da famlia Messerschmidt. Ele aumentou o volume enquanto Steve Martin e John Candy se
embriagavam no avio e Brett sentiu o corpo se livrar de toda a tenso com os cinco voltando
sua ateno para o filme, gratos por um momento de paz. O pai comeou a roncar baixinho.
Tudo parecia bem no mundo de novo.
      Princess pulou no sof, tilintando o sininho na coleira de oncinha. Acariciando seu pelo
macio, Brett se lembrou de como foi legal ver Sebastian, que gostava de bancar o duro, com
o cachorrinho enroscado em seu colo. Brett sentiu um frio na barriga -- mas sem querer
admitir que havia alguma coisa errada, culpou a segunda poro de pur de batatas.
           allie olhou pela janela do txi amarelo que seguia lentamente pela Quinta Avenida
           atravs da escurido nevada. Normalmente teria ficado emocionada ao passar em
           cmera lenta pela Tiffany, vendo as pessoas elegantes entrarem e sarem pelas
portas. Mas a loja estava fechada e ela s se importava em chegar a Easy o mais rpido que
fosse humanamente possvel -- algo que seu taxista parecia no entender.
       -- Por favor! -- Callie agitou uma nota de vinte pela janelinha da divisria de plstico
-- Pode ir mais rpido?
       -- A neve, a neve -- ele no parava de dizer.
       A traseira do txi estava fria, mas Callie no queria se arriscar a irritar ainda mais o
motorista -- ela levou dez minutos para chamar um txi e a neve entrava por suas botas.
Callie esfregou as mos enluvadas nas pernas, sem acreditar que conseguiu perder a hora. O
que ela esteve pensando? Fez todos aqueles planos de usar alguma coisa linda e sensual que
tiraria o flego de Easy, mas nem teve tempo de colocar mais desodorante antes de disparar
para fora do apartamento com a mesmssima roupa que tinha usado o dia todo.
       Respire fundo, ela disse a si mesma. Vai checar l. At parece que Easy no estava
acostumado com seus atrasos. Ela olhou as agulhas gticas da catedral de St. Patrick, a mente
vagando ao dia de seu casamento com Easy. Eles se casariam numa igreja assim? Talvez. E o
vestido Vera Wang seria perfeito. Sinos de igreja tocaram e eles avanaram, passando pelas
vitrines escuras da Sacks Quinta Avenida, refletindo uma imagem distorcida do txi amarelo.
       O estmago de Callie roncou -- parecia ter comido as panquecas de cebolinha no
Brooklyn h anos. Seu corao martelava e todo o corpo comeou a transpirar. Ela sem
dvida podia ter usado mais desodorante. Mas enquanto a agulha amarela e azul no alto do
Empire State entrava em foco, ela podia sentir a presena de Easy. Estava atrasada, mas sabia
que Easy estaria esperando. Enquanto paravam, Callie atirou algumas notas ao motorista e
correu.
       Os saltos de suas botas Chlo estalavam no piso de mrmore ao disparar pelo saguo art
dco. Onde diabos devia ir? Ela foi para os elevadores.
       -- Epa, epa -- disse uma voz. Um segurana vestido de azul e cinza saiu das sombras
da fila de elevadores. -- Estamos fechando.
       Callie percebeu pela primeira vez que o saguo estava vazio.
       -- Mas no  hora de fechar. -- Callie pediu. -- Vou encontrar uma pessoa. -- Ela deu
um passo para o elevador aberto, mas o segurana a bloqueou.
       -- Desculpe -- disse ele, sem parecer se lamentar em nada. -- Mas estamos fechando.
 Dia de Ao de Graas e o tempo est piorando.
      -- Mas algum est esperando por mim -- insistiu Callie. -- Ele j est l em cima.
Estou atrasada e ele est esperando, no entende? -- Lgrimas se acumulavam em seus olhos
e ameaavam se derramar.
      -- Sei -- o segurana a tranquilizou, olhando desconfiado para ela. A mo pousou na
fivela preta do cinto. -- Mas no posso deixar que suba. Estamos fechando o prdio. -- O
segurana tocou o bigode bem aparado e olhou o relgio. -- Na realidade, eu devia estar
trancando os elevadores centrais agora. Disse que tem algum l em cima?
      -- Sim! -- disse Callie desesperadamente. -- O homem que eu amo! -- Algumas
lgrimas quentes escorreram por seu rosto -- at agora ela havia conseguido e s o que se
interpunha entre ela e Easy era um segurana meio gorducho com uma espcie de complexo
de Deus. -- Por favor. J estou atrasada, e vou... Vou escalar esse prdio por fora, se for
necessrio. -- O sangue de Callie pulsava nos ouvidos e ela comeava a se sentir nauseada
com a ideia de Easy se perguntando onde diabos ela estava.
      -- Olha, no posso...
      -- O senhor  casado -- continuou ela, pegando o segurana de surpresa, porque vira a
aliana de ouro no dedo dele --, ento sabe como  estar totalmente apaixonado por algum,
no sabe? -- Ela levantou a mo e a agitou na frente dos olhos do segurana para ele ver seu
anel, mas s o que a mo paralisada revelou foi um dedo branco e frio. -- J perdi meu anel
de compromisso... Por favor, no deixe que eu o perca tambm.
      O segurana tirou a corda de veludo verde da frente do elevador aberto.
      -- Tudo bem, mas seja rpida. E os dois desam logo ou ficaro presos a noite toda.
No estou brincando.
      Callie plantou um beijo no rosto do segurana antes que ele percebesse o que ela estava
fazendo.
      -- Obrigada, obrigada.
      O elevador se fechou com um tinido e comeou a subir, passando pelos andares, pelo
vigsimo e trigsimo, disparando como um foguete para o piso de observao no octogsimo
sexto andar. Ela se lembrou de uma viagem a Nova York que fizeram com a Sesso Modelo
da ONU no fundamental em que a me a obrigara a ingressar. Callie participou do Tribunal
de Justia Internacional, a parte mais tediosa do Modelo da ONU, e ameaou largar, at que a
me lhe falou sobre o prmio de uma viagem a Nova York no final do ano letivo. Enquanto o
elevador subia pelos andares superiores, ela se lembrou que uma das colegas de turma
vomitou no elevador. Achava que podia fazer o mesmo enquanto as portas se abriam no
ventoso andar 86, o ar frio de inverno batendo em seu rosto.
      Uma figura escura avanou da beira do deck de observao. Callie reconheceu o casaco
Patagnia verde-oliva de Easy, mas o cabelo -- os cachos desgrenhados e sensuais, escuros,
quase pretos -- tinha sido completamente tosado. Ele estava lindo -- quase ainda mais --
porm diferente. Seu rosto pegou a luz amarela do pinculo e ela sorriu. Com o cabelo curto,
ele parecia um garotinho.
      -- Oi. -- O vento jogou o cachecol Hugo Boss laranja e vermelho no pescoo de Easy,
presente de Natal dela no ano anterior. -- Achei que voc no ia conseguir.
      -- Est esperando h muito tempo? -- perguntou ela, irritada consigo mesma por fazer
uma pergunta to banal. No elevador, ela imaginou pular nos braos de Easy, derrubando os
dois no cho, cobrindo-o de beijos. Mas algo em toda a cena no alto do Empire State
parecia... incorreto.
      -- Eu no tinha mais para onde ir. -- Easy sorriu timidamente e Callie derreteu. Correu
para ele, deixando que ele a abraasse. Enterrou o rosto em seu peito -- embora ainda
estivesse com um n no estmago. Era to surreal v-lo de novo depois de pensar nele por
tanto tempo -- era quase como se ele no fosse a pessoa com quem ela fantasiou, embora, a
no ser pelo cabelo, este ainda fosse o Easy Walsh que ela conhecia e amava.
      No era?
      O olhar de Callie vagou para a vista panormica de Nova York  noite, os rios escuros
gorgolejando em algum lugar ao longe, depois dos pontos de luz. Ela tagarelou alguma coisa
sobre ela, Tinsley e Jenny no acharem um hotel, terminando na casa de Yvonne, mas deixou
de fora a parte louca, o dia passado com Ellis e a viagem mgica ao mundo underground da
arte. Ela percebeu que estava se estendendo, mas no sabia por qu.
      --  bom ouvir voc falar de novo. -- Easy riu, afagando seu cabelo com as mos sem
luvas. Ele nunca as usava.
      -- Esteve pintando? -- perguntou ela em seu peito.
      Ele balanou a cabea e recuou um passo.
      -- Eles no deixam a gente fazer esse tipo de coisa. -- Seus lindos olhos azuis, que
sempre a lembravam das guas tempestuosas do mar, pareciam um pouco mais duros do que
o de costume e ela tremeu ao pensar em Easy acordando ao amanhecer para fazer
abdominais. -- Fiquei sonhando com voc. -- Ele tocou seu queixo e ternamente a puxou
para um beijo.
      Mas Callie recuou.
      -- Que foi? -- perguntou Easy, a confuso cruzando seu rosto. Flocos de neve caram
em sua pele, derretendo-se.
      -- Eu...  que... -- gaguejou Callie, com o corao parecendo prestes a explodir. --
Olha. -- Ela tirou as luvas e estendeu a mo enquanto as lgrimas caam pelo rosto. -- Eu j
perdi seu anel. Sou to idiota. Estava numa guerra de bola de neve e eu...
      -- Esta tudo bem. -- Easy tentou acalm-la. Passou a mo pelas costas de Callie. --
Est tudo bem.  s um anel.
      -- Eu sei -- disse Callie amargamente. -- Mas voc me deu e eu perdi.
      Ela percebeu ento como suas fantasias de noiva eram idiotas. Nem conseguia ficar
comprometida com seu noivado falso por um dia inteiro. A culpa pelo modo como perdeu o
anel -- atirando bolas de neve com Ellis -- fez seus dedos comearem a tremer. Mas por que
ela se sentia culpada? No fez nada de errado. E ela sabia que no estava apaixonada por Ellis
-- ela nem o beijou, nem imaginou beij-lo. Antes de conhecer Ellis na casa de Yvonne, ela
tocou o anel de Easy a cada minuto, maravilhando-se com sua capacidade de trazer  vida o
cheiro e a sensao de Easy. Mas Ellis a distraiu e Callie tinha de confessar que se esquecera
completamente do anel, at perceber que o perdera.
      E agora Easy estava diante dela, em carne e osso. Mas parecia que era... tarde demais.
      Ela olhou a expresso confusa e preocupada de Easy.
      -- Eu sempre vou te amar. -- Suas palavras saram trmulas
      E ela morreu ao olhar nos olhos azuis arrasados de Easy. Mas precisava dizer isso.
Callie ps a mo no peito dele e desejou se sentir de outra forma, mas assim como teve tanta
certeza meses antes de que o amava mais do que qualquer coisa, agora tinha certeza de que
era o fim. -- Mas acho que acabou. -- Ela mordeu a lngua para no dizer que passara as
ltimas dez horas sem pensar nele -- e ainda se divertiu muito.
      -- Callie. -- Easy tossiu no punho. -- Foi alguma coisa que eu fiz? Desculpe por no
ter conseguido telefonar ou...
      Callie olhou para o alto, para a torre iluminada do Empire State no cu escuro da noite.
A neve caa com mais fora, pousando em seus clios e toldando a viso. Ela balanou a
cabea devagar e recuou, para longe de Easy.
      -- Est tudo bem.  melhor assim. S  melhor.
     Ela ergueu a mo e se virou, surpresa com a facilidade com que dava as costas para ele.
Easy continuou parado perto da grade sem dizer nada.
     Ela se perguntou se o abraaria, ou diria a ele que os dois podiam ser amigos, mas nada
do que tinha a dizer parecia significativo. Respirando fundo, Callie voltou ao elevador. E
enquanto as portas se fechavam, ela deixou que as lgrimas escorressem.
          insley dormia e acordava enquanto o cu preto da noite aos poucos assumia um
          cinza leitoso sobre a cidade. Depois que a parte da hidro na festa se desfez, todos se
          reuniram em volta da lareira imensa da sala de estar de Yvonne, contando histrias
de fantasma sob os cobertores at que as pessoas comearam a adormecer. Ela colocou Jenny
em uma das camas de hspedes, mas no conseguiu conciliar o sono. Seus nervos ainda
estavam tensos de pensar no olhar que Julian lhe lanou quando ela, toda mandona, conduziu
uma Jenny bbada para fora da banheira. Depois que os ltimos cochichos se aquietaram, ela
ficou rolando na cama por horas. Por fim pegou um saco de dormir North Face verde-lima,
preparou uma caneca de chocolate quente e estava sentada no terrao, recostada na parede do
prdio de Yvonne e olhando o pr-amanhecer lindo e tomado de neve. Sozinha.
      Sua imensa caneca de cermica de chocolate quente instantneo esfriava nas mos. Ela
soprou na caneca, o vapor subindo e vagando para os terraos escuros do outro lado da Park
Avenue. Tinsley adorava subir no terrao de seu prdio e tinha um compartimento secreto
sob um dos respiradouros para esconder seus cigarros e o ocasional baseado furtado.
      Meu Deus, o fim de semana de Ao de Graas estava um porre. Primeiro seus pais a
abandonaram de repente -- precisava se lembrar de ainda estar irritada com isso da prxima
vez em que falasse com a me --, depois ela se reconciliou momentaneamente com Julian, s
para ter aquela megavaca da Sleigh estragando tudo. Tinsley no ia ter outra oportunidade.
      Por fim, o sol apareceu sobre o East River, lanando a cidade nas sombras. O Empire
State parecia imenso e intimidador. Ela nem acreditava que Callie tinha largado Easy --
quando voltou tarde da noite para a casa de Yvonne, suja do choro e meio trmula, Callie
contou tudo. Foi para melhor, mesmo. Tinsley pensou em suas palavras de conselho a Jenny
-- Relaxe, divirta-se. No comece a planejar seu casamento. Ela foi sincera, de verdade...
Mas sabia o que era conhecer algum que mudava completamente sua vida.
      Era pior para Julian, lembrou-se pela milionsima vez. Como ele pde ser levado to
facilmente por Sleigh? Ele era s um calouro, mas mesmo assim. Como ele pde no ver a
cretina transparente que ela era? Tinsley procurou os cigarros e acendeu um, soprando uma
torrente de fumaa no ar gelado.
      A porta do terrao se abriu e o humor de Tinsley afundou ainda mais -- se tivesse de
ver mais um amigo de Jeremy saindo para ver o nascer do sol e dar mole para as meninas do
ensino mdio, ela ia vomitar. Um p chutou a porta quando esta emperrou, como Tinsley teve
de fazer, e Julian olhou de soslaio, o cabelo louro-escuro despenteado e atraente de quem
acabou de sair da cama. Ele no pareceu surpreso ao v-la, o que deixou Tinsley ainda mais
agitada.
      -- O que  agora? -- perguntou ela com arrogncia. -- Veio me criticar por gritar com
uma menina bbada? -- Ela no pretendia parecer to cretina, mas como ele pensava que ela
era assim mesmo, que diferena ia fazer?
      Julian tinha o olhar de algum que acabara de acordar.
      -- No -- disse ele, a voz quase um sussurro. -- Posso?
      Tinsley deu de ombros, puxando o saco de dormir sobre os ombros, como um casulo
protetor de l.
      -- Fique  vontade.
      Julian endireitou uma cadeira de plstico, passando a mo pelo assento antes de se
sentar cautelosamente. Estava com os jeans e um moletom preto da Columbia que pegou
emprestado, e as mangas eram curtas demais.
      -- Na verdade, foi uma coisa legal o que voc fez pela Jenny -- disse ele, dando um
pigarro para dominar a voz matinal.
      Tinsley o olhou com cautela.
      -- Obrigada. -- Ela bebeu o chocolate quente, que ficou frio em sua mo. Engoliu 
fora para no cuspir de volta na caneca. -- Mas eu nunca serei to gente boa quanto Sleigh,
ao que parece.
      -- , quanto a ela... -- Julian sorriu timidamente, passando a mo no cabelo e
deixando-o ainda mais zoneado.
      -- O que tem ela? -- Tinsley tentou esconder a irritao.
      A ltima coisa que queria era falar de Sleigh, e se arrependia de ter mencionado o nome
da vaca. Se ele ia dizer que Sleigh ia voltar para a Waverly, ou que os dois estavam
namorando, Tinsley teria de jogar alguma coisa do terrao do prdio -- talvez o prprio
corpo.
      -- Quando eu estava falando com ela depois do jantar, acabei dizendo que voc e eu,
sabe como , ficamos antes. -- O rosto de Julian corou um pouco. Ele chutou a neve com os
tnis, estava sem meia. -- E ela meio que deu um ataque comigo.
      --  mesmo?
      Tinsley bebeu novamente o chocolate frio, tentando controlar a alegria na voz. Resistiu
ao impulso de perguntar se Sleigh tinha tentado atirar as coisas dele pela janela -- at ela
sabia que no era boa ideia tripudiar.
      Julian assentiu.
      -- Eu sempre achei que havia alguma coisa estranha nela. S no conseguia apontar
exatamente o que era. -- Ele se curvou e passou o dedo na neve, pegando uma camada fina e
atirando no ar. -- Meu melhor amigo na minha cidade tinha uma namorada que era toda
meiga e cheia de charme, e uma vez estvamos de madrugada pela praia e ele se esqueceu de
ligar para ela. Ela apareceu gritando com um fusquinha azul-claro... Ela nem tinha carteira de
motorista. A merda que saiu da boca da garota apavorou todo mundo. E nenhum de ns
esperava por aquilo.
      -- Humm -- disse Tinsley, balanando-se para se aquecer. De repente tomou
conscincia de que sua perna estava dormente. -- Ento est dizendo que voc julga muito
mal o carter das pessoas?
      -- Nem sempre. -- Julian enfiou as mos nos bolsos dos jeans. -- Senti que Sleigh
tinha isso em algum lugar. Acho que eu tinha razo.
      Tinsley torceu o nariz.
      -- Se desconfiou que ela era uma cretina, por que ficou todo amiguinho dela?
      -- S queria ver como voc agia perto dela -- admitiu ele. -- Desculpe.
      Uma rajada de vento subiu e Julian esfregou as mos e soprou nelas. Tinsley olhou para
ele e depois ao longe, com a mente em disparada. Ele a havia testado? Por qu? Ele s faria
isso se... Bom, se estivesse interessado. De novo.
      -- Pensei que no amos mais fazer joguinhos um com o outro. -- Ela no conseguiu
resistir.
      Julian riu, depois fitou Tinsley, os olhos como lasers.
      -- Acho que eu tambm no sou perfeito.
      -- Ento... -- Tinsley se interrompeu.
      Julian deu de ombros.
      -- Gostaria de tentar de novo. Se voc quiser.
      Tinsley abriu um leve sorriso.
      -- Eu gostaria -- concordou ela. -- Meus pais saram da cidade, ento vou voltar para a
Waverly amanh. Ou hoje ainda, quero dizer. Voc... vai passar o fim de semana todo com
Kevin?
      Julian bocejou, cobrindo a boca com os dedos. O bocejo transformou-se num sorriso.
      -- Agora que perdi o peru, posso muito bem voltar tambm. Quer companhia no trem?
      -- Sempre. -- Tinsley sorriu. Conseguiu recuperar a sensibilidade na perna.
      -- Legal. -- Julian bocejou novamente. -- Preciso dormir mais um pouco. No fique
muito tempo aqui fora... Vai morrer congelada.
      Tinsley assentiu e viu Julian lutar com a porta do terrao de novo e desaparecer dentro
do apartamento. Ela olhou por sobre o horizonte que parecia to frio antes de o sol nascer, e
antes da visita de Julian. Agora, com o sol rosa alaranjado surgindo atrs dos elegantes
prdios cinzentos, parecia um dia novo em folha. Julian no tinha declarado exatamente seu
amor eterno por ela.
      Ainda.
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CallieVernon: Terminei c/ EZ.

BrettMesserschmidt: Como ? Vc chegou a falar com ele? Ele
ainda est no quartel? Vc no est em Atlanta?

CallieVernon: Ele desertou para me ver em NY. Uma longa
histria... Mas percebi que no estava preparada para ficar to srio.

BrettMesserschmidt: Ai, querida. Voc parece triste.

CallieVernon: E estou. Mas  para melhor. Vou pegar o avio para
casa hoje. Minha me quer conversar sobre toda a histria de me
mandar para a reabilitao por acidente.

BrettMesserschmidt:  melhor que ela te compense no shopping.

CallieVernon: . A terapia de varejo  parte fundamental do
processo de cura.
          sol forte e quase ofuscante cintilava pelo terreno coberto de neve da Waverly
          quando Brandon e Heath voltavam ao campus pelos caminhos tomados de neve em
          algum momento depois das sete da manh de sexta-feira. O vento frio de inverno
golpeava suas roupas, mas Brandon no sentia nada. Ele sorriu para Heath e Heath sorriu
para ele.
      -- Cara, foi demais. -- Brandon procurou os culos de aviador Gucci nos bolsos. --
Justo o que o mdico mandou.
      -- O Dr. Heath sempre acerta. -- Heath relinchou e galopou em volta de Brandon antes
de estender a mo para um high five. Brandon bateu nela com fora.
      Brandon no se lembrava da ltima vez em que ficara a noite toda acordado, se  que
um dia ficou. Ouvira falar de festas que rolavam a noite toda, mas nunca foi convidado a
nenhuma, ento para ele a ideia tinha adquirido o status de mito. Mas ficar com Helga -- ele
tinha noventa por cento de certeza de que era Helga, e no Gretchen -- fez valer toda a
espera. Ele nem acreditava na facilidade com que tudo aconteceu. Ser que tinha contrado
alguma coisa de Heath?
      Bastou pensar nisso para seu passo ficar mais leve, e ele reduziu para que Heath o
acompanhasse.
      -- Vai ver Gretchen de novo antes de elas irem embora? -- perguntou Brandon
enquanto pisavam numa poa. O pinculo coberto de neve da capela da Waverly aparecia ao
longe.
      Heath deu de ombros.
      -- Duvido -- respondeu ele, amarrando de novo o cachecol Burberry vinho e bege no
pescoo.
      -- E por que no? -- perguntou Brandon. Helga implorara a ele para voltar antes de ela
ter de ir embora no domingo, e como ele no sabia se o encontro exigia a presena de Heath,
no queria fazer a excurso sozinho e de algum modo ficar preso a Dunderdorf com seu papo
sobre cabras de novo.
      -- No me leve a mal. -- Heath bufava. Eles pegaram o caminho para o Richards,
passando por alguns alunos estrangeiros que faziam anjos de neve no parque branco e liso. --
Ns arrasamos total.
      -- Mas?
      -- Mas a gente s ficou abraadinho -- admitiu Heath, metendo as mos nos bolsos do
casaco. -- O que ainda  legal.
      Brandon nem acreditava no que ouvia. O autoproclamado devasso tinha passado a noite
toda... juntinho? Pera, isso no tornava Brandon mais depravado do que Heath?
      -- Claro -- disse Brandon, pensando de novo na maciez da pele de Helga, que na Sua
eles deviam ter algum hidratante milagroso que transformava a pele em seda. --  legal. --
Mas eu sou mais legal.
      -- Eu s fiquei... -- A voz de Heath estacou. Ele chutou um grumo de neve no ar. --
Sabe como . Pensando em Kara.
      Brandon parou de repente. Ele sabia que Heath tinha ficado arrasado quando Kara o
largara um ms antes -- nunca vira o colega de quarto chorar e foi comovente, de um jeito
meio assustador. Mas depois de alguns dias de lamrias, Heath conseguira voltar quase
naturalmente a sua velha identidade sacana e mulherenga. Ou assim pensou Brandon. Ele
olhou para Heath, cujos olhos normalmente despreocupados confirmaram o que ele dizia. Ele
no esquecera Kara.
      -- Vai dizer a ela? -- perguntou Brandon, curioso.
      Agora que pensou nisso, foi mesmo estranho quando Heath ficou subitamente
interessado em ver a apresentao de Sonho de uma noite de vero no Clube de Teatro na
semana anterior. Brandon imaginou que tinha mais a ver com o boato de que as ninfas da
floresta estavam nuas do que com o fato de que Kara Whalen era gerente de palco, mas agora
precisava repensar as coisas.
      -- Sei l, cara -- disse Heath, meio irritado, ou s fingindo irritao. Ele continuou
andando. --  s um fato. Nem sei se tem alguma coisa a fazer sobre isso.
      Brandon lhe deu um tapinha nas costas. Heath empurrou Brandon num banco de neve,
retaliando.
      -- No to rpido, porra! -- Os dois se perseguiram no caminho de volta ao
alojamento, jogando um no outro as bolas de neve mais duras que conseguiam fazer.
          insley apareceu no recanto de caf da manh da casa de Yvonne Sidder na sexta de
          manh cedo, largando a bolsa Prada a seus ps.
                -- E a, d pra gente ir andando, por favor? -- gemeu alegremente, jogando-se
no colo de Callie.
      -- Algum est de bom humor. -- Callie estava sentada com um bagel tostado com
geleia de uva ainda intocado a sua frente. Ela tentou se livrar do corpo leve de Tinsley, mas
ela passou o brao por seu pescoo e lhe plantou um beijo no rosto.
      -- De muito bom humor -- assentiu Jenny, olhando infeliz os farelos do muffin de
laranja e amora.
      Ela nem sabia se j vira Tinsley feliz. Nunca. J a vira parecer satisfeita, puxa-saco,
exultante, diablica, alegre, at contente, mas no feliz. Seus olhos violeta de Elizabeth
Taylor positivamente faiscavam.
       Jenny no se sentia to bem, sofrendo de uma grave ressaca e um forte arrependimento.
No vira Casey de novo depois de dizer embriagada que o amava e, sempre que pensava
nisso, tinha vontade de vomitar. Tudo de novo. Ela se fez de idiota na frente de um cara que
mal conhecia -- de novo. Tomou outro gole imenso de gua e esperou que os comprimidos
de Advil extraforte fizessem efeito logo.
      Tinsley arqueou uma sobrancelha escura e perfeita. Seu cabelo preto e liso estava
puxado em duas marias-chiquinhas que comeavam na nuca e caam pela metade do cardig
listrado de preto e cinza de manga curta Juicy Couture.
      -- Acho que estou pronta para voltar  escola. -- Ela deu uma mordida no bagel de
Callie antes de pular e espanar as sementes de gergelim da saia Rock & Republic preta.
      -- Por que ser?
      Callie torceu os cantos da boca com gloss Chanel num meio sorriso. Pegou uma gota de
geleia que tinha cado no suter de gola rul Ralph Lauren e tombou a cabea de lado para a
sala de estar, onde Julian estava arriado no sof, jogando videogame.
      -- Voc vai mesmo voltar? -- Jenny colocou o prato na pia de ao inox sobrecarregada
de pratos e restos de comida. Ela se ofereceu, meio desanimada, para ajudar Yvonne a limpar
tudo, mas Yvonne garantiu alegremente que as faxineiras marcaram para chegar dali a
algumas horas e estavam loucas para receber a bonificao de feriado no pagamento da
semana. -- Pode ir para minha casa, agora que os Hare Krishnas devem ter sado.
      -- Que amor. -- Tinsley, com meias de listras cinza-escuro, girou num crculo sobre a
ponta dos ps. -- Mas j estou arrumada.
      -- E voc? -- perguntou Jenny a Callie, cujos olhos castanhos pareceram meio perdidos
a manh toda. Callie afastou o bagel e se levantou.
      -- Remarquei minha passagem de avio. -- A saia de Callie se levantou e revelou uma
tira mnima de pele branca acima dos Sevens pretos. -- Vou para casa. Para descansar.
      -- Precisa de uma comidinha caseira? -- perguntou Tinsley, passando a mo na barriga
de brincadeira. -- Alguns gros de aveia e milho na espiga?
      -- Algo assim. -- Callie lhe mostrou a lngua. -- Minha me tem que compensar um
monte de coisas. -- Ela jogou o cabelo louro arruivado e deu de ombros. -- Deve valer pelo
menos um par de Louboutins.
      -- Est pronta? -- perguntou Julian, colocando a cabea para dentro da cozinha.
      Com uma camiseta xadrez cinza desbotada Racounteurs e jeans largos, o cabelo
molhado caindo em mil lados diferentes, ele estava totalmente lindo. Jenny olhou para
Tinsley, que sem dvida tambm percebeu a beleza dele.
      Um sorriso torceu os cantos dos lbios com gloss de Tinsley.
      -- Julian tambm vai pegar o trem.
      Callie e Jenny trocaram um olhar, e Tinsley torceu o nariz para as duas antes que Julian
pudesse ver.
      -- Deixa eu pegar minha bolsa... Vou descer com vocs. -- Callie desapareceu em uma
nuvem de perfume Joy Jean Patou.
      Jenny andou pelo apartamento, ainda um tanto deprimida, procurando por alguma coisa
que tivesse deixado para trs. Casey tinha desaparecido em alguma hora naquela manh. Sem
se despedir. Jenny tentou no deixar que isso a incomodasse, pensando que seria legal passar
alguns dias com o pai -- e s o pai. Talvez andassem pelas livrarias do Upper West Side,
procurando tesouros e fazendo umas compras antecipadas de Natal. Eles parariam e
almoariam em um dos restaurantes de caldos preferidos de Jenny, ou na espelunca tailandesa
na quadra deles que fazia o melhor pad thai que ela j comeu na vida.
      Instantes depois ela saiu do elevador com Tinsley, Callie e Julian. O ar frio da manh
era claro e fresco enquanto o porteiro abria a porta para o grupo. Eles ficaram sob o toldo
verde do prdio e procuraram os culos de sol. A neve cintilante ainda no teve tempo de
ficar toda suja e cinza, e a cidade parecia uma paisagem de inverno. O corao de Jenny
acelerou. Ela adorava estar em casa.
      -- Precisamos de um txi -- disse Tinsley, batendo a bolsa na de Julian enquanto a
largava na calada.
      -- Na verdade, trs. -- Callie olhou o cu e Jenny se perguntou se ela procurava o
Empire State, imaginando se Easy ainda estaria l. Ela contou toda a histria esta manh e
Jenny de certo modo desejou poder dar um abrao em Easy. Ela sabia como era ter o corao
partido -- ou talvez no soubesse. Ser que realmente esteve apaixonada na vida?
      -- Aonde vo? -- perguntou o porteiro, entreouvindo.
      -- Grand Central -- disse-lhes Julian. Ele pegou a bolsa de Tinsley e a levou para o
meio-fio.
      -- JFK. -- Callie colocou um par de luvas de cashmere azul-beb.
      -- Upper West Side -- disse Jenny.
      O porteiro tirou o apito do colete e saiu na Park Avenue, agitando a mo.
      O telefone de Jenny zumbiu e ela o pegou por instinto, quase deixando-o cair na neve.
Viu um nmero desconhecido, o que sempre a deixava em pnico, mas abriu assim mesmo.
Oi, desculpe por no me despedir. Vc estava lindinha dormindo. Vc  um amor e devia vir me
ver na Union. Bjs. Casey.
      -- No  dos Hare Krishnas, ? -- perguntou Tinsley com um falso olhar de alarme.
      -- Que Hare Krishnas? -- perguntou Julian, confuso.
      -- Conto depois. -- Tinsley casualmente colocou a luva no brao dele. -- Uma histria
para o trem.
      --  Casey. -- Animada, Jenny leu a mensagem em voz alta, as palavras saindo de sua
boca com orgulho.
      -- Algum tem namorado novo -- disse Callie com indiferena, olhando a ponta das
botas.
      -- Humm, talvez no. -- Jenny fechou o telefone, sentindo-se cheia de poder. Talvez
ela lhe mandasse uma mensagem depois... Ou s amanh. Ou talvez ela nem mandasse
mensagem nenhuma. -- No sei se estou pronta para ter namorado agora.
      Assim que as palavras saram de seus lbios, Jenny entendeu que eram verdadeiras.
Como tinha acabado de conhecer Casey, s o que ela queria era que ele a quisesse. E agora
que ele tomou a iniciativa, bem... Talvez fosse mais divertido no ficar ligada a ningum. Por
enquanto.
      Tinsley sorriu para Jenny, as duas trocando seus parabns em silncio. Jenny sorriu
tambm.
      O homem dos sonhos podia esperar. Agora ela s queria se divertir um pouquinho mais.
                    ire  esquerda aqui -- instruiu Brett, semicerrando os olhos para as
                    orientaes impressas do Mapquest. -- Depois  direita em 300 metros.
                          -- Ele mora mesmo aqui? -- perguntou Bree, girando o volante do
BMW Mini alugado.
      Era tarde de domingo e Bree ia voltar a Nova York. Willy, que passou o resto do fim de
semana com os Messerschmidt, insistira em pegar o trem de volta, para dar a Bree e Brett um
pouco de privacidade. Foi um amor da parte dele, e Brett, no caminho para Nova Jersey,
contou toda a histria cheia de drama de seus ltimos meses na Waverly, de ficar com o Sr.
Dalton, o professor de latim gato, mas nojento, a ficar com Kara e terminar com Jeremiah --
trs vezes. Bree rira nos momentos certos e disse exatamente as coisas de irm que Brett
sabia que ela diria, e ela j se sentia mil vezes melhor.
      -- Aqui! -- exclamou Brett. -- Eastman Parkway, 1212.  aqui. -- Brett olhou o
gramado bem-cuidado e a enorme manso Tudor. Seu corao saltou ao ver o Mustang preto,
de mala aberta, ainda na entrada. -- Valeu pela carona, B. -- Brett deu um longo abrao na
irm.
      -- Te amo, mana. -- Bree olhou por sobre os culos de aviador vermelhos. --
Comporte-se. -- Brett pegou a bolsa no banco traseiro e acenou enquanto o Mini voltava pela
entrada. Respirando fundo, Brett se virou e seguiu pelo passadio at a escada. Mas antes que
chegasse l, a porta de carvalho escuro Old English -- com uma imensa cabea de leo como
aldrava -- abriu-se e Sebastian saiu, de jaqueta, com a gola erguida.
      Ele parou ao ver Brett.
      -- O que est fazendo aqui?
      Brett corou. No pensou exatamente no que ia dizer e de repente pareceu m ideia
simplesmente dar as caras ali.
      -- Eu queria, humm, aceitar sua oferta. Da carona de volta  Waverly. -- Ela mexeu os
ps.
      Sebastian tombou a cabea de lado e olhou para Brett por um segundo antes de dar de
ombros.
      -- Tanto faz. -- Uma bolsa Tommy Hilfiger vermelha e azul gigantesca estava
pendurada em seu ombro e ele fechou a porta, depois testou para ter certeza de que estava
trancada.
      Sentando-se no banco do carona, Brett puxou para baixo e com pudor a bainha da
minissaia de estampa geomtrica preta e branca, mas pela primeira vez Sebastian nem olhou
suas pernas. Decepcionada, ela ficou olhando pela janela.
       -- Sua casa parece bonita. -- Ela tentou conversar. Perguntou-se se tinha uma
decorao britnica por dentro, ou uma sala de bilhar, mas assim que abriu a boca para falar,
Sebastian se pronunciou.
       -- Pode escolher a rdio -- props ele, saindo cautelosamente da entrada da casa. Brett
de certo modo sentia falta de como ele acelerava o motor.
       -- Est tudo bem -- declinou Brett. -- O carro  seu.
       --  srio, vai nessa. -- Ele nem a olhou. -- O que voc quiser est bom para mim.
       Brett mexeu no rdio, passando pela esttica at achar uma emissora que no estivesse
nos comerciais.
       -- E a, humm... Est pronto para voltar? -- perguntou ela sem jeito enquanto Sebastian
entrava na via expressa.
       Sebastian deu de ombros.
       -- T. -- A jaqueta Hugo preta com listras brancas nas laterais parecia nova. Talvez a
famlia dele desse presentes de Ao de Graas, ou talvez ele tivesse ido ao shopping em
Short Hills na sexta tambm. -- E voc?
       Brett mexeu no colar de turquesa no pescoo. Qual era o problema dele? Ela odiava
admitir, mas sentia falta do tom brincalho de suas caronas anteriores e sabia que era culpa
dela. A ideia de que ela lhe devia um pedido de desculpas pelo que aconteceu no Dia de Ao
de Graas a incomodava. No foi legal us-lo como uma espcie de peo num jogo para
irritar os Cooper, e foi menos legal ainda ter uma briga aos gritos com a irm sobre isso. Mas
levantar esse assunto de novo seria... esquisito.
       -- T, acho que sim -- respondeu ela, a voz igualmente despreocupada.
       Eles se misturaram ao trnsito pesado, os carros cheios de famlias indo para casa
depois do fim de semana prolongado. Um mar de lanternas de freio vermelhas se
esparramava diante deles  medida que os carros paravam e recomeavam a andar no trfego.
       Eles ficaram sentados em silncio por um tempo, at que Brett no aguentou mais.
       -- Voc se divertiu com a sua famlia?
       -- Claro. -- Sebastian assentiu, cantarolando com o rdio.
       Ele abriu um pouco a janela e acendeu um cigarro. O cheiro de fumaa e da colnia de
Sebastian se misturaram no nariz de Brett e ela se surpreendeu ao ver o quanto era
reconfortante, lembrando-a dos ltimos dias em casa. Com os Cooper mais velhos longe, os
pais e a irm voltaram a seu jeito normal. Fizeram um pacto de se comportar na frente dos
futuros sogros de Bree -- era assim que os chamavam -- sem exagerar. Na noite anterior,
Willy apareceu para ver a TV a cabo, navegando de um reality show a outro enquanto comia
tigelas imensas de sorvete Cherry Garcia. Bree e Brett fizeram as unhas uma da outra
enquanto Willy tentava ensinar Peaches e Princess a se fingir de mortas. Por todo o fim de
semana prolongado que comeara estressante, Brett se sentiu reviver, pronta para voltar 
insanidade que era a Waverly.
       Mas ainda havia uma coisa que a incomodava. Ela no tinha estado pensando
exatamente em Sebastian o fim de semana todo, mas sua presena ao vivo deixou uma aura
na casa e volta e meia Sebastian pipocava em sua mente -- o quanto os chihuahuas o
adoraram, como ele ficou satisfeito quando se lembrou dela da praia tantos veres antes. E
ela no detestou isso.
       -- Olha. -- Brett se mexeu no banco e mordeu os lbios com Gloss Dior Addict Red
Stockings. -- Eu te devo desculpas -- disse ela rigidamente.
       Sebastian tombou a cabea de lado, mas no tirou os olhos da estrada.
       Brett percebeu como parecia uma idiota e voltou a seu tom de voz normal.
       -- srio, me desculpe.
      -- Pelo qu? -- perguntou Sebastian.
      Ele reduziu a velocidade para acompanhar o trfego, as luzes de freio do carro da frente
acendendo-se e apagando, depois permanecendo num vermelho fixo. Sebastian parou o carro
e ficaram ali, presos no engarrafamento. A silhueta de Nova York era visvel ao longe.
      -- Desculpe por convidar voc para o Dia de Ao de Graas usando uma desculpa
esfarrapada. -- Brett olhava as unhas recm-pintadas de vermelho.
      -- Para me deixar sem graa -- acrescentou Sebastian. Ela ainda podia ouvir a mgoa
em sua voz.
      --  o que voc acha? Que eu queria te deixar sem graa? -- Ela jamais quis magoar
ningum intencionalmente -- e muito menos Sebastian.
      Ele deu de ombros de novo.
      -- Claramente voc no me convidou porque queria estar comigo.
      -- Vou admitir que eu tinha segundas intenes. -- Ela girou na direo dele no banco.
Era idiotice dela no ter notado isso antes, mas ela se divertiu muito com Sebastian,
completamente independente dos Cooper, e de repente era importante que ele entendesse
isso. -- Eu queria, sabe, chocar aqueles bestas. -- Ela o olhou, humilhada. -- Mas acabei me
divertindo muito com voc. Ser que voc podia, sabe como , me perdoar?
      Sebastian semicerrou os olhos.
      -- T, acho que sim -- disse ele, abrindo um meio sorriso. -- At parece que no gostei
do olhar daquela velha quando voc a pegou encarando meu cabelo.
      -- E ela sacou... Eu sei que sim -- garantiu Brett a Sebastian, rindo. Ela o olhou pelo
canto do olho e suspirou, ficando sria de novo. -- No tenho orgulho nenhum de meu
comportamento.  s que minha irm estava...
      Sebastian ergueu a mo.
      -- Ei, j acabou. -- Ele a olhou enquanto o trnsito comeava a se mover de novo. -- O
que passou, passou.
      -- Tudo bem -- disse Brett, obediente.
      Ela olhou pela janela, perguntando-se se Jenny e Callie estariam voltando para a
Waverly agora. Talvez Jenny j estivesse l quando Brett chegasse e elas pudessem fazer
margaritas. Ela recebeu e-mails de Jenny e de Callie, contando das loucuras do feriado, mas
estava louca para v-las pessoalmente.
      -- S tenho uma pergunta para voc. -- Sebastian passou a mo no rosto e Brett ficou
tensa, indagando-se se foi tudo uma armao para que ela pagasse por seu mau
comportamento.
      -- Voc trouxe aquela roupa sexy que estava usando no Dia de Ao de Graas? -- Ele
arqueou as sobrancelhas e sorriu.
      Brett sentiu todo o rosto corar. Na realidade ela vasculhou o armrio e guardou algumas
das velhas roupas, as que chocariam gente como os Cooper -- mas de jeito nenhum ia dar a
satisfao de contar isso a Sebastian.
      -- Acho que vai ter que esperar para ver.
      Um comercial no rdio acabou e uma msica de Springsteen apareceu pelas ondas do
rdio. Em vez de se encolher, Brett aumentou o volume, sorrindo para Sebastian. Ele sorriu
para ela e pegou a pista da esquerda, passando pelo trnsito parado e voando para os campos
cobertos de neve da Waverly.
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AlanStGirard: Caraca,  verdade que vc ficou com as gmeas
Dunderdorf???

BrandonBuchanan: Cara, j t sabendo disso?

AlanStGirard: Ento  verdade?

BrandonBuchanan: No tudo... S uma delas.

AlanStGirard: A, mano! Arrebentou. E a Sage?

BrandonBuchanan: Quem??




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BennyCunningham: Acabo de ver Brett saindo do carro esporte
preto de seu coleguinha de estudos.

SageFrancis: Que interessante. Eles estudaram latim no feriado
todo??

BennyCunningham: E vi Tinsley enroscada num sof na Maxwell
com aquele calouro gato, o Julian.

SageFrancis: Cara, todo mundo se ocupou no feriado, menos eu?

BennyCunningham: J que falou nisso, t sabendo de um lance
sobre Brandon e uma modelo sueca??

SageFrancis: Valeu. Voc  a oitava pessoa a me dizer.
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EmilyJenkins: Soube que Callie e EZ se separaram para sempre?
Ele estava tipo pronto para pular do Empire State ou coisa assim.

AlisonQuentin: Totalmente doido! Acho que eu e Alan tambm
terminamos.

EmilyJenkins: Ah, no! Precisa de um ombro amigo?

AlisonQuentin: Preciso mais  de uma boa bebida. E de uma
fofoca de verdade. Soube que Jenny e Tinsley agora so grandes
amigas? Dizem que elas vo aprontar algumas das boas.

EmilyJenkins: O que foi que aconteceu no feriado?

AlisonQuentin: Hummm, o que foi que no aconteceu?




               Fim
Adored (Adorada)
